No dia 9 de março de 2015, há exatamente um ano, estreava no horário das seis da Rede Globo a novela Sete Vidas, escrita por Lícia Manzo e Daniel Adjafre, com direção de Jayme Monjardim. Para os telespectadores que, como eu, ficaram encantados com o roteiro e o modo humano e verossímil que a A vida da gente (2011-2012) foi contada, Sete Vidas chegou à telinha acompanhada por muitas expectativas. Em reviews anteriores, já deixei claro que sou #TeamLíciaManzo. Por isso, resolvi escrever esse texto para relembrar a novela, nessa semana que completa um ano de sua estreia. Selecionei sete cenas que me marcaram. Foi muito difícil fazer isso e, é claro, muitos momentos ficaram de fora. Mas, quem sabe, em um outro momento, podemos estender essa conversa e comentar sobre outras passagens inesquecíveis dessa linda obra. Let’s go!
- 25.3.2015 – Briga de Laila e Pedro no restaurante

Numa reunião dos irmãos em um restaurante, também na companhia de Edgar (Fernando Belo) e Marlene (Cyria Coentro), Laila (Maria Eduarda Carvalho) bebe um pouco mais e começa a discutir com Pedro (Jayme Matarazzo) por conta de uma possibilidade de Bernardo (Ghilherme Lobo) fazer uma tatuagem. Pedro argumenta que tatuagem é algo permanente e que, um dia, Bernardo pode não gostar mais do desenho. Laila rebate dizendo que ele pode mudar de opinião sobre algo com 18 anos ou com 50 anos. Até aí, concordo com ela. A questão é que sabemos como essa personagem se expressa: de uma forma um tanto grossa e provocativa, algo que sempre irritou bastante Pedro. De todos os irmãos, eles dois entravam em conflito constante, uma vez que Laila achava Pedro “careta” e Pedro a considerava “moderninha e liberal”. Dessa pequena discussão, nasce uma briga feia, pois Pedro joga na mesa que Laila deu em cima de Vicente (Angelo Antonio), questionando-a se querer “pegar” homem casado é ser liberal. A loira rebate indagando a razão de ela ser condenada por isso, já que Pedro quase beijou Júlia (Isabelle Drummond) em mais de uma ocasião (até então, eles não sabiam que não eram irmãos). O constrangimento foi geral. Mais uma vez, Laila não disse nenhuma mentira. O problema é o modo como ela expressa o seu olhar sobre as coisas. Nessa cena, ela expõe Júlia desnecessariamente para todos, colocando a meia-irmã numa situação que era para ser resolvida somente com Pedro. Este, por sua vez, não deveria também “lavar a roupa suja” num momento de reunião familiar, porém, o calor do momento o levou a tomar a atitude de expor Laila. Essa cena representa bem o que é se reunir com parentes, principalmente quando as pessoas pouco se conhecem. A dificuldade em compreender as atitudes do outro aflora, vide Álbum de família (2013), de John Wells.
- 14.4.2015 – Luís conta para seus filhos que teve duas mães

Luís (Thiago Rodrigues) explica para os seus filhos as diferentes composições familiares, dizendo que um lar pode ser feito com dos pais, ou com duas mães, como foi o seu caso, que foi criado por Esther (Regina Duarte) e Vivian. Tendo O livro da família, de Todd Parr, em mãos, Luís diz que foi legal ter duas mães porque ele teve “essas mães”. O desejo de ter um pai, explica essa personagem, veio, mas tardiamente, pois o amor que havia em sua família não deixava brecha para que Luís sentisse essa falta. Como ele mesmo disse “não importa se quem cuida de você é homem ou mulher, o que importa é que a pessoa que cuida de você de ter amor e segurança”. Assim, através de uma cena simples e muito bem construída, a novela passa a mensagem de que a maternidade e a paternidade não estão presas ao gênero ou às preferências sexuais, e sim a vontade de cuidar do outro. Esse momento de Luís com seus filhos nos mostra que às vezes subestimamos a capacidade de compreensão e aceitação das crianças com esse tipo de questão, em especial.
- 14.5.2015 – Julia convida os irmãos para o parque de diversão

