Nós somos acumuladores. Não só bens materiais, nós acumulamos lembranças, gostos pessoais, qualidades (e defeitos) e princípios, entre tantos, tantos outros itens. Nós acumulamos certezas também — mesmo aquelas que não tem lá tanto fundamento. Certeza de que nada é para sempre, certeza de que precisa haver algo maior e demais exemplos corriqueiros ou proféticos. Entre essas certezas, ganhamos a de que vai passar, tudo vai voltar a ficar bem: aquela dor de cabeça, aquela paixão adolescente ou aquele problema familiar. Simplesmente sabemos. E nessa história de acumular, acumulamos casos, paixões e dramas, de modo que nossa mente cria um histórico que nos previne de achar a eternidade nos dilemas do momento.

Cria-se, depois de um tempo, o raciocínio da perda. Perde-se, é incontestável, mas cria-se uma lógica por trás daquilo; um prazo para a dor. Prazo prorrogado, adulterado e pouco respeitado, mas um para nos prevenir da desesperança total. E antes do dia finalmente chegar, fica-se um tempo com a dor, acompanhado desse gosto amargo que cada um de nós explicaria de um modo diferente. Penso em gosto cruel, mas “gosto cruel” faz sentido? Já chamei de “pequena morte” em uma crônica perdida no meu blog: aquele momento da realização de que o relacionamento não vai dar certo, o trabalho não é seu ou você falhou numa matéria.

Ser romântico requer uma quantidade infernal de esperança.

O que fazer com esse sentimento, nesses segundos em que a melancolia ameaça nos sucumbir? Meus amigos psicólogos, meus professores de literatura e demais pessoas da minha bolha chegam na mesma conclusão: às vezes, não se faz nada. O certo, às vezes, é ficar um pouco com esse sentimento, dar-lhe e dar-se tempo, esperar que percorra nosso corpo e que saia quando tiver tocado a última parte que precisa ser tocada. Assim como evoca This Feeling, música da Alabama Shakes que fecha a segunda e última temporada de Fleabag.

Em sua última cena, a música aparece da mesma forma surpreendente que apareceu em Big Little Lies (HBO). Julgo dizer que ela faz mais sentido aqui, para encerrar a saga dessa personagem cujo nome não sabemos, do que na produção protagonizada por Nicole Kidman. This Feeling não é apenas uma canção triste para um momento triste, mas outro exemplo de composição complexa dentro do trabalho dessa banda norte-americana. E, como em toda obra de arte, há espaço para diversas interpretações.

Fleabag.

Quando o Padre interpretado por Andrew Scott diz à Flegbag que os dois não ficarão juntos, pedindo que ela tenha paciência porque essa paixão passará, somos obrigados a nos perguntar se, no fim, não estava tudo em suas mãos e se a segunda temporada não é basicamente sobre isso. Se ela quisesse, ela estaria bem? Com seu café vendendo sucesso e não mais recorrendo ao sexo casual como maneira de lidar com o luto, a jovem empreendedora estava fazendo tudo de acordo. Conhecendo mais de si depois da experiência trágica que influencia a primeira temporada, ela sabe o que lhe faz bem e o que lhe derruba. Sabe que precisa fazer exercícios, evitar relações problemáticas e vigiar o próprio comportamento, uma vez que suas piadas e má-conduta influenciam no temperamento de sua família. Estava tudo em suas mãos até que decide cutucar uma pessoa e sua vocação e comprar uma briga que, desde o começo, sabemos lá no fundo que perderá.

Estava mesmo tudo em suas mãos? Cheguei à pergunta depois de reparar um pouco mais na música que embala o momento em que ela decide seguir sozinha — sem o interesse amoroso por opção dele, e sem nós por opção sua. Temos duas maneiras de interpretar tal canção e trazê-la para essa análise. Brittany Howard canta no refrão: “por favor, não me tire este sentimento / que eu finalmente encontrei / se eu quisesse, eu estaria bem”. Há, nesse trecho, uma convicção, reflexo do que eu falei nos primeiros parágrafos, ou uma inocente ideia de que nosso bem-estar está sob nosso controle?

A própria música abre duas formas de entendê-la: na primeira, o eu-lírico pede que o sentimento encontrado (amor ou algo próximo disso) não seja retirado. Parafraseando a partir dessa interpretação, seria um “por favor, não tire o amor que eu demorei tanto tempo para encontrar”. Isso porque, adultos machucados que somos, sabemos por agora que o amor não é fácil de se encontrar.

Fleabag.

Nossa Fleabag é uma prova disso. Ela tentou com Harry, aquele ex-namorado que sempre limpava seu apartamento quando os dois terminavam — talvez um aceno de Phoebe ao filme Happy Together, também sobre as dificuldades de um relacionamento. Ela tentou com a personagem interpretada por Ben Aldridge, o homem (muito, muito bonito) por quem acreditava que havia se apaixonado. Ela tenta até com Belinda (Kristin Scott Thomas). Ah, e com o Padre, é claro. Neste último caso, ela parece ter encontrado, finalmente, o tal amor. Por isso, é tão difícil abrir mão dele. Por isso, é tão doloroso receber o não. Por isso, a cena final parece ser de súplica, mesmo que uma súplica não seja feita diretamente.

