Há alguns dias, houve uma tremenda discussão aqui no site sobre o Politicamente Correto e Incorreto. Li boa parte dos comentários e quis entrar no meio da discussão. Mas, como eu ia escrever este texto, sobre a premiere de Skins US, preferi aguardar, pois sabia que teria uma boa brecha pra isto.  Vamos lá?!

Spoilers Abaixo:

A série britânica é famosa pelos seus excessos: de álcool, drogas e sexo.  Conhecendo o conservadorismo americano, já era de se prever que a versão da MTV deveria vir com algumas diferenças. E veio. Logo na primeira cena, anuncia-se que existirá algum tipo de censura. Na versão britânica, o edredom de Tony possuía uma estampa de um casal nu. Na versão americana, o casal nu é substituído por aranhas (aqui a piada ficou implícita). Além disto, os palavrões foram substituídos pelo bom e velho ‘Piii’.

Mas, por que tanta censura? Eu já falei um pouco sobre este assunto em duas ocasiões aqui no site – A internet, as mídias sociais e o futuro da tv – e – Skins e o Retrato da Juventude. A questão é que a origem de toda censura vem da manutenção do Status Quo. O livro e o filme ‘A Revolução dos Bichos’ ilustram isto muito bem, se você já viu ou leu, sabe exatamente do que estou falando. A manutenção do Status Quo, significa a manutenção da ‘Ordem’.

Explicando melhor: existem  alguns pensadores que entendem a sociedade como se ela fosse um corpo, ou até mesmo uma máquina. Bem, neste corpo, cada pessoa possui uma função especifica.  Exemplo: algumas pessoas formariam o braço, representando a força operária, enquanto outras pessoas formariam a cabeça, representando o poder (chefia).  Sendo assim, é importante que as pessoas sejam educadas para que cumpram as suas funções e não questionem as suas condições. Se você é um operário (o braço), você deve ser sempre um operário e não pode querer ser um chefe (a cabeça).  Não é interessante que este individuo tenha acesso ao ‘novo’. Não é interessante que ele reflita, que ele se questione, que ele mude sua maneira de pensar, pois isto implicaria numa vontade de mudança, isto é, uma revolução. Segundo estes pensadores, todos os dias nós somos ‘educados’ pelo governo, pelas religiões, pela indústria cultural (tv, moda, cinema, etc) para que aceitemos o ‘Normal’. E tudo aquilo que vai contra a Ordem ou o ‘Normal’, deve ser censurado ou ‘amputado’  para que o Caos seja evitado.*  Talvez seja exatamente por isto que um beijo entre dois homens não tenha acontecido numa novela das 8 até hoje.

* Essa tese é ilustrada no clipe Another Brick In The Wall do Pink Floyd  a partir dos 2m22s.

Mas, fugindo um pouco da teoria da conspiração, vale a pena tentar ver a coisa de outro ângulo. Será mesmo que esta censura vem dos diretores da emissora e dos anunciantes e patrocinadores do programa?  Será que esta censura não vem do próprio público? Quer um exemplo rápido? Na atual edição do Big Brother Brasil, foram colocados gays, lésbicas, bissexuais e, inclusive, uma transexual. Logo no primeiro paredão a trans-sexual foi eliminada. Afinal, ela omitiu que era uma transexual, se passou por mulher para poder ficar com algum homem na casa, além de  possuir uma linguagem bem vulgar. Mas quem a eliminou? O governo? Os patrocinadores? A emissora? Não. O próprio público. Ou seja, neste caso a censura veio do próprio público. Será que este grande público foi tão bem ‘educado’  para contribuir na manutenção da Ordem e do ‘Normal’….  Será que este grande público foi tão bem ‘educado’  para contribuir na manutenção da Ordem e do ‘Normal’ que  rejeita a pontas-pé tudo aquilo que seria ‘estranho’ ou ‘incorreto’? Não sabemos. O fato é que este público conservador, ainda é a grande maioria. E é ele quem manda. Afinal, as emissoras e os anunciantes não podem ir contra a vontade deste público.

Bem, talvez por isto a MTV precisou ‘limpar’ um pouco o conteúdo original de Skins. A nudez foi evitada, o conteúdo erótico amenizado e os palavrões cortados. Maxxie, o gay da versão britânica, foi substituído por uma lésbica. Lógico, selinho entre mulheres é uma coisa menos escandalosa e mais aceitável para a maioria, não é mesmo? Aliás, é claro que a lésbica seria uma líder de torcida, afinal estamos falando de um seriado americano.

Fora isto, quase todo o resto foi mantido. Para quem gosta de reclamar quando as adaptações distorcem completamente a obra original, neste caso vai quebrar a cara. Porque quase tudo foi copiado: diálogos, ângulos de câmera, trilha sonora, locações, até mesmo a textura da imagem e a vinheta… Tudo. Parecia um vale a pena ver de novo, com atores diferentes e claro, numa sessão vespertina censurada feita para um público mais careta.

Embora não tenha nem como comparar com o elenco original, achei o elenco americano bem carismático, a princípio funcionou, principalmente o Tonny e o Stanley (Sid). Pra quem nunca assistiu Skins, essa cópia engana bem e deve agradar. Porém, tem um problema, o fato de o episódio piloto ser praticamente igual ao britânico, levanta  uma questão: vale a pena ver de novo? Para que ver a Xerox, quando podemos ver o Original que é superior? Os produtores afirmaram que só o piloto seguiria o original britânico, que nos episódios seguintes a história evoluiria diferente. Se assim for, Ok. Torço por isto.  No entanto, não resta dúvida de que a censura deve atrapalhar.  A galera do ‘Politicamente Incorreto’ não vai gostar desta adaptação. Já a galera do ‘Politicamente Correto’ continuará escandalizada mesmo com estas cenas censuradas. Parece-me um beco sem saída.

@tonfreitas_

Afinal, ela omitiu que era uma transexual, se passou por mulher para poder ficar com algum homem na casa, além de  possuir uma linguagem bem vulgar. Mas quem a eliminou? O governo? Os patrocinadores? A emissora? Não. O próprio público. Ou seja, neste caso a censura veio do próprio público. Será que este grande público foi tão bem ‘educado’  para contribuir na manutenção da Ordem e do ‘Normal’….
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