“Pedro, Felipe, Bernando, Laila, Luís e Joaquim… Será que é possível mandar um convite com 20 anos de atraso? Será que um convite sem pé nem cabeça pode ser sincero de coração? Será que seis adultos, girando num carrossel, podem recuperar a memória do que nunca foi vivido? O sorvete, pipoca – será que o que a gente comer vai ter gosto de velho? Oito da noite, no estacionamento do parque. Será que ainda dá tempo? Ou será que a briga de ontem é maior que tudo o que a gente pode e tem pra viver amanhã?”. Através dessas belas interrogações, Júlia tenta reconstruir o elo entre os irmãos depois de mais uma briga. Ela assumiu, dentro do funcionamento das relações dessas sete vidas, o papel de reconciliadora. Essa cena é uma das poucas em que vemos os sete protagonistas juntos, sendo felizes, num lugar que habita o imaginário da maioria das crianças. Júlia, levando em consideração que o passado dos irmãos não foi algo compartilhado, quis resgatar a força dessa simbologia infantil do parque de diversões. Para dar mais poeticidade à cena, a trilha sonora instrumental ficou a cargo dos artistas do The String Quartet Tribute, com a canção Reckoner. Para dar aquele tom dramático, sem passar do ponto, Pedro se junta aos irmão somente no final, quando vemos a reconciliação entre eles através do olhar, e não através de palavras ou pedidos de desculpa. Então, Lícia Manzo, você esvaziou o meu estoque de lágrimas com essa cena. Eu viajei para a minha infância, para o algodão doce, pipocas, e as minhas noites de parque de diversões, percebendo que, agora adulto, parei de frequentar esse lugar.
- 26.5.2015 – Taís descobre a traição de Pedro

De todas as cenas de Taís (Maria Flor) na novela, penso que essa cena foi a que mais exigiu dessa atriz e foi também a que ela mais se saiu bem. Taís soube da traição de Pedro por uma terceira pessoa, mas o que a fez sofrer mais foi o fato de (nem mesmo com o confronto e a pressão para falar a verdade) seu marido desviar o foco da conversa. Pedro administrou a sua paternidade, a sua relação com Júlia e Taís de modo covarde e até um pouco egoísta. Perceber isso, para Taís, foi um duro golpe. Essa cena me fez lembrar Closer (2004), de Mike Nichols, quando Alice, personagem de Natalie Portman rebate o argumento do seu namorado quando este tenta justificar a traição: há sempre um momento, eu não sei quando foi, mas eu sei que houve esse momento em que você poderia dizer “não”. Já Taís dispara: Você não me ama, você decidiu ficar comigo porque não teve coragem de ser honesto comigo, com você mesmo. Para a personagem, a falta de lealdade machucou mais do que a quebra da fidelidade. Maria Flor está de parabéns por essa cena.
- 11.6.2015 – Lígia desabafa com Irene e Isabel sobre o novo distanciamento de Miguel

Depois que perde Joaquim na praia, Miguel (Domingos Montagner) e decidi ir embora mais uma vez. Irene (Malu Galli) aconselha Lígia (Débora Bloch), dizendo que ela precisa focar nela mesma, e não naquilo que Miguel precisa, caminho seguido pela personagem desde o início de novela. Quase no final da história, Lígia percebe que “está no mesmo cais que viu Miguel partir para Antártica”. As idas e vindas do casal fizeram Lígia não dar passos para frente em sua vida amorosa, tanto é que largou Vicente por Miguel e, nesse momento da trama, ela fica sem nenhum dos dois. O agravante dessa nova situação é que Joaquim foi envolvido. Lígia, então, terá que lidar com o filho também no que diz respeito a explicar a desaparição do seu outro pai. O desamparo de Lígia é quase inconsolável, pois ele reconhece que não tem coragem de “dar as costas pra Miguel e dizer que acabou”. O pouco tempo que eles viveram juntos, para Lígia, equivaleu a mais que uma vida inteira de muita gente. Daí essa dificuldade de cultivar o desapego. Eu amava os momentos em que tínhamos Mariana Lima, Débora Bloch, e Malu Galli contracenando. As cenas eram sempre com diálogos reflexivos sobre relacionamentos.
- 10.7.2015 – Isabel termina o relacionamento com Luís

