Enquanto o mundo celebra o nascimento de uma pessoa, os fãs de Sense8 ganharam a oportunidade de celebrar o nascimento “simbólico” de oito indivíduos maravilhosos e que mexem com estruturas tradicionais de uma sociedade em ascensão.
O nascimento de Jesus foi marcado por diversas simbologias que até hoje repercutem na história da humanidade. O Natal em si acabou saindo de um momento de reflexão para uma oportunidade tanto do mercado como da sociedade no geral. Oportunidade, no caso, de criar em algum momento do ano um sinal de apoio, que relembre pelo menos por alguns instantes o nascimento de uma pessoa que alterou a nossa orientação ética (contra aquela tradicional judaica/romana). Hoje o Natal é uma etapa especial (que vai muito além do nascimento de Jesus) e que percorre diversas produções artísticas. Com Sense8 – a série do Netflix que mais explora interconectividade humana – não seria diferente; muito pelo contrário, foi completamente necessário.
Foram 2 horas que me fizeram relembrar os motivos que me fizeram se apaixonar igualmente por cada personagem e que serviram para resgatar o espírito da primeira temporada levemente apagado depois de um longo hiato. As irmãs Wachowskis acertaram demais ao focar durante boa parte do tempo em festejar com todos os artifícios que nos fizeram se conectar tão facilmente com eles. Tecnicamente o episódio se apresenta mais como uma introdução da próxima temporada, do que realmente um especial em si. A trama se inicia de forma poética, com takes que se mesclam com os últimos momentos que os sensates estiveram enfrentando no ano passado. Introduz novas linhas de narrativas que serão extremamente importantes para a nova fase, mas não desenvolve os plots a longo prazo, apenas segue exemplificando com pequenos detalhes como funcionaria essa transição entre o “nascimento” deles e o amadurecimento de todos. O mais lindo disso tudo é que dá muito certo.

Outro detalhe interessantíssimo desse especial foi focar no aprofundamento de cada personagem em parâmetros que estão sempre quebrando paradigmas. Tivemos uma Sun mais forte, livre (apesar da prisão) e que brilhantemente explorou sua sexualidade a nível que me deixou com um sorriso grande no rosto. A sensualidade é algo que foi um dos pontos mais altos do especial e diria que me deixou extremamente satisfeito em ver uma série tratando algo tão essencial para ser discutido de uma maneira leve e graciosa.
Na era da internet, em que tudo e todos estão profundamente conectados, Sense8 chega para ilustrar uma paisagem tão necessária que chega a ser injusto dizer que um especial como esse foi algo fraco e ineficiente. Neste momento, ao ler esse texto você – querendo ou não – está se conectando comigo, sentindo em cada palavra e cada letra o que tanto quero expressar com relação ao que acabei de assistir. Mas nesse mesmo momento em que escrevo estou rodeado de pessoas/familiares, no canto de uma mesa com o notebook logo após da ceia. Meu primo está na minha frente mexendo no celular louco para ler o texto (ele não para de falar sobre como Wolfgang foi incrível), enquanto que a minha vó está entrando na cozinha para pegar algo. Consegue imaginar? Consegue sentir os meus dedos no teclado? Sentir pode ser até impossível, mas imaginar esse clima natalino que une pelo menos por algumas horas os desconhecidos é mágico e resume-se como essência humana. Da mais pura possível. Sense8 explora isso: a conexão que temos seja ela em qual nível for, com você lendo meu texto, com a pessoa que estiver mandando mensagem no facebook, com o desconhecido que te ajudou a pegar algo que caiu no chão…

Sense8 é cativante por apresentar a ideia que as diferenças entre nós são o que fazem da humanidade um fenômeno emocionante. É uma produção infelizmente subestimada por alguns, que provavelmente ficaram um pouco incomodados com essa forte conexão que o roteiro perfura. Mas que possui em sua gênese um universo próximo do nosso e passa a mensagem de que tudo na vida pode ser resolvido se tivermos a capacidade de darmos uma pausa para se colocar no lugar do próximo e perceber um mundo por uma perspectiva completamente diferente; com detalhes novos mas que no fundo são legítimos. E neste especial ficou bem claro que a série celebra os detalhes que nos tornam únicos mas que por alguma razão nos revelam idênticos. Foi Sense8 celebrando sua essência por um viés místico e primoroso. Foi Sense8 glorificando a sua própria natureza. Foi Sense8 olhando para os nossos olhos com um sorriso silencioso mas que diz muita coisa, e como diz!
> As 5 Melhores Séries de 2016!
PS1: A cada cena minha paixão por Sun/Lito/Wolgfang/Capheus/Nomi/Riley/Kala/Will aumenta.
PS2: Que belíssima homenagem tocar o grande sucesso de Leonard Cohen no mesmo ano de sua morte. Tudo bem que “Hallelujah” já está bem saturada nas produções televisivas, mas não consigo imaginar outro momento perfeito pra ilustrar o espírito natalino/dramático com uma canção tão universal e emocionante.
PS3: Achei genial e sarcástico o diálogo de Capheus com o amigo dele dele sobre a nova aparência do personagem. Sense8 sabe muito bem rir de si mesma, sem perder a classe.
PS4: Foi impressão minha ou as irmãs Wachowskis aparecem na cena do Ano Novo em Berlim?
PS5: Feliz Natal e Feliz Ano Novo, porra!






















