A terceira temporada de Skam Itália, que saiu das mãos do competente diretor Ludovico Bessegato, contou a história de Eleonora (Benedetta Gargari) e Edoardo (Giancarlo Commare), sob a direção sensível e detalhista do estreante Ludovico Di Martino.
Skam Itália, transmitida desde 29 de março de 2018 pela TIM Vision, alcançou o seu ápice ao apresentar em sua segunda temporada a história de Martino e Niccolò, o casal Evak Italiano. Os dois rapazes causaram o maior burburinho junto a base de fãs do remake criado por Ludovico Bessegato, mas esse burburinho todo atiçou a ganância dos empresários de streaming por detrás da produtora da série adolescente. Daí a plataforma Tim Vision decidiu, que a partir da terceira temporada do remake, passaria a liberar os clipes mediante o pagamento de uma taxa/assinatura por parte dos usuários dos seus serviços. Com essa medida, os fãs italianos que não tinham condições de pagar pelo uso do serviço ficaram impedidos de acompanhar em tempo real a nova temporada do remake e isso impactou diretamente também na questão do geoblocking para os fãs estrangeiros. A Tim Vision precisa fazer igual a France TV Slash que libera todo o seu conteúdo de Skam France via YouTube, driblando assim, os bloqueios internacionais. O fato é que, por melhor que a temporada tenha sido, essa medida impactou diretamente na repercussão internacional da série, diminuiu o buzz em território italiano e dificultou o acesso em tempo real aos clipes lançados e aos episódios postados na integra. Mesmo alguns sites e canais que se atreveram a enfrentar essa medida da Tim Vision, tiveram seus conteúdos removidos e, em alguns casos, essas páginas e canais foram denunciados, criando um desinteresse da parte desses veículos, em continuarem retransmitindo esse show. E, olha que essa terceira temporada foi realmente boa!

Primeiro episódio:
Deixando de lado as polêmicas envolvendo esses empresários que só pensam em lucrar, vamos analisar a terceira temporada de Skam Itália levando em consideração a qualidade técnica da série, a sua trilha sonora, o desempenho da sua protagonista e do elenco principal, o desenvolvimento da sua narrativa, os seus pontos positivos e os negativos. É fato consumado que, de todas as versões de Skam, a italiana é de longe a mais leve e animada, talvez por conta da natureza alegre do próprio povo italiano; um outro fato que não pode nos escapar à visão é a qualidade técnica de seus atores, Ludovico Tersigni e Ludovica Martino, Giovanni e Eva brilharam na primeira temporada, Federico Cesari nos entregou um Isak bastante emocional e caprichado durante a segunda temporada e, até mesmo Rocco Fasano, que eu critiquei bastante o seu fraco desempenho na construção e entrega da sua versão de Even, tem lá o seu talento. Por conta desse legado técnico que o remake italiano vem construindo, não esperávamos menos que a excelência vinda de Benedetta e Giancarlo, protagonistas da terceira temporada. Apesar de toda essa expectativa, a temporada começou bastante problemática em vários dos seus aspectos primordiais. Por exemplo, Edoardo deixou claro para Eleonora que continuaria ‘usando’ Silvia, caso ela não aceitasse sair com ele, sei que mais adiante ele admitiu que talvez tenha passado a impressão errada para Silvia, que talvez tenha dado a entender que gostava dela ou algo assim, mas isso não justifica o fato de que ele realmente forçou a barra para meio que obrigar Eleonora a sair com ele. O fato do grupo ter decidido que seria razoável emparelhar Silvia com Elia foi outro diálogo bastante deslocado e sem propósito algum; sei que já critiquei o comportamento de Silvia inúmeras vezes, mas me incomodou muito ver outras pessoas tomando decisões por ela, como se ela fosse incapaz de fazer as suas próprias escolhas. Tudo bem que insistir em Edoardo não me pereceu uma escolha razoável, mas defendo o direito de Silvia fazer as suas próprias escolhas baseadas no momento e nas suas próprias emoções. Ainda falando sobre Silvia, me incomodou muito ver Filippo falando sobre e pegando nos seios dela, como também a beijando a todo momento. Gosto bastante de Filippo, o acho um bom irmão para Eleonora e um ótimo amigo das garotas, mas essa relação dele com Silvia eu considero bastante invasiva e inapropriada.