Quem mais habilitada e desabilitada para falar sobre amor que Isabel (Mariana Lima), a terapeuta de casal da história? Isabel foi muito honesta ao explicar para Luís que eles estavam em momentos de vida diferentes. Ela tinha acabado de sair de um casamento longo e feliz, já ele saiu de um casamento longo e fracassado. Ambos tinham necessidades distintas. Isabel foi consciente e corajosa ao admitir isso e decidir terminar a relação com Luís. Ela percebeu que o namorado, também pelo fato de ter filhos, precisava de alguém ao seu lado para recompor a sua família, mas Isabel estava num caminho de desprendimento. Ficar ao lado de Luís seria cometer um erro, semelhante ao que fez com Lauro (Leonardo Medeiros), quando não assumiu mais cedo que o casamento tinha chegado ao eu fim. Luís foi para ela aquela pessoa que trouxe uma baguncinha pra dentro, uma bagucinha necessária para tirá-la da letargia do matrimônio. Quando Luís a questiona que “querer ficar só” e “entrar numa relação” não são coisas excludentes, Isabel responde que realmente não são, masque que nesse momento é, posto que ela precisa de um momento de indefinição, de conhecer o novo. Acho que ambos se ajudaram bastante, reavivaram sentimentos mortos um para o outro, porém, eles estão em momentos de desejos diferentes. Essa cena é uma das minhas favoritas porque esse tipo de término de relação é a pior: quando não há briga, quando ambos se gostam, porém, há um descompasso nas vontades daquele instante. Ter consciência disso, verbalizar essa situação, é algo de destroçar uma pessoa.
- 10.7.2015 – O desfecho de Sete Vidas

A meu ver, foi uma grande sacada dos escritores da novela dispensar a presença física de Felipe (Michel Noher) no do barco com toda a família. Essa opção mostra que na vida, na maioria das vezes, temos poucas oportunidades de nos reunirmos, de modo completo, com todos que amamos. Por isso, devemos aproveitar cada instante quando temos essas pessoas ao nosso lado. Foi muito lindo o depoimento de Felipe, principalmente quando disse que “todos nós somos parte de uma mesma viagem”, e que se sentia presente no barco. Eles estavam unidos, ali, não apenas pelo doador 251, estavam unidos por algo mais: pela vontade de pessoas que desejavam formar uma família e, por questões biológicas ou circunstâncias da vida, viam-se impossibilitadas de gerar uma criança. Júlia e Pedro não terminaram juntos com “J maiúsculo”, e nem terminaram distantes. Esse entre-lugar fugiu da pieguice de finais românticos e reencontros forçados. A proposta da novela foi olhar para a vida dentro do olhar do eu lírico do poema Navegar é preciso, de Fernando Pessoa, da canção tema de abertura (What a wonderful world) e da música Blowin’ in the wind, de Bod Dylan. Esses três textos estão na base do roteiro da novela. Além disso, o clipe final, que compilou o destino de várias personagens, quase na forma de um flash, ofereceu um final digno e rápido para as subtramas. Destaco a delicada cena de Eriberto (Fábio Herford) e Renan (Fernando Eiras) dando as mãos no cinema. Foi uma cena muito rápida, mas conseguiu ser satisfatória. Só queria que a Virgínia, personagem de Fernanda Rodrigues, também tivesse aparecido. Imagino que, para um autor, deve ser muito difícil dar um “fim” para uma personagem. Foi uma vida criada, que se conectou com milhares de telespectadores, dando força para alguns, inspirando outros… Por isso, admiro Lícia Manzo e Daniel Adjafre por conduzirem de modo tão respeitoso o desfecho das personagens, tanto do elenco principal quanto do coadjuvante.
Menção especial: 20.5.2015 – Marina se despede de Miguel

Marina (Vanessa Gerbelli) percebe que ela tem que se resolver consigo mesmo para se afastar de Miguel, visto que sabe que ele não irá ficar com ela. Marina se vê presa e impossibilitada de buscar uma relação, pois Miguel simboliza uma incógnita na sua vida. O incrível dessa cena é que vemos em Marina um pouco de Miguel, através desse comportamento de que querer estar do lado de fora de uma relação. É diferente, por exemplo, com Lígia. Ao passo que Marina e Miguel são parecidos, o elo entre eles aparenta ser mais complexo, já que conhecer mais o outro pode ser tão perigoso quanto não conhecer. Marina sabe o caminho que Miguel segue porque ela segue a mesma rota e isso lhe dá a certeza de que eles não vão conseguir estabelecer um relacionamento sério. Os movimentos de câmera dessa cena foram pensados com muito cuidado, destacando as mãos angustiadas de Marina, seus olhos lacrimosos que expressavam a sensação de que, dessa vez, não haverá mais volta.
É isso, gente. Agora, quero saber: quais são as suas cenas favoritas de Sete Vidas? Em breve, reviews sobre A vida da gente. Comprei essa novela para rever na íntegra. Só falta chegar. Ah, estou em dívida com vocês com a parte final do Olhar Maníaco sobre Sete Vidas, em que irei falar sobre a trilha sonora. Eu escrevi o texto, porém, perdi-o. Ainda não tive feeling para reescrever. Mas eu não esqueci! Concluo esse textos com os versos de Fernando Pessoa, lidos por Felipe para a sua família:
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
“Navegar é preciso; viver não é preciso”.
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.














