O que Suits sabe fazer de melhor é trabalhar seus personagens. Não apenas a dupla de protagonistas como todos os coadjuvantes tem funções bem definidas dentro de seu universo, e suas relações são exploradas conforme as tramas são desenvolvidas, alternando conflitos sempre que necessário para isso. É uma estrutura difícil de se conceber, já que depende demais da sutileza de um showrunner e do cuidado para que não hajam incoerências no caminho. Nesse aspecto, é possível perceber os porquês de The Other Time ser o melhor exemplar desta terceira temporada, e Shadow of a Doubt o mais problemático.

Começando por Shadow of a Doubt, é possível ver que, dentre todos os episódios da temporada, esse é o que soa mais deslocado. Isso acontece por inúmeros motivos, mas o mais importante deles é o fato de o roteiro, de Genevieve Sparling, procura explorar um número muito grande de arcos de forma a dar tempo de tela a certos personagens. No entanto, o resultado é atrapalhado, já que nenhuma das tramas de fato é levada a algum ponto relevante, limitando-se a uma série de tropeços encavalados que apenas tornam a narrativa arrastada.

Tome como exemplo a trama que envolve o conflito entre Louis e Nigel. Ainda que haja a intenção de estabelecer uma guerra para o personagem dentro da Pearson Darby, já anunciada anteriormente, e de que isso mais uma vez estabeleça um paralelo entre ele e Harvey, sua odisseia soa apenas como desnecessária em um episódio com tantas outras motivações. Dessa forma, a briga com relação aos associados, que logo se transporta para o gato de Nigel, funciona timidamente como alívio cômico, ofuscada em todos os sentidos por outros arcos que, mais importantes, ganham maior destaque. Em outras palavras, certamente seria mais proveitoso aproveitar esse momento em um episódio em que não houvesse tantas alternativas.

Como o dilema de Donna em relação a Harvey e Stephen. Note como ela também tem função cômica, especialmente em seus diálogos com Rachel, mas que tem êxito muito maior por conta da maior imposição de seu arco, que precisa destacar a personagem por razões apontadas pelo próprio Louis. Além disso, a dependência de Harvey em relação à secretária é o que Shadow of a Doubt procura externar, o que faz com competência, abrindo o episódio com uma cena em que ele imediatamente sente a falta dela enquanto Donna realiza outras atividades.

Tudo isso se torna importante para semear o conflito entre Harvey e Stephen. Como de praxe, Suits constrói diversos espelhos e os manipula conforme necessário para gerar novos arcos. E a briga de Harvey com sua figura britânica é importante para ressaltar a personalidade difícil que o próprio possui, além de seu caráter naturalmente enigmático. É verdade que isso pouco acrescenta para o arco central de Shadow of a Doubt, mas é importante para o cenário que a série tem montado para o restante da temporada.

Por outro lado, o episódio insiste em algo que não vinha fazendo. Atirar Mike e Rachel em uma briga por conta de um segredo descoberto, especialmente relacionado às universidades que ela está pleiteando entrar, é não apenas um clichê romântico como algo constantemente visto em rasas tramas adolescentes. Dessa forma, todos os contornos de sua trama se tornam instantaneamente aborrecidos, juntamente com o desfecho de um caso que surge tão repentinamente quanto o próprio interesse de Rachel em Stanford, quando ela mesma insistia que Harvard era sua única opção e não parecia disposta a mudar de opinião.

Em contrapartida, The Other Time traz Suits em sua melhor forma. Primeiro por criar uma atmosfera diferenciada, sempre bem-vinda em séries de natureza procedural, ainda que Suits tenha deixado para trás esta origem há algum tempo. Desconte-se a datada fotografia dos flashbacks, de efeito semelhante a uma foto no Instagram, e temos o episódio mais bem desenhado da temporada. Isso acontece não apenas porque satisfaz a curiosidade do espectador em relação a certos aspectos, mas principalmente por nos fazer compreender melhor o atual cenário observando o passado.

É exatamente o que vemos na relação entre Cameron e Harvey. Se Suits sempre procura estabelecer Mike como uma versão jovem do chefe, nada mais natural do que procurar criar humor mostrando o personagem de Gabriel Macht tomando atitudes condenadas atualmente pelo próprio. Mais do que isso, a série desenha um background deste relacionamento, apontando exatamente seu ponto de ruptura, explorando velhos conceitos vistos na segunda temporada.

Aliás, é louvável a forma como o episódio acrescenta o pai de Harvey, com função de tornar o personagem emotivo e sentimental, aproximando-o novamente de Mike e seus longos diálogos com sua avó. O que justifica sua atitude de não se deixar corromper pelo poder e dá um ponto final ao que já desconfiávamos anteriormente sobre a acusação de destruir evidências.

O que vemos pelos discursos de Donna. Intrometida desde os primórdios, a secretária é, novamente, a fiel da balança do episódio, surgindo como uma elegante maneira de criar uma voz da consciência em seu chefe. A comprovação de que ela e Harvey tiveram, de fato, uma pequeno romance, é importantíssima não apenas por criar diversas situações cômicas e quase explicar a tradição do abridor de latas. As cenas entre eles são cruciais para compreendermos o porquê da mágoa atual de Harvey. Ora, se anos atrás namorar alguém do trabalho não era sequer cogitado, por que com Stephen a situação é diferente? Note que ele ignora a desculpa dada por Rachel em relação aos escritórios serem localizados em países distintos.

Mais do que isso, The Other Time tem como principal objetivo estabelecer definitivamente uma guerra aberta entre Jessica e Harvey, e o faz de forma cruel, insistindo em ressaltar o quanto ela fizera por ele e o quanto ele fora honrado em outros momentos (ainda que julgue continuar sendo por abrir o jogo). Como de costume, os advogados da série ignoram atitudes do passado para se focarem no presente, e Jessica aceita muito mal o aviso, criando um visível mal-estar causado pelos flashbacks que vemos.

Como ponto fraco temos a trama que revela mais do passado de Mike. Embora esta tenha uma clara função de unir pontas soltas, satisfazendo a curiosidade sobre o motivo dele nunca ter frequentado Harvard em detalhes, ela não chega perto do êxito de seu par no episódio. Isso acontece exatamente porque não acrescenta grande coisa ao personagem, especialmente por reaproveitar Trevor, um personagem desaparecido há muito tempo. Além disso, a própria motivação do flashback, envolvendo seu conflito com Rachel, é fraca e soa artificial, apenas para que Mike tivesse uma função narrativa semelhante à de Harvey.

Ainda assim, o episódio conta com um desfecho que envolve diversas rimas, para muitos de seus personagens. Em especial a de Louis, que ainda que apareça pouco, tem em suas falas momentos extremamente competentes em termos cômicos.

O que faz com que Suits se recupere do mediano Shadow of a Doubt, se desviando de sua trama principal sem abandoná-la e criando um interessante cenário para os próximos episódios.

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