Produção da Netflix sobre Ayrton Senna salva-se de sua superficialidade narrativa acessando a memória afetiva de seus espectadores.
Entre 1988 e 1994, o brasileiro tinha uma rotina dominical quase sagrada: os domingos eram os dias em que Senna corria na Fórmula 1; o que significava atenção total diante da TV, enquanto Galvão Bueno narrava a corrida e todos esperávamos a vinheta musical que a Rede Globo usava especialmente para os momentos em que o piloto atravessava a linha de chegada. Fã ou não de corridas de carro, era impossível negar a catarse semanal dos brasileiros daquela época.
De certa forma, o que a concepção de Vicente Amorim para essa minissérie parece priorizar é justamente esse aspecto da vida do piloto; que é competentemente descrito com o senso de espetáculo que esse período de sua vida merece. O que existe de prévio na maneira como os episódios foram organizados, ajudam a enriquecer unicamente essa parte do enredo. A construção desse sucesso ainda é apressada, mas é a que corre menos dentre os aspectos abordados nos seis episódios da temporada.
Não deixa de ser uma grande ironia que o termo “pressa” esteja sendo usado como referência na hora de falar da minissérie. Em uma produção sobre um piloto de Fórmula 1, o senso de urgência do texto soa até ligeiramente sarcástico. Embora a vida de Senna fosse uma vida de privilégios desde muito cedo (o que faz com que seus anos de adolescência não ofereçam muito drama), os roteiros dos dois primeiros episódios dão saltos largos no tempo, deixando muita coisa sendo apenas mencionada em artigos de jornal ou reportagens de TV. Isso volta a acontecer nos dois episódios finais, de maneira ainda mais severa.
O método produz um quadro controverso na hora de analisar essa minissérie. Seria difícil resumir a vida de qualquer pessoa em apenas 6 episódios, mas o trabalho de Vicente Amorim chega à ousadia de pular de um campeonato vencido para outro em apenas duas cenas. Com exceção da relação com o pai, a vida familiar de Senna segue o ritmo dessa abordagem superficial. Há muito pouco de quase tudo; dando a impressão de que Senna atravessou seus mais de 30 anos protegido de grandes conflitos e pesares. A minissérie, enfim, mitifica, celebra e se apressa em deixar bem claro que mesmo quando Senna era agressivo, era para sobrepujar o “vilão” e rival Alain Prost.
Essa “edição pessoal” tem a família de Senna como ditadora; o que chega a soar jocoso, uma vez que o empenho em sumir com Adriane Galisteu da vida do piloto já seria por si só uma evidência de que a vida não era esse mar de rosas. Adriane tem ridículos 30 segundos em cena; e impostos pela Netflix, que não queria soar tão tendenciosa quanto já estava soando. Embora toda a minissérie seja muito superficial na descrição da vida de Senna, o hematoma maior na credibilidade do projeto está mesmo em como Galisteu sofre com as constantes tentativas da família em apagá-la da história de Ayrton.
A questão aqui é: se há tantas edições, como a minissérie pode ser tão boa? A resposta é simples: porque no que mais importa para Vicente Amorim, os roteiros investem pesado. A força desses episódios está, essencialmente, na maneira como eles descrevem Senna como um piloto capaz de coisas que ninguém previa; como um piloto ousado e quase sobrenatural; que sempre se saía melhor quando as condições eram as piores possíveis. A minissérie caprichou especialmente nas sequências de corrida. É possível notar quando a pista e os carros são produzidos digitalmente, mas os editores foram espertos na hora de picotar e misturar esses trechos com imagens de arquivo e com as expressões dos atores. Quem acompanhou as vitórias de Senna ao vivo – com ele ganhando posições a cada nova curva – sabe que esse era um aspecto muito importante na hora de traduzir seu talento como piloto. A minissérie faz isso tão bem que convence até céticos do esporte, como eu.
Além disso, a escalação de Gabriel Leone como Senna foi um acerto em todas as frentes. O ator não só se parece com Ayrton, como consegue traduzir perfeitamente o temperamento do piloto, que sempre parecia estar tentando conter emoções (boas ou ruins). Os outros destaques ficaram com Pâmela Tomé, que também foi caracterizada como Xuxa de maneira assombrosa (e foi atrás de tentar repetir – com sucesso – o tom de voz da apresentadora); e com Kaya Scodelario, que fazia a jornalista Laura, uma personagem criada especialmente para a minissérie e que servia como interlocutora da relação de Senna com a imprensa. Xuxa e Senna tiveram a relação deles descrita de maneira carnal e bastante física, o que foi uma grata surpresa considerando que o caminho mais perigoso seria continuar tratando a apresentadora como uma figura infantilizada.
Ao fim de seus seis episódios, fica a sensação de que havia mais para ser dito. Os responsáveis conseguiram um grande feito, que foi conseguir que o resultado final fosse competente e emocional mesmo ficando somente na superfície. Não há apuro nenhum em grande parte do que se vê sobre Senna fora das pistas, mas considerando que a maior emoção está nos momentos em que ele está nela, a minissérie cumpre seu papel de ser um registro afetivo para os espectadores; dentro de uma história sobre um piloto que se orgulhava de ser brasileiro; que tinha “Silva” no nome; e que ajudou a construir a autoestima de toda uma nação.






