Durante a reunião na casa de Eleonora no primeiro episódio, Edoardo ligou para a moça duas vezes, diante da recusa dela em atender as suas ligações, o rapaz acabou ligando para Silvia, pedindo a mesma que passasse o telefone para Eleonora. Achei essa situação bem problemática e sufocante. Eleonora ficou visivelmente constrangida e sem muitas opções, além de aceitar sair com ele só para finalizar aquela situação vexatória. Ah, mas ela poderia ter dito não ou poderia ter desmascarado ele na frente das amigas! Podia sim! Mas até que ela explicasse para Silvia e as demais amigas que não estava acontecendo nada entre eles, a crise estaria instalada entre as garotas e era exatamente isso que ela queria evitar. Skam Itália teve a chance de mudar a narrativa do início de relacionamento desse novo casal, mas optou por seguir o mesmo caminho polêmico e controverso apresentado na série original. O primeiro encontro de Eleonora e Edoardo foi até interessante, Skam Itália mostrou com quantos paus se faz uma canoa, nesse caso, uma boa fotografia e uma excelente trilha sonora. Sempre digo que o melhor de Skam em qualquer versão é a amizade entre as garotas do squad, adoro ver o squad das garotas reunido, falando amenidades e trocando carinho. Isso aquece muito os nossos corações e nos dá o verdadeiro sentido de Skam, tudo é amor!
O segundo episódio chegou para salvar a première dessa temporada, esse sim foi um episódio mais consistente, os roteiristas agilizaram o plot da briga que Edoardo e amigos se envolveram durante a festa, fizeram Eva descobrir com quem Eleonora saiu na noite anterior e reuniram esse squad lindo das garotas na casa de Fede. A reunião das garotas foi maravilhosa e aconchegante, é uma pena que Eleonora não tenha tido a oportunidade de abrir o seu coração para Silvia, caso ela tivesse contado para a amiga sobre a sua situação com Edoardo, muitos problemas teriam sido evitados mais adiante. Eu ainda acho que teria sido bem melhor se Skam Itália tivesse iniciado a sua nova temporada tirando um tempo para reunir somente essas cinco garotas em um único ambiente, como foi feito nesse episódio da cabana. Esse squad funciona muito bem em cena, essas cinco garotas têm sintonia e conseguem entregar cenas divertidas e leves, algo que sempre me cativou muito na série original, por esse motivo especificamente eu considerei o segundo episódio dessa terceira temporada um pouco superior que o episódio de estreia, que além de problemático não fez jus ao legado desse remake.

Quando você esteve aqui/Não conseguia te olhar nos olhos/Você é como um anjo/Sua pele me faz chorar (Creep – Radiohead).
O terceiro episódio foi dedicado ao plot em que Eleonora acaba dormindo na casa de Edoardo. A coisa toda começou bem morna e até pensei que o episódio iria ser bem inferior ao segundo capítulo, mas após todas as confusões advindas da festa que foi interrompida pela polícia, eis que Edoardo surge tocando a sua guitarra e cantando Creep do Radiohead só para me deixar extasiada. Juro que já estava na expectativa de ver Eleonora tocando aquela guitarra e cantando alguma música para o rapaz, mas Skam Itália me surpreendeu ao inverter os papeis e colocar uma versão de Willian que canta para a sua Noora. Gostei bastante da escolha da música, principalmente por Edoardo, através da letra da canção, confessar que se acha um esquisito, mas observa Eleonora como uma pessoa especial, um anjo.
O quarto episódio teve de tudo e mais um pouco! Esse episódio serviu como uma espécie de esquenta para o primeiro beijo do casal Incantava, que aconteceu bem no finalzinho, em uma cena lindíssima e bem elaborada. A princípio tivemos o embate de Eleonora com Filippo por conta da invasão de privacidade do irmão ao remexer em suas roupas no quarto. Tudo bem que ele até tinha um bom intuito que era o de ajuda humanitária para os refugiados, no entanto, ele não tinha o direito de invadir o quarto da irmã sem a devida autorização. Esse plot rendeu bastante e acabou chegando à escola e a Rádio Osvaldo, onde todos se mobilizaram para arrecadar roupas para os refugiados. Foi exatamente na escola que Eleonora teve um embate com Edoardo por julgar a sua rifa e a sua festa oportunistas e fúteis, já que ele e os amigos pretendiam arrecadar fundos para pagar os estragos feitos por eles mesmos em um bar após uma briga, apesar dos argumentos do rapaz, a moça se mostrou bem inflexiva. Mas como tudo pode mudar a qualquer segundo, Eduardo, em uma jogada inteligente, disponibilizou um percentual do valor arrecadado na festa para a campanha escolar de ajuda humanitária, mesma assim ainda foi acusado por Eleonora de não passar de um manipulador, ele reagiu e pediu que ela o olhasse nos olhos e dissesse que não sentia nada por ele, coisa que ela fez sem vacilar. No entanto, na hora do sorteio da rifa, cujo o prêmio aparentemente era o próprio Edoardo, todos foram surpreendidos ao ser entregue apenas um ovo da páscoa gigante para a ganhadora do certame. Da mesma forma que ficamos surpreendidos, Eleonora também ficou e, sem pensar duas vezes, ela saiu correndo debaixo de chuva atrás de Edoardo. Tenho que admitir que a cena foi realmente linda! A ausência de trilha sonora no início do primeiro beijo, foi preenchida pelo som natural da chuva para só mais adiante ouvirmos a música potente entrecortando o barulho da chuva e os sons da natureza. A fotografia em tom azul escuro, com a luz incidindo vindo por sobre as cabeças de ambos nos dava uma sensação que eles tinham apenas a lua como testemunha ocular de seus atos, tornando a cena intima, solitária, noturna, mas aconchegante. E o beijo foi belíssimo! E que química esses dois têm!
