Se ele não estivesse mergulhando em dinheiro depois de The Avengers, Joss Whedon estaria morrendo de inveja depois de um episódio como esse.

Spoilers Abaixo:

Toda temporada fantástica tem um episódio diferenciado. Seja por alterações na estrutura da narrativa, por colocar um personagem escondido diante do holofote, por empurrar o elenco em uma situação extremamente fora do comum… Enfim, esse é um dos modos usados para ilustrar o amadurecimento e conforto que os responsáveis pelo projeto passam a ter com o passar do tempo. No fim, essas decisões peculiares fazem com que determinados momentos sejam a referência imediata quando olhamos em retrospecto para a temporada. “Chaos” é um exemplo disso, assimilando todas as noções listadas para exibir sem receios as relações existentes entre as três duplas que se destacam em Southland. Além disso, a época escolhida para entregar um nível de tensão tão elevado não poderia ser mais propícia. É um fundamento comum do mundo das séries utilizar o penúltimo episódio para demonstrar paciência que será compensada com uma camada de aflição no Season Finale. Entretanto, a confiança que os roteiristas acumularam nessa temporada reflete-se nessa decisão de aumentar ainda mais os riscos de todos os arcos dramáticos desenvolvidos, posicionando todos os personagens em um mesmo patamar de fragilidade para entrarmos no desfecho.

Criar um senso de emergência sobre determinada situação é um dos maiores desafios que uma série pode ter quando ela está em uma posição de insegurança e vemos em “Chaos” porque essa quinta temporada se diferencia. A proposta é clara e consegue tornar-se ainda mais evidente e assustadora com o passar dos minutos. Os estágios que permitem que a morte de Lucero ocorra são tão bem arquitetados que deixam que a despedida de um personagem recém-chegado que não possuía tanto destaque ganhe esse contorno dramático de uma intensidade ímpar. “The Felix Paradox” mostra-se essencial graças ao seu foco na família do personagem, possibilitando que os diálogos mantenham-se coerentes por utilizarem o sofrimento da dupla para retratar essa dependência. Esse aspecto de “Chaos” pode passar despercebido justamente pelo fato de ele criar uma tensão insustentável naquele pequeno espaço, mas é importante observar a profundidade de Southland ao arquitetar os passos de John Cooper ao longo do ano. A perda de Lucero representa uma relação de causa e consequência que é criada de modo fantástico em um pouco pedaço de tempo, subvertendo uma noção que parecia óbvia inicialmente.

Em outros termos: vemos um conflito causado pelo desconforto de Lucero diante da sexualidade de Cooper e o tratamento de gelo permanece até a eventual situação em que essas pessoas devem resolver seus problemas. As leis da televisão associadas com o estilo da narrativa de Southland indicavam uma progressão natural até a resolução onde a dupla passaria a conviver com suas diferenças ou se separar pela mesma razão. O roteiro entra em um campo mais significativo e transforma a questão em uma experiência horrenda para eles, esnobando a construção dos dois com um tiro na cabeça que é tão banal que permite que “Chaos” atinja um patamar mais fantástico por essa razão. Não obstante a isso, a intimidade arquitetada é palpável através de gemidos e um conjunto de planos fechados que ganham uma magnitude maior pelo fato de não serem noções tão comuns entre Cooper e Lucero. Aliás, esse segundo fator confirma uma parte estética que é linda de ser vista, recheada de uma mudança adequada dos tons de fotografia que lembra “Heat” e usando a movimentação das câmeras para intensificar a velocidade das cenas, o que, consequentemente, traz uma sensação de claustrofobia pura naquele pequeno cômodo.

“Chaos” não possui um estudo dos personagens do mesmo modo como episódios anteriores, mas sua força reside nessa inquietude capaz de atingir qualquer um que esteja diante dos problemas daqueles dois policiais. A conexão entre as cenas são feitas de modo ágil, chegando até a mostrar a causa do flashfoward de um modo mais rápido que o comum e conseguindo atrelar o resto dos personagens para ampliar a noção de perigo que existe. Até mesmo as sequências auxiliares são mais curtas que o normal, possibilitando que o sequestro possa ter um desenvolvimento orgânico, criando os pequenos instantes de esperança que são quebrados pela dupla de sequestradores patrocinada por Heisenberg. Aliás, as tentativas de acalmar os meliantes são tão vazias que terminam refletindo esse instinto de sobrevivência que autoriza que Cooper e Lucero ajam de acordo com a situação sem se distinguir de suas características principais. O episódio não tem nenhum escrúpulo quanto à existência de atos grotescos e esse raciocínio é perfeito para nos trazer um fantástico elemento visual que colabora com a realidade da situação: um Lucero sangrando todos os litros de sangue que possui em um território que parece ser cada vez mais obscuro e terrível, possuindo simplesmente a família que o abandonou e John como suporte para continuar mentalmente estável.

O que é construído ao redor disso também é importante. São raras as ocasiões em que Southland joga os policiais de grupos distintos diante de uma meta semelhante e a utilização desse recurso é substancial para a situação de emergência. Lydia e Ruben mantêm-se com a simples função de investigar a localização de John e esse segmento é tratado com uma marginalização que consegue fazer com que a narrativa dimane organicamente. Até mesmo Sammy e Ben são capazes de entrarem em um momento próprio que cita de forma recorrente o contexto geral de “Chaos”. O segundo está cada vez mais corrupto e o fantástico da posição dele nessa quinta temporada é que todas as suas relações com outros personagens são semelhantes por terem um caráter incrivelmente instável, atingindo desde sua ex-namorada até seu parceiro e funcionando como pequenas partes de um quebra-cabeça que deve explodir no Season (Series?) Finale. Além disso, a investigação de Sammy para descobrir os responsáveis pelo que aconteceu com sua casa gira em torno de uma perseguição que apenas tem uma elaboração ideal na caçada que nos leva até a morte de Strokeface, mantendo-se em uma zona de conforto sem impactos consideráveis no resto do caminho.

Essa atitude é compreensível, considerando que o episódio é um dos últimos pregos a serem colocados no caixão da consciência de John Cooper. Seu plano para escapar proporcionou mais dor do que alívio e as condições de um desfecho infeliz estão completamente expostas para que o Season (Series?) Finale se aproveite disso para comprovar que a quinta temporada pertence ao personagem. Se bem que Southland não precisa mexer um músculo para comprovar a frase anterior, pois “Chaos” posiciona-se como um dos melhores episódios da série (talvez até o melhor, possuindo “Off Duty” como principal concorrência) ao usar essa fascinante figura em uma ocasião horripilante para isso.

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