Suits voltando a ser Suits.

O grande foco desta terceira temporada de Suits é a relação entre Harvey e Donna, ainda que essa não seja o arco que recebe maior tempo de tela. O que é condizente com o que a série costuma explorar, dando destaque às relações entre seus personagens – quase sempre utilizando diversos paralelos para isso – sem fazer grande alarde. O que é curioso é o fato de Suits trazer sempre perspectivas diferenciadas, sem nunca se esquecer de explorar todas as suas tramas em andamento. Quando o faz, em episódios como She’s Mine, o resultado é sempre positivo, e aqui não é diferente.

Escrito por Paul Redford – que estreia na série – e dirigido por Anton Cropper, o episódio traz as consequências do que vemos em The Other Time, partindo imediatamente para ação ao mostrar o confronto entre Harvey e Stephen, na presença de uma confusa Donna. A partir disso, o primeiro, juntamente com Mike e Jessica, tentam reverter o problema causado pelo testemunho do Coronel Mariga. A sócia, aliás, não está contente com a traição de Harvey, e faz sérias ameaças à sua recente parceria com Darby. Enquanto isso, Louis segue sua guerra com Nigel, agora mais explícita, em uma sangrenta disputa pela gata do segundo.

O maior êxito de She’s Mine é o fato de saber trabalhar suas tramas sem que estas se tornem atropeladas, como vimos em Shadow of a Doubt, por exemplo. Isso acontece principalmente pela hábil condução narrativa de Cropper, capaz de gerar um ritmo dinâmico e relevante, evitando a sensação vista no já citado episódio, em que coisas demais aconteciam para descobrirmos que nada importante de fato ocorria. Mas o episódio também acerta em se aproveitar de seus arcos para criar duas importantes disputas, uma explícita e outra nem tanto.

A mais evidente delas é a de Louis e Nigel por uma gata. Ao contrário de outras ocasiões, aqui a trama foge de ser meramente um alívio cômico, embora funcione muito bem como tal. Por conta das reais motivações do eterno rival de Harvey, que envolvem desde a perda de seus associados até a recente promoção de seu nêmesis, a história que poderia se tornar uma enorme caricatura funciona muito bem dramaticamente. Um feliz êxito de Redford, que sabe explorar as dificuldades do personagem para estabelecer um arco inusitado, mas muito competente.

É verdade que a participação de Rachel nessa trama não chega a acrescentar muito, mas seria a única personagem que poderia ajudar Louis, já que os outros estão ocupados com coisas mais importantes. Esse é um aspecto crucial em She’s Mine, denso em termos de confrontos, mas que consegue se equilibrar através da inesperada disputa de custódia. Para isso, é vital que os personagens envolvidos se distanciem, para que a devida importância seja conferida à trama. No único momento em que isso não acontece, quando Rachel pede ajuda ao namorado, é para salientar exatamente a relevância da disputa interna entre Louis e Nigel, quando ele imediatamente abandona o que está fazendo para tentar ajudá-la.

Aliás, She’s Mine utiliza Mike de forma mais apropriada do que os episódios anteriores, que se focam em demasiado em seu arco romântico, que não funciona tão bem isoladamente. Quando ele trabalha com Harvey, no entanto, a presença do personagem é melhor executada, utilizando-o quase sempre como contraponto às atitudes do chefe. O melhor exemplo disso aqui é um momento em que Harvey insinua para Jessica que Ava deveria saber sobre as ações de seu número dois, e a câmera, em outra bela investida de Cropper, imediatamente muda seu foco para mostrar a reação de Mike, evidenciando a dolorida cutucada. Além disso, o episódio ainda o aproveita como advogado de maneira mais relevante, explorando suas já conhecidas habilidades de forma a torná-lo peça fundamental na descoberta que muda o rumo da trama.

Mas a outra disputa que mencionei, mais sutil, é a de Donna, dando mais um significado para o nome do episódio. Se os capítulos anteriores ressaltam as semelhanças entre Harvey e Stephen, e justificam as ações da secretária, aqui o que vemos é a lealdade intrínseca dela ao chefe, tomando imediatamente partido mesmo depois de jurar não fazê-lo. Na verdade, a imagem que inicia o episódio (e que ilustra esse texto), cria uma dúvida sobre o lado que ela escolheria apenas no princípio, já que Suits logo deixa claro que Donna jamais irá contra Harvey, em hipótese alguma.

O que nos leva às revelações finais de She’s Mine. Primeiro, o que faz Donna encerrar qualquer relacionamento com Stephen, que a coloca em uma posição fragilizada vista apenas uma vez, quando fora posta contra a parede por Louis, na segunda temporada. Seu curto diálogo com Mike é suficiente para mostrar isso. Mas o mais importante é o que revela as verdadeiras intenções de Stephen. Essa reviravolta é muitíssimo bem construída ao longo dos episódios, sempre mostrando certas atitudes que não se justificariam apenas pelo fato de trabalhar para Darby, criando no espectador a sensação implícita de que há grande desespero pessoal em tudo que Stephen faz para atrapalhar o caso. O que é apenas confirmado aqui, estabelecendo mais um vilão para contribuir com uma trama bem construída e pouco conveniente, colocando a Pearson Darby em posição pouco confortável.

Tudo isso torna She’s Mine o melhor episódio da temporada, uma vez que sabe explorar suas tramas de forma muitíssimo competente. Ainda que tenha um ou outro problema, como o anúncio de que Rachel irá para Columbia, ressaltando o óbvio fato de que não havia possibilidade de ela ir para Stanford, apesar do conflito com Mike. Mesmo assim, vemos Suits trabalhando a relação entre seus personagens como não havia feito neste terceiro ano, além de estabelecendo as diretivas para os próximos episódios, que não devem explorar o que se esperava, diante do recuo de Harvey.

O que leva à seguinte pergunta: e agora?

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