Nesta última sexta-feira, a emissora casa da figura mais emblemática da televisão brasileira completou 35 anos, o verdadeiro, porque todas as outras emissoras têm a sua imitação em homenagem a essa página viva da história. A SBT, recinto de Sílvio Santos, literalmente, pois sua família Abravanel várias vezes apareceu por lá durante esse tempo, sempre correu por fora na luta pela audiência, mas sempre estava lá com polêmicas, inovações e soluções de um dia para o outro, dadas pelo seu próprio patrão. Um judeu empreendedor que transformou a oportunidade de uma emissora em uma potência da vice-liderança.

Foi a banheira do Gugu, que atiçou homens e mulheres nas tardes de domingo, o Passa ou Repassa, que não teve ninguém que diga que não teve vontade de participar. O Disney Cruj que fez todo mundo brigar com os pais para assistir esse maravilhoso programa na hora do Jornal Nacional. Teve o Fantasia que fez todo mundo gastar ligações telefônicas para participar de alguma brincadeira daquelas mulheres monumentais. Por falar em mulheres, o Cocktail do Miele mostrava-as ainda mais monumentais. O Viva a Noite encantava a todos com um auditório alegre e participativo, como marca principal da emissora paulista.

Quem não se lembra de figuras emblemáticas da emissora, como a eterna Hebe nas segundas-feiras a noite, a assistente de palco Helen Ganzaroli que caiu nas graças do público, e também ganhou um programa só para ela, mas que durou apenas um dia. O famoso Pablo que com suas tatuagens brilhantes no rosto dublava as músicas que todo mundo procurava acertar após charadas de seus nomes. E mil pegadinhas – a marca registrada – de Ruth Romcy e Ivo Holanda permeiam a programação, desde a estreia.

A clássica charada: a