Pelo menos teve karaokê.

E se o karaokê não tiver sido suficiente para esquecer os problemas com a reinvenção de Sleepy Hollow, pense pelo lado positivo, Hawley fez as malas para uma viagem que, tomara, será tratada da mesma maneira que vários outros plots da série, no esquecimento. Enquanto tudo muda, as dinâmicas se transformam, algo, para nossa sorte, permanece o mesmo, Ichabod e Abbie, mesmo que pela primeira vez, eles tenham passado por uma discussão de relacionamento sobre, pasmem, confiança e diálogo, duas coisas que ambos esbanjam desde o primeiro episódio da série. E pode ter certeza, de tudo o que já vimos até agora, os dois são os únicos motivos pelo qual eu permaneço nesta estrada tão cheia de buracos e com paisagem decadente a cada quilometro.

O foco dessa vez foi Hawley e por incrível que pareça, quase não vimos nada de flashback, além das cenas óbvias que continuam pipocando, como Abbie invocando Orion. Mas o mercenário loiro, esse foi até o fim com seu pequeno problema familiar. Não sei se algum dos redatores tem alguma base em psicologia, mas a relação medonha entre ele e sua “tia” foi de dar medo. Porém, querem saber a real? Quem liga para o que acontece com o Hawley? Sejamos honestos com nós mesmos, se não fossem as cenas no karaokê esse episódio dificilmente teria conseguido prender minha atenção, nem mesmo a cena a lá Indiana Jones/ Star Wars conseguiu entreter: Ah tá, uma parede com lanças, que medo. Ninguém vai morrer mesmo, por que se preocupar?

Existem casos de séries que não conseguem se despedir de seus atores. Acho que Sleepy Hollow está sofrendo deste grande problema. Hawley sai de viagem, Irving volta dos mortos e só tem importância nos últimos segundos, com um reflexo (ou falta dele) e não com suas falas, Katrina surge, ganha espaço, mas muda quase nada. Enquanto isso, Henry que poderia ter continuado seu reino de terror, sumiu, ninguém viu desde seu suposto sacrifício. E nem vou falar do Andy pescoço doido e sua breve aparição no purgatório. Se temos personagens bons, não consigo entender a fixação em manter e tentar desenvolver os ruins. Matem logo todo mundo e deixem Abbie, Jenny e Ichabod. Podem ter certeza, isso sim seria bom para a série, fazer uma limpa em tudo o que não está dando certo e de quebra jogar anos de terapia nas costas dos protagonistas, o que, convenhamos, sempre enriquece qualquer série.

Porém, apesar do lado procedural não ser atrativo forte, se a série quiser perdurar, ela vai precisar sim aprender a lidar com seu tempo. O risco esteve lá desde quando a série retornou para a segunda temporada com a promessa de mais episódios. Lá, eu já havia dito, mais nem sempre é um bom sinal. Algumas séries foram feitas para durar pouco, é essencial que o tempo seja administrado da melhor maneira. Se estivéssemos lidando com 13 episódios, teríamos já finalizado o segundo ano, dando espaço para uma renovação, impedindo que os números caíssem mais e liberando espaço para os redatores pensarem com calma no tipo de série que eles pretendem se transformar a longo prazo.

Casos da semana não são problemáticos, mas a falta de perspectiva é. Não existiria então a necessidade de finalizar o arco de Moloch antes do hiato, já que não foram feitos planos para que o nosso interesse perdurasse. Várias séries que amo, algumas que já amei, abusaram dos casos da semana para apenas lentamente desenvolver o vilão da temporada. Porém, raramente essas séries entregaram um season finale no meio do ano, como Sleepy Hollow. Banalizar o vilão é um dos maiores erros que qualquer produção possa cometer. E agora? Para onde iremos?

Sim, ainda temos Irving para nos preocupar. Mas será que o mistério ao redor da sua alma e do sumiço do Henry serão capazes de segurar as pontas até o final da temporada? Por enquanto não está sendo. Desenvolver lentamente o plot central não é erro, é inteligente, mas não dar nenhuma dica, ou apresentar apenas um relance não é brilhantismo. O mesmo vale para Katrina, que ao que tudo indica, sabe muito bem que Irving não está 100% bem como passou para sua esposa. A falta de reflexo levanta questões e tudo o que eu quero é que a resposta compense o caminho tortuoso que estamos trilhando.

Onde está aquela série louca, com plot absurdo, cenas macabras e muita diversão? Ela se perdeu em algum lugar entre sua pretensão de entregar um evento gigantesco e o desejo de nos agraciar com um cliffhanger de deixar cabelos em pé. Apenas por ter conseguido intrigar com perguntas, Kali Yuga já pode ser considerado acima da média dos episódios apresentados até agora. Se a saída temporária (?) do Hawley cooperar para que Irving seja o destaque, eu dificilmente reclamarei no próximo episódio. Porém, espero sinceramente que Sleepy Hollow não esteja tratando a trama desta meia segunda temporada como um prato especial, escondido por um pano, esperando apenas a grande revelação, porque a entrada não foi tão boa a ponto de preparar meu paladar e se o principal demorar muito, nem mesmo a decoração mais bem feita poderá sobrepor o fato dele já estar frio.

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