Correndo por fora desses acontecimentos mais românticos, tivemos Eva bêbada cometendo excessos e sendo amparada por Eleonora. Não entendi muito bem por que a estudante requisitou a ajuda de Martino nesse momento, pensei que ela iria recorrer às garotas do squad para fazerem uma rede de proteção à Eva para impedir que a mesma ficasse vulnerável naquele momento. Martino até tentou ajudar nessa situação, mas acabou sendo vítima de homofobia. Me coloquei no lugar de Martino, que ficou sem reação, paralisado e sem saber o que fazer. Ao menos Giovanni tomou o controle da situação partindo para cima do agressor, mostrando que, para além de todas as circunstâncias, ele é o melhor amigo de Marti. Percebi que Edoardo nessa hora também tomou o partido de Martino colocando os agressores para fora da festa. Gostei de ver Marti e Nico juntos nessa festa, um pouco mais próximos, acho que o casal andou meio esquecido nesses primeiros episódios.

O problema do quinto episódio de Skam Itália foi que esse remake utilizou alguns cortes de cena que não ajudaram muito na hora da montagem do episódio, depois do primeiro beijo do casal, já nos deparamos com ambos no sofá da sala entre o terceiro e o quarto beijos e logo em seguida o plot do irmão de Edoardo foi jogado em cena, inclusive desconstruindo um pouco a sequência em andamento, isso deixou a coisa toda um pouco confusa, dando a noção equivocada de que houve um grande salto temporal. Apesar dessa observação técnica sobre o episódio, não o achei ruim ou abaixo da média, muito pelo contrário, adorei a reunião das meninas com Martino e Nico no bar, estava sentindo falta desses momentos mais leves e descontraídos entre eles. Até as bobagens que Luchino disse para Silvia na intenção de conquistá-la não soaram desencaixadas na trama. Mas há algo que precisa ser dito sobre esse episódio, ele serviu para consolidar a boa atuação de Giancarlo e de Benedetta, ambos estiveram no mesmo nível em cena, os dois mostraram muita maturidade e intencionalidade nas situações mais intimas, nas cenas mais quentes, como também na hora em que a contenda e a discussão predominaram. A química entre esses dois atores permeou todo o episódio, desde o momento em que Edoardo foi em busca de Eleonora na sala de aula para se desculpar por sua atitude reprovável na sua casa, até o encontro mais acirrado dentro do carro, tudo foi um crescente para o poderoso depoimento que a moça deu em lágrimas sobre como a sua vida tem sido solitária desde sempre, como ela sempre teve que se responsabilizar sozinha por ela e por todas as coisas ao seu redor. Foi uma cena importante porque, além de Eleonora ter aberto o seu coração, Edoardo teve a chance de dizer com todas as letras que esperou por ela durante muito tempo e, por isso, nunca faria nada para magoá-la.
O sexto episódio começou bem quente, o encontro de Eleonora e Edoardo rendeu muitos beijos avassaladores, mas o telefonema de Silvia meio que colocou a moça novamente com os pés no chão, mas esse momento de sobriedade foi tão fugidio que logo em seguida ela já estava aos beijos novamente com o rapaz. O que acho interessante é que parece que Edoardo se diverte com toda essa coisa de namoro escondido. Mas o que era divertido e empolgante se transformou em um circo de horrores na hora da briga do lado de fora da festa. Essa sequência sempre me impacta muito, por mais que Edoardo tenha tido boas intenções, foi muito forte ter visto ele dando uma cadeirada em outra pessoa. Afinal, responder violência com violência nunca é a reposta correta. Mais tarde, a briga deles dois também foi horrível, ele gritou com Eleonora e ela também fez o mesmo, os dois não se escutaram ou escutaram um ao outro, apenas gritaram e depois cada qual foi para um lado diferente da rua. Ok, Edoardo estava certo em tentar defender os rapazes, que por sinal nem são seus amigos, mas a forma é que foi equivocada, por outro lado, Eleonora estava errada em julgá-lo com tanta severidade e não deixá-lo ao menos se explicar ou se justificar, mas ela estava correta em repudiar a forma desproporcional com que ele atacou o seu opositor. Ou seja, havia razão em ambos os lados e havia excesso em ambos os lados também.
O sétimo episódio foi curtíssimo, mas nos trouxe um manancial de coisas interessantes. Gostei muito da interação de Sana com Eleonora, a estudante muçulmana é bastante observadora e percebeu a situação entre a amiga e Edoardo, porém, o mais interessante mesmo foi a conversa travada entre essas duas garotas. Sana meio que funcionou como uma espécie de bússola moral para Eleonora, que estava bastante confusa em relação a atitude agressiva esboçada por Edoardo no dia da briga. Sei que na primeira temporada do remake italiano, Sana se mostrou muito agressiva e caricata, mas essas características foram suavizadas ao longo da jornada e, atualmente, a personagem está bem mais natural e palatável, talvez esse seja o caminho construído pelos roteiristas para uma futura temporada onde ela seja a protagonista. Outra relação que muito me agradou não só nesse episódio, mas nos demais, é a de Eleonora com seu irmão Filippo. Ambos funcionaram bem em todas as cenas que dividiram durante a temporada e o rapaz realmente sempre se mostrou preocupado com o bem-estar da irmã. Finalmente Eleonora decidiu conversar francamente com Silvia, fiquei bem surpresa com a reação da garota, ela se mostrou mais madura do que eu imaginava. Mais adiante, adentramos no plot do assédio sofrido por Eleonora e praticado por Andrea, irmão de Edoardo. Apesar de muito curto, o sétimo episódio de Skam Itália foi muito bom, a montagem, a edição e a trilha sonora da cena da festa foram incríveis e nos transportaram para o lugar de Eleonora.
O oitavo episódio foi o que apresentou a melhor montagem e a melhor iluminação durante a temporada. E foi exatamente onde Benedetta teve a oportunidade de se destacar, já que durante quase toda a temporada ela teve o seu trabalho um pouco enfraquecido pela presença constante do carismático Giancarlo. Em muitos momentos até nos esquecemos do comportamento reprovável de Edoardo para com Silvia ao longo da primeira temporada por conta da força da atuação de Giancarlo, ele não desperdiça um só momento quando está em cena. Apesar de exaltar a química que esses dois atores exalam em cena, não posso confundir as coisas e, intuitivamente, tenho que admitir que Edoardo contribuiu negativamente para a desconstrução de Eleonora; não que a personagem não devesse/pudesse mudar pela força das circunstâncias, mas ele meio que anulou o que ela tinha de traços mais marcantes. Enquanto elemento dramático narrativo foi muito interessante ver essa desconstrução, mas trazendo essa personagem para um plano mais palpável me senti muito desconfortável com essa situação. A cena em que Edoardo se desculpa com Eleonora pela briga do outro dia, deixando claro o quanto ela e os amigos são importantes para ele, apesar de muito bonita, com aquela ausência de som e com a iluminação ofuscante e difusa, mostrou muito claramente o quanto Eleonora se anula junto de Edoardo, ela quase não conseguiu articular as palavras ou conciliar as suas ideias. Enquanto ele sugeria que ambos deveriam ficar juntos, ela apenas anuiu/concordou abraçando-o, no entanto, em momento algum ela externou através de palavras o seu sentimento diante de tal situação. Gostei muito do bom desempenho de Benedetta nesse episódio, sobretudo quando ela recebeu a imagem dela mesma desnuda na cama de Andrea, algo que lhe fugiu da memória por conta das bebidas alcoólicas consumidas na festa (ou pelas drogas adicionadas intencionalmente por Andrea na sua bebida). Ela é uma atriz de muitos recursos, podemos sentir a sua confusão emocional, o seu desconforto por estar perdendo o controle da sua própria narrativa, o receio de perder a amizade de Silvia e das demais amigas, a irritação pela ausência da memória que foi totalmente descarregada em Filippo e a dor pela constatação de que algo aconteceu na casa de Edoardo. Apesar de todas essas alegações, gosto do casal Incantava, Giancarlo conseguiu humanizar o máximo possível a sua versão de William de forma impecável e Benedetta entregou uma Noora o mais realista possível, tornando-os um casal interessante, menos nocivo do que eu supunha que seria.
O Nono episódio foi disparado o melhor capítulo dessa temporada de Skam Itália. Foi angustiante demais acompanhar a crise de ansiedade de Eleonora, sentir a sua solidão e a sua impotência diante de uma situação tão avassaladora quanto a vivenciada por ela. A chegada de Edoardo foi reconfortante., já que a estudante estava à beira de um colapso, sem conseguir respirar ou se concentrar para escrever o texto para a rádio da escola. Foi muito bom saber que Edoardo estava ali por ela, confortando-a e lhe proporcionando um momento de sossego e segurança. Se eu ainda tinha um milímetro de dúvidas de que Edoardo é uma das melhores versões de William, esse episódio finalizou qualquer tipo de dúvida sobre o caráter desse personagem. Ele se mostrou bem mais humano do que eu imaginava, com erros e acertos, com falhas, defeitos, qualidades e carências, mas…apenas humano!

Por outro lado, apesar de todo o carinho e solidariedade mostrados por Edoardo, o mal-estar ainda pesava sobre os ombros de Eleonora. Deve ser muito difícil se sentir desconfortável com a sua proporia pele, com o seu próprio corpo por não saber exatamente o que aconteceu entre ela e Andrea. A sequência dentro do carro foi angustiante, a estudante estava entre um misto de paralisia emocional e explosão eminente. Ele teve ensejo de contar para o namorado o ocorrido, mas como contar algo tão grave quando não se sabe os detalhes? Gostei muito da câmera desfocada e tremida acompanhando Eleonora pela escadaria da escola, mostrando claramente a confusão emocional que assolou a jovem estudante. E que texto perfeito sobre a família foi apresentado na Rádio Osvaldo, através da voz embargada e atormentada de Eleonora:
“Na Itália há pessoas dizendo que há apenas um jeito de constituir uma família: onde o homem ganha mais e a mulher tem que se contentar com um trabalho de meio período para poder cuidar das crianças. Mas o que é uma família? Para mim é algo que te faz se sentir protegido. Com quem você pode contar sempre. E se você experienciou isso de diversas maneiras, não posso nem imaginar quantas outros jeitos existem. Eu vi isso em duas mulheres que me abrigaram em Manchester. Que viveram juntas por 30 anos. Eu vi isso no nosso time de vôlei. Eu vi isso em parentelas distantes das vilas aborígenes que minha mãe está pesquisando. Eu vejo todo dia em grupos de amigos indo para a escola. Claro que não estou dizendo que uma família é melhor que a outra, o que eu estou dizendo é que nós devemos aceitar a ideia de que amor pode vir em diferentes formas e que devemos nos abrir para conhecê-las e aceitá-las. Família não tem nada a ver com sangue ou tempo. Às vezes é só uma pessoa, mesmo que você a tenha conhecido a pouco tempo, que se torna tão importante e especial como uma família para você”

O ápice da crise veio em forma de destruição e choro dentro da rádio, não tinha como ser diferente. O que veio a seguir foi um momento muito importante no episódio, onde Eleonora compartilhou com as amigas o ocorrido, falou com as garotas sobre o seu desespero diante da falta de memória daquele fatídico momento. As garotas acompanharam-na na consulta e esse, sem dúvidas, foi o momento mais emocionante do episódio. A cenografia, a trilha sonora, a iluminação ofuscada mais uma vez e a câmera muito próxima ao rosto da protagonista nos deram um ar de intimidade, era como se estivéssemos naquela sala, junto com Eleonora e o squad das garotas. Ver Eleonora confrontando Andrea era a cena que eu não sabia que precisava tanto, era como se ela estivesse tomando de volta o controle da sua própria narrativa. Aquele encontro serviu para mostrar para Andrea que ele não tem o poder de manipular e controlar a vida de uma garota como Eleonora, que naquele exato momento deixou de ser uma vítima das circunstâncias e passou a ser alguém que sabe lutar quando o mundo tenta lhe derrubar.
