Na balada, sempre tenha cuidado com a mulher diaba.
Pensei que este dia nunca chegaria, mas dessa vez precisarei ir contra a maré de boa fé que sempre tive com a série e dizer que: Aos poucos Sleepy Hollow tem se tornado um tanto cansativa. Você consegue ver a magia que perdura desde a primeira temporada, mas o tempero, esse vem sumindo lentamente, dando espaço para uma trama que já devia ter engrenado. É difícil tentar entender o que aconteceu de errado, já que a série se valorizou muito bem no seu ano de estreia e soube lidar com a falta de tempo disponível para desenvolver episódios mais soltos, porém carregados de mitologia. Praticamente tudo nesta segunda temporada tem sido ao redor da enrolação.
Moloch está subindo desde o season première. Lentamente os episódios foram se tornando prelúdios do que a série iria construir, mas sem entregar muito. Apenas agora, em seu oitavo episódio e bem próximos do finale que realmente chegamos a algum lugar. E se vocês repararem, não nos movimentamos muito para alcançar o marco que a série propôs como o grande arco do ano, a ascensão.
Jenny e Irving foram jogados para escanteio totalmente, Katrina, que quase nunca nos agraciou com sua personalidade, agora foi ter alguma relevância, mas sempre com um ar petulante. O fim do mundo? Esse é o fantasma mais forte da série e o menos visível. Chega a ser perturbador como estamos cada vez mais longes de algum evento realmente significativo para série, que semanalmente tem ditado um ritmo bem destoante.
Pelo menos, depois de muito tempo reclamando a série nos deu um pouco mais de Katrina, o resultado não foi lá essas coisas, claro, mas existiu desenvolvimento. Expliquem-me, por que raios a mulher vai ficar comentando o que o “inimigo” número um do marido fez de bom para ela? “Abraham encontrou o chá que tanto gosto”. Gente? Qual a necessidade, senhora Crane? É como se a série estivesse fazendo uma força para que eu não goste da personagem. Lá no começo fazem uma cena super engraçada com ela e Ichabod na cama, discutindo as idas e vindas dos programas de reality show na TV. Depois somos jogados a uma mulher completamente fora da realidade, qualquer que seja essa.
Vou confessar, esse papo de precisamos salvar o Henry cansou a um episódio atrás. Já passou da hora de realmente agirem em cima da premissa. Ou começam logo a tentar resgatar a alma do filho pródigo, ou desistam de uma vez. Gosto muito do John Noble, acho a participação dele na série um dos pontos mais altos, porém, o plot que não avança está cansativo demais. Sleepy Hollow está se tornando uma série boa para fazer maratona e não para assistir semanalmente. Tudo isso porque somos forçados a esperar por um resultado que só vem nos últimos episódios. Ninguém quer isso.
Quando me perguntavam o que mais me atraía na série, eu sempre dizia a interação entre os protagonistas e o ritmo mais rápido, sem muitos fillers. Só que SH se transformou. É tudo filler com uma pitada de mitologia só para não ficarmos perdidos e ter aquela noção de que as coisas estão andando. Olhando a fundo, não estão.
Olhem como a fórmula está batida: Abbie e Ichabod contra algum monstro conjurado por Henry. Abbie e Ichabod na biblioteca procurando uma solução. Solução encontrada em alguma referência ao Franklin. E termina o episódio com alguma cena do Henry, planejando alguma coisa misteriosa para o próximo episódio. Onde está a criatividade dos redatores? Onde estão os episódios magníficos como os do ano passado? Sumiram no portal do purgatório, só pode.
Ao discutir a trama ao redor do súcubo, até que fica interessante. Mas faltou alguma coisa lá também. Podiam ter explorado o desejo da Abbie, por exemplo. Ou até mesmo inserir Jenny no pacote para criar um pouco de tensão em cima do relacionamento com o Hawley. Mas não, decidiram nos empurrar um confronto bem sem sal entre Katrina e Abbie, nada muito interessante, mas até engraçadinho ao ver o desespero do Ichabod ao notar que as duas mulheres da sua vida estão discutindo e soltando farpas para cima uma da outra.
E é por isso que sempre gosto de afirmar, o melhor da série está na interação de seus personagens, na vida privada. Mas, o alvo é outro. Estamos encarando uma série sobrenatural, com temas bem amplos e que renderiam bem mais se soubessem incluir os elementos interessantes além do que está sendo apresentado. Eu mesmo que não sou redator, consigo ver o quão mais benéfico para o episódio se no lugar de Katrina, colocassem as irmãs Mills e Ichabod descobrindo seus desejos, tendo um gostinho do caos que a série pode se tornar.

Se o episódio não fez uma força para que eu me simpatizasse pela senhora Crane, o bebê maligno pode acabar nos entregando um lado mais interessante para essa mãe interrompida. Henry se afasta mais e mais da redenção, mesmo que os pais ainda permaneçam vivos, se em determinado momento o vemos como alguém com possível salvação, em outro já enxergo que tudo o que ele faz é para beneficio do Moloch, não apenas para poupar a mãe.
Moloch sim precisa chegar logo para dar uma sacodida nas coisas. E com direito a chifres e tudo mais. E também para começar a dar uma limpada na quantidade de personagens existentes na série. Chega desse congestionamento forçado. Se vão nos renegar a participação de Irving e o limitar a ser um mensageiro, que o risquem logo. É cruel, mas não fez falta nenhuma. Espero que não façam o mesmo com Hawley, que é sim alguém bem interessante para fazer par romântico com Abbie. Nem toda série precisa de romance, mas é bom ter um personagem agradável e que nós gostamos para o final feliz, eventual.
De toda forma, Sleepy Hollow derrapou sim. Permanece interessante, mas o brilho se tornou opaco. Precisamos de uma lustrada urgente no roteiro da série, antes que tudo termine entediante, ou interessante apenas nos minutos finais. Temos um leque de personagens bons sim, mas o foco deverá ser sempre em Ichabod e Abbie, que não deixam a peteca cair nunca. Ou seja, aos roteiristas só falta saber administrar melhor seus personagens secundários, sem negligenciarem totalmente a existência deles. No mais, ótimos efeitos, boa trilha sonora e qualidade técnica assombrosa, uma pena que a trama não possa receber o total de uma nota completa.
PS. Que Abbie e Ichabod permaneçam sempre como dois amigos, quase irmãos. Não consigo mais shippar os dois, ou meramente cogitar algo mais a fundo. Não depois do discurso protetor do Icky na boate. Não dá.
PS². A única forma de gostar da Katrina é se ela entrar de cabeça no lado negro da força.
PS4. Hawley toma espaço de Jenny, que tomou o espaço de Irving. Ou seja, melhor não aparecer nenhum personagem novo tão cedo.
PS5. Melhores efeitos especiais da TV, atualmente. Só perde para GoT e seus dragões magníficos e cenários belíssimos.














