Os fins justificam os motivos?
O terceiro episódio de Show Me A Hero traz uma mudança sensível em sua abordagem dos diversos temas da minissérie. Nessa parte o tempo utilizado para narrar o drama do prefeito Wasicsko e a história dos habitantes da periferia de Yonkers é distribuído de forma mais igual.
Infelizmente o resultado não é tão positivo. Eu já havia sentido isso nos dois primeiros episódios e com o enfoque maior dado por Simon nessas narrativas o argumento fica mais cristalino: nenhum desses enredos é tão instigante e viciante quanto o drama de Wasicsko na prefeitura de sua cidade.
Talvez isso se dê pelo fato de que temos não somente uma, mas três histórias completamente separadas umas das outras ocorrendo simultaneamente. O fator tão comentado na segunda temporada de True Detective parece entrar em vigor aqui. Temos pouco tempo para explorar tantas histórias, e a vantagem de Show Me A Hero em ter pelo menos uma linha narrativa interessantíssima acaba causando frustação quando temos de sair desse ambiente e visitar outros enredos menos envolventes.
Isso não significa que a trama de Wasicsko tenha sido prejudicada. Oscar Isaac continua a entregar ouro e o destino incerto de Yonkers é um conflito dramatúrgico perfeito. O prefeito consegue finalmente a aceitação de seus vereadores para prosseguir com o plano das casas de baixa renda. Isso mata um de seus problemas, mas cria outro bem maior: sua tentativa de reeleição (*) é ameaçada pelo vereador que foi contra o projeto desde o início.
(*) A princípio isso me causou certa confusão: na época o mandato de um prefeito era apenas de dois anos. Show Me A Hero dá saltos temporais sem muito aviso, e quando percebemos o primeiro mandato de Wasicsko foi para o saco.
A reeleição parece impossível após o drama passado pelo prefeito em relação às casas de baixa renda. Um dos momentos mais impressionantes desse episódio é após a votação no Conselho, quando Nick e Nay entram no carro e tentam voltar para a casa. A câmera permanece com eles dentro do carro, captando todo o furor da multidão pelo ponto de vista dos dois personagens. A população de Yonkers chegou a um ponto em que tudo se mistura: vida política, vida pessoal, crença religiosa, presença (ou falta) de caráter. Há alguma esperança para Wasicsko?
Essa questão é ainda mais importantes quando vemos quem é seu adversário. O que Spallone fará no controle da prefeitura? A outra cena que me chamou a atenção nesse episódio de Show Me A Hero se passa quando o personagem interpretado por Alfred Molina dá um passeio pelas regiões mais pobres de Yonkers. Ele dá um discurso sobre as condições precárias do local, criando um apocalíptico cenário no qual a integração desses dois extremos sociais só causaria mais conflitos.
Enquanto Spallone dá seu discurso um fotógrafo registra os momentos mais perversos do local. Garotos vendendo drogas. Lixo jogado nas ruas. Duas adolescentes mostrando o dedo médio quando vêem a câmera apontada para elas. O fotógrafo muda o foco e subitamente vê uma mulher com roupa de trabalho e algumas sacolas no ombro seguindo rumo ao seu emprego. De longe ela parece decente. Nenhuma foto é tirada. A visão empregada pelos visitantes do bairro é seletiva, preocupada apenas em provar seu argumento. A mulher trabalhadora não ajuda em nada, só complicando a situação. Aqui está novamente David Simon nos avisando (e fazendo isso desde a primeira temporada de The Wire) de que simplificar é uma das atitudes mais perigosas e nocivas da sociedade.
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No quarto episódio temos os primeiros sinais de uma integração entre as diferentes narrativas de Show Me A Hero. Norma, a senhora com problemas de visão, tem uma amiga que toma a decisão de protestar a favor das casas de baixa renda através de uma procissão pela parte Leste de Yonkers. A mudança é muito bem-vinda, mostrando outro lado da disputa que até então não havia aparecido na minissérie.
De modo geral as tramas colaterais foram mais satisfatórias. A história mais emocionante talvez pertença a Doreen, a mãe solteira que após a morte de seu namorado cai no vício das drogas. A visita de seu pai, que lentamente percebe o que está acontecendo quando inspeciona seu apartamento, é de cortar o coração. Muito não é dito, e ao fim do episódio a situação é insuportável: Doreen liga para os pais, clamando por socorro.
Além disso, algumas pistas são dadas aqui que apontam para a conexão entre essas tramas aparentemente separadas. É provável que Doreen, Norma e Carmen sejam as beneficiadas pelas casas que estão sendo construídas em East Yonkers. Isso seria um ótimo fator de entrelaçamento no episódio final, mesmo que a construção da narrativa ao longo da minissérie não tenha sido perfeita.
Quanto a Wasicsko? Ele perde a eleição para Spallone e passa dois anos em agonia, longe do poder e de toda a discussão que, mesmo sendo fatigante e até mesmo perigosa, era também irresistivelmente atraente. Nesse ponto do episódio eu esperei pela volta da personagem de Winona Ryder, que após uma ótima cena no piloto (envolvendo a mesma agonia pós-derrota que Nick agora sente) desapareceu da série.
Esse período em Yonkers sob o governo de Spallone acaba revelando o quão vazia a campanha do bem-sucedido candidato foi. Em certa medida os dois personagens são até comparáveis: tanto Nick quanto ele prometeram lutar contra as casas de baixa renda mesmo sabendo que tal disputa era inútil.
Nessa ironia silenciosa que Show Me A Hero justifica seu título. Wasicsko recebe uma indicação a um prêmio humanitário e comemora com vigor, mas há algo de falso aí. Sua visita aos lugares em que as casas são construídas denota um certo orgulho do personagem, mas eu não parei de pensar que tal sentimento tivesse fontes menos puras. Após passar tanto tempo movendo a cidade de Yonkers em direção à aceitação de uma sentença irrecorrível, Wasicsko involuntariamente se torna um paladino dos pobres.
Esse título é adequado? É ele o herói de Show Me A Hero? Minha impressão é de que o prefeito acabou assimilando a posição de defensor das casas de baixa renda quando isso se tornou conveniente. Estão lhe dando prêmios por isso, porque mudar esse posicionamento? A verdade é que a defesa dos pobres foi mera consequência de uma tentativa de evitar a ruína de Yonkers com as multas pesadas do juiz Sand.
No fim das contas vemos Wasicsko sorrindo com a construção das casas. Entretanto, ele não está feliz com as oportunidades que vários habitantes pobres de Yonkers terão no futuro. Nick olha para esse projeto e vê a si mesmo, não a qualquer habitante anônimo do oeste da cidade. Tudo torna-se uma questão de vaidade que por mera coincidência se alia aos interesses da classe baixa.