O que vimos a seguir foi a consolidação de uma excelente versão de Noora, já que pela primeira vez uma versão da garota de batom vermelho chamou o namorado e lhe contou o ocorrido com o seu irmão. Ela não só lhe contou como também lhe mostrou a imagem enviada por Andrea. Achei essa cena bem importante e confesso que não esperava que a própria Eleonora contasse para o namorado essa situação. A reação de Edoardo também foi bem inesperada, o rapaz chorou ao tomar ciência da situação e saiu. Não encarei essa saída dele como algo desrespeitoso ou maldoso para Eleonora. Acho que ele precisava de um tempo, precisava pensar. Ele não sabia como agir e nem o que falar. Olhando pela perspectiva de Edoardo, não deve ser fácil receber uma notícia dessas e se posicionar rapidamente. Da mesma forma que Eleonora ainda é muito jovem e inexperiente, ele também é. Enfim, esse foi um episódio irretocável que, não só colocou a terceira temporada em outro nível, como também deu uma oportunidade generosa para que a sua protagonista pudesse mostrar a sua extensa qualidade técnica.
Final de temporada:

Os dois últimos episódios, o décimo e o décimo primeiro dessa terceira temporada de Skam Itália foram tão interligados que não tem como comentá-los separadamente. O apoio incondicional que Silvia devotou a Eleonora foi algo muito bonito de se ver, levando em consideração o interesse mórbido que ela tinha por Edoardo. Ver Marta esclarecendo a situação de Eleonora na noite da festa foi refrescante demais e colocou fim para uma situação que consumiu a moça por um longo período. Foi extremamente importante que Filippo tenha estado lá com Eleonora para apoiá-la no momento que parecia ser o seu pior. Ter Edoardo lhe dizendo que estava terminando com ela foi duro demais. Eleonora foi às lágrimas – quem não iria? -, mas a tensão entre o casal esteve presente durante toda a cena. Apesar de Edoardo ter se desculpado pelas ações do seu irmão infame, ele optou por não continuar aquele romance, mas esse término não durou nem dois minutos, já que em seguida o rapaz retornou para os braços da estudante, com beijos afoitos, necessitados e saudosos. A festa das cores foi algo realmente bonito e emblemático para um último dia de aula. Retratou muito bem o espírito alegre do povo italiano. E o que dizer da reunião da mãe e dos filhos da família Sava? Tudo muito oportuno e na medida certa esse encontro familiar. A festa foi aquele tipo de coisa que toda as versões de Skam deveriam fazer vez ou outra. Reunir todo o elenco para uma bela confraternização sempre funciona. E aquele beijaço coletivo? Coisa maravilhosa! Fãs de Elippo shipp que me perdoem, mas esse Dario é lindíssimo e entendo a predileção de Filippo. Fede beijando muito! Luchino desencalhando finalmente. Todo mundo no maior grude e Elia na base da carreira solo dançando foi muito engraçado. Aliás, o que dizer sobre a delicadeza da sequência do first time de Eleonora e Edoardo? Que cena bem dirigida! Desde a ausência de sons, intercalada com alguns diálogos de fundo e passando pela sutileza dos gestos, dos toques e da intensidade do casal. Foi um fechamento bem apropriado para Edoardo e Eleonora.
Veredito:

Me arrisco a dizer que a terceira temporada de Skam Itália realmente deveria ter sido a segunda temporada. Levando em consideração a riqueza da narrativa construída para a sua protagonista e a forma como inseriram os demais personagens, o remake Italiano mostrou que sabe lidar com dramas maduros dentro de uma linguagem mais adolescente, mostrou que sabe aproveitar os seus personagens sem torná-los enfadonhos, desconectados com a história central ou ofuscando as luzes que devem ser totalmente direcionadas para a sua protagonista. Foi uma temporada soberba e elegante! Nem tudo foi perfeito, senti falta de um ‘eu te amo’ entre o casal Incantava; senti falta deles terem estreitado um pouco mais a relação de Edoardo com Filippo e senti falta deles terem tratado mais profundamente sobre os distúrbios de alimentação de Silvia e de Eleonora. Esses fatos comprometeram ou desabonaram a temporada de forma negativa? Não! De jeito nenhum! Eu é que sou muito detalhista mesmo! Por falar em detalhes, a sequência final foi praticamente um clipe da temporada da Sana. Que, aliás, me agradou bastante a forma como tudo foi conduzido fazendo a personagem meio que quebrar a quarta parede ao olhar diretamente para a câmera, para o telespectador. Pode entrar, Sana italiana!














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