Por onde anda aquela série divertida e interessante que um dia esteve aqui?

A resposta é bem fácil, se perdeu dentro de sua própria proposta. Ainda é difícil, pelo menos para este reviewer que vos escreve, abandonar a série e deixar de lado personagens tão carismáticos quanto Abbie e Ichabod, mas acaba se tornando cada vez mais fácil se afastar de qualquer interesse que um dia eu tive pela série. A explicação é apenas uma, Sleepy Hollow se tornou genérica e pasmem, nunca imaginei que usaria essa palavra para me dirigir a produção que um dia foi a coisa mais louca e sem noção da minha grade.

Por exemplo, um dos pontos mais interessantes da série e que lentamente caiu na irrelevância foi seu uso da história dos Estados Unidos para criar um paralelo com o presente. Bíblia de Washington? Quem lembra dela? O mesmo vale para a surpresa do episódio. Poderia existir um Thomas Jefferson mais genérico do que o apresentado em ‘What Lies Beneath’? Eu tenho certeza que não. Convenhamos, poderia ser qualquer nome jogado por Ichabod, qualquer um, já que a série está se valendo apenas das roupas e penteados para nos levar a crer que determinada pessoa realmente seja do passado do nosso herói.

E se iriam desprezar a existência da bíblia, qual o motivo de terem trazido o diário da amiga da Katrina? Não era mais fácil ter mantido a ilusão do primeiro item e sua importância? O destaque agora são os monstros semanais, não a mitologia da série. Me desculpem os amantes, mas eu não consigo fechar os olhos. Muitas séries demoram anos para estabelecer suas regras, os detalhes de seu mundo. Sleepy Hollow mal tem dois anos, em termos de quantidade, só agora ela estaria entrando na convencional segunda temporada, mas ainda estamos emperrados em um procedural que nada acrescenta.

O papel das testemunhas é qual? Ou nos revelam algo relevante, ou simplesmente enterrem o assunto. A impressão que fica é que a série deu uma importância maior para seus protagonistas do que estava disposta a levar até o final da série. Uma biblioteca abarrotada de informações pertinentes ao apocalipse e a função de Abbie e Ichadod, mas eles se conformam com sua explosão, afinal, existe a internet. E então, eles não pensaram em pesquisar tudo isso antes por qual motivo importante que a série não mostrou? Existe uma diferença bem grande entre brincar com quem assiste a série e fazer alguém de bobo. Que fique bem claro, Sleepy Hollow está nos fazendo de bobos já tem uns episódios.

Irving começou muito bem na série, Orlando Jones havia sido um achado, sempre divertido fazendo live tweets dos episódios e realmente, com uma função dentro da série. Agora ele está com a alma presa por uma runa, que mantém sua consciência. Tudo por que a série quis, não por que ela nos levou a testemunhar esse momento. Fica muito fácil renegar tempo ao personagem e depois jogar um flashback que nos revela uma informação importantíssima que merecia ter sido desenvolvida além da recordação, ou da confissão feita a Jenny. Cadê um episódio inteiro dedicado ao Irving? Ou a Jenny? Ou Abbie? Tudo é drama de marido e mulher, pai e filho, ou procedural.

Sleepy Hollow não está conseguindo passar a história dos personagens, ela está mais preocupada com um entretenimento que lentamente está se esvaindo. Para que utilizar a fórmula procedural e jogar uns fragmentos essenciais para a história como um “aconteceu lá atrás”? Se é importante, mostrem. Claro, ainda existem fórmulas narrativas que pedem um flashback, mas SH se tornou tão amarrada a este recurso, que agora, tudo o que é bom provém de uma lembrança.

Seria muito mais interessante, por exemplo, que um episódio passasse inteiramente no passado, tendo uma sequência no presente, mas que ele abrisse caminhos e não apenas justificasse ações. Olha, temos os pais fundadores, figuras importantes, se a meta é criar um drama sobrenatural com conexão direta com a independência dos Estados Unidos, que tratem o tema com a real importância que ele tem no imaginário dos telespectadores alvo, os norte-americanos. Ficar no limiar do bom não é meta para ninguém, nem deveria.

Mas, se tudo mais funcionou de maneira bem leviana, pelo menos Abbie ganhou um interesse amoroso. Uma pena, uma pena gigantesca que ele tenha surgido como um carro alegórico de clichês, que irão inundar nossa telinha por muito tempo (ou enquanto os redatores se lembrarem dele). Eu não gosto de pensar muito nos relacionamentos amorosos em Sleepy Hollow, obviamente os criadores da série nunca idealizaram romance e isso fica no holofote quando analisamos os pares que já foram criados, ou apareceram na tela. Hawley começou como um ex-affair de Jenny, se apaixonou pela Abbie, deu umas cantadas nela, sofreu com a birita por não ser correspondido e decidiu tentar de novo com a outra irmã, só para em seguida sumir. Irving foi casado, divorciou, a filha foi possuída, ele perdeu a alma, a mulher voltou e ele ainda não tem alma. Ichabod tinha como principal motivação tirar sua esposa do purgatório, ela saiu, decepcionou todo mundo, deu bola pro Cavaleiro sem Cabeça (que também cansou dela e tirou uma folga) e agora eles estão mais frios que reencenação de Frozen em peça escolar. Resumindo, o terreno do romance não foi bem explorado pela série.

Logo, por que criar um personagem novo e não aprofundar os antigos? Para que Abbie precisa de um interesse? Para que um repórter curioso? Sinceramente, eu estou esgotando minhas perguntas para com Sleepy Hollow, que infelizmente, se perdeu em sua própria loucura. Agora, enquanto tenta ser normal e passar momentos e cenas que todo mundo já está cansado de ver em séries do gênero, ela revelou uma face nada bonita. Bom, se tudo está ruim, pelo menos ainda temos Abbie e Ichabod, uma pena que seja em episódios que não condizem com a proposta inicial da série e que mesmo não sendo ruins, dificilmente conseguirão manter fiel quem já dedicou tanto tempo para assuntos fracos.

PS. Ainda é uma delícia ver Ichabod utilizando o vernáculo apropriado “desfez a amizade”, ou qualquer comportamento frente o mundo moderno que ele se diz tão íntimo.

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