Finalmente Fleabag encontra o amor, mas em alguém que não o encontra nela em retorno. (Literalmente uma música da Lykke Li.) A forma como insiste, mesmo sabendo que perdeu, faz com que o “por favor” da música seja introduzido na série sem que a personagem tenha que o dizer. É um amor que não fará, a longo prazo, bem para ela e para seu pretendente, e ele sabe disso. Nesse ponto, interpreto o “se eu quisesse, eu estaria bem” como: às vezes as pessoas não querem estar bem, querem estar apaixonadas.

Fleabag.

Por outro lado, encontro um outro significado na música, aquele que eu tinha como certo desde que ouvi o álbum pela primeira vez: o sentimento em questão não é o amor, mas a tristeza. Em termos mais diretos: a bad. A composição, nessa nova ótica, fala sobre um fascínio que muitos de nós temos pela melancolia, por se expressar e sentir as coisas através desse espectro. E, como quase tudo que se procura, encontra-se. Isso não é de todo ruim. Como eu disse antes, o processo de luto e de perda precisam ser respeitados. Penso que o eu-lírico sabe que as coisas passam e esse sentimento vai se dispersar sozinho. Ele pede, então, que quem está próximo não tente vandalizar esse estado, não tente influenciá-lo a pular essa etapa. “Se eu quisesse, eu estaria bem”.

E como aplicamos isso na série britânica? Precisamos voltar ao primeiro episódio dessa temporada e no progresso que a personagem principal havia feito desde que a vimos pela última vez. Tirando o desentendimento com a irmã, Fleabag estava bem. Descobrira a receita para isso. Mas a temporada inteira é sobre maternidade, sua ausência e formas de se conectar com os vestígios deixados por uma mãe que se foi. Para encontrar essas pistas, encontrar a mãe em si, um caminho doloroso precisou ser percorrido — a dor é um processo de aprendizado. É buscando onde se esconder ou onde depositar seu amor que a personagem vai em busca do Padre.

Fleabag não pode mais se alimentar do luto, então busca outras maneiras de se autossabotar, porque, como definiu uma amiga minha, a série é sobre o período em que praticamos esse esporte na vida. Por isso, ainda segundo minha amiga, não caberia uma terceira temporada: ela estaria bem, e a essência da série, sua razão de ser, perder-se-ia. Nos seis episódios, a protagonista vai atrás dos mais diversos problemas e nos faz acompanhá-la quase como se dissesse “veja, estou fazendo isso porque eu quero, mas se eu quisesse, estaria bem”. Nós a julgamos, ela sabe. Sua resposta a este julgamento é perfeita: meu erro não é inconsciente. Lembra-me de uma música da Fiona Apple em que ela canta “vou cometer um erro / vou fazê-lo de propósito” e “eu quero cometer um erro / por que não posso cometer um erro?”.

Fleabag.

Claro que pode, Fleabag. Nós permitimos. Permitimos porque também sabemos que ela há de achar paz quando parar de perseguir os mesmos métodos. Permitimos porque é divertido ver uma pessoa falhar de forma tão constrangedora na “simples” tarefa de encontrar um par para si. Permitimos porque, ah, que química que eles têm! Quando a vemos ser deixada no ponto de ônibus, ficamos com o coração partido e nosso primeiro impulso é consolá-la. Mas tentar consolar uma pessoa que não precisa de consolo, só precisa de um tempo e de um espaço para si, é um erro. Pensando nisso, entendemos melhor a última cena e a decisão que a personagem toma, deixando-nos para trás. Andar sozinha pelas calçadas sem que estejamos por perto não garantirá que fique bem, mas ela não precisa estar bem — não agora.

Depois do envolvimento com esse homem que tinha uma missão maior do que se deixar ser amado por uma pessoa, a protagonista fecha um ciclo, ganha mais experiências e tira do sentimento (seja-o o amor ou a tristeza) o que ele tinha para lhe oferecer. Talvez a leitura de que a personagem vai atrás de confusão e tudo dá errado porque ela procurou tal destino seja muito cínica, e as coisas não sejam tão simples. Mas talvez a série de Phoebe Waller-Bridge seja tão boa justamente pela sua qualidade cínica. Discordemos ou concordemos com o quanto Fleabag foi responsável pelas peripécias que aconteceram, fica sua jornada como lição ou como provocação para que comecemos mais debates sobre não estar bem por escolha e se isso é uma completa fantasia.

Para Felipe.

It will pass.

Fleabag.

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Menciono no texto:

This Feeling, Alabama Shakes do álbum Sound & Color.

Unrequited Love de Lykke Li do álbum Wounded Rhymes.

A Mistake de Fiona Apple do álbum When the Pawn…

Happy Together, filme chinês de 1997, dirigido por Wong Kar-wai.

Pequena Morte, uma crônica minha de 2018 que você pode ler aqui.

As citações entre aspas são traduções diretas do discurso feito pelo Padre no casamento.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.