Stranger Things entrega com The Spy momentos de gelar a espinha.
Criar um clima propenso para a tensão, em uma série que usualmente é devorada em poucos dias, é um trabalho hercúleo. Em determinado momento você está tão cansado, que as emoções simplesmente não entram em linha com o que o roteiro queria passar. Exatamente por esse motivo séries da Netflix, especialmente as da Marvel, impõe um ritmo frenético logo de cara, para depois começar seu desenvolvimento, usualmente o ponto em que a grande maioria do público começa a reclamar de problemas com ritmo. A saída mais fácil é colocar um gancho surpreendente lá no final, te impulsionando para o retorno rápido. Stranger Things não é isenta destas jogadas clássicas, mas consegue segurar as pontas com mais facilidade quando o suspense é obrigatório.
Toda a construção de The Spy serviu para movimentar peças, sem grande alarde, enquanto o clima é exibido. É aquele velho momento em que os personagens estão todos reunidos e aí o grande problema surge. A melhor cena, porém, é uma que emula com exatidão a sensação que tive ao assistir ‘O Exorcista’, com Joyce/Winona reproduzindo com maestria o desespero de Chris (Ellen Burstyn) ao questionar a sala cheia de médicos e cientistas o que estava errado com o filho dela. Todo o desespero trouxe de volta a aura da personagem na temporada inicial, porém com um domínio maior de cena e presença. Joyce não precisa mais ser conduzida por Hopper, e é aí que mora o problema, para ele.
Hopp teve um momento incrivelmente sentimental neste episódio, o maior dele dentro de toda a série – com exceção de seu flashback com a filha, que por se tratar de uma memória do passado, meio que não vale. Sua confissão e também amor paternal, confessados para uma sala vazia, apontam um grande risco para o personagem. É praticamente uma carta de despedida, que Eleven talvez nunca ouça. Seria a melhor oportunidade para termos El sem nenhum motivo para retornar para Hawkins, ou se despedir dela totalmente. Tê-la como parte integrante do time seria complexo e bagunçaria muito a dinâmica do grupo, especialmente por causa dos poderes, logo em termos de narrativa vê-la partindo é o mais telegrafado. Claro que posso estar errado, mas a sensação de que despedidas estão próximas é muito forte.
Obviamente o melhor momento foi, de fato, a dupla Dustin e Steve. Gosto bastante de pares absurdos dentro de séries e a dinâmica entre o adolescente e os garotos é especial. Da referência a Alien quando Steve encontra a pele morta do filhote de demogorgon, ao plano e execução no ferro velho, eu não poderia estar mais feliz com a decisão de separar o casal Nancy e Steve, dando assim a oportunidade para que o cabeça de laquê funcione em outro núcleo e com outros objetivos. No final, Steve termina sim bem legal, ao passo que Jonathan segue bem desprezível. Seguindo esse tom, melhor nem comentar sobre o romance, né?

Também fiquei feliz por finalmente terem adicionado Max ao grupo, oficialmente. É um pouco repetido ter a menina sendo idealizada por dois garotos, Lucas e Dustin, especialmente depois do que tivemos com Eleven na primeira temporada, mas compreensível. É aquela fase, não é mesmo? Contudo, fugindo um pouco deste aspecto romântico, é a história da garota e seu irmão, claramente abusivo, que melhor reflete a personalidade de Max. Esta construção segue um bom rumo, humanizando uma personagem e dando características que todo o grupo conseguirá se relacionar. Ali dentro todos são underdogs, os nerds que Erica tanto gosta de repetir para o irmão, Lucas. Logo, ao desmistificar a imagem da menina que é muito legal para a turma, Stranger Things terminou aproximando Max do restante da audiência.
Quem não conseguiu nenhum momento tão marcante, porém, foi Eleven, que desapareceu do episódio. Este tipo de saída reflete um problema com a série, até o momento. El é muito poderosa e afastá-la do restante do grupo agora, enquanto hordas de demogorgons viajam por Hawkins, é uma maneira de oferecer risco, sem nenhum tipo de apoio. Só que a série acertou ao entregar para a garotinha uma história totalmente interessante e válida, fazendo com que seu tempo “perdido” não fosse desperdiçado como estava naquela cabana, assistindo televisão.
The Spy é bem-sucedido porque entrega um rosto maior para temermos. “Ele”, que ainda não deu as caras e está agindo através de Will, é o grande vilão da série. Não imagino que nos veremos livres dele aqui na segunda temporada, já que sua história faria mais sentido ser encerrada como toda boa franquia, em uma trilogia. Sendo assim a sensação de perigo, claustrofobia e suspense figuraram como maior ganho deste sexto episódio, em uma temporada que está muito bem estruturada, até agora. Resta saber como nossos protagonistas trabalharão para vencer o mundo invertido e sua eminente invasão.
Pitacos aleatórios do mundo invertido em The Spy
– Tivemos o retorno do trilho de trem de Conta Comigo, que apareceu também na primeira temporada.
– Uma singela homenagem a Tubarão pode ser vista no episódio, quando Dustin e Steve estão espalhando carne fatiada para atrair o demogorgon.
– Quem lê Stephen King sabe que uma mudança para o Maine não é a melhor das ideias.
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– Para quem não sabe, Paul Reiser, o Dr. Owens, esteve em Aliens. Lá, ele dá um conselho para Ripley, “confie em mim”. Soou parecido com o que ele dá, agora como Owens, para Joyce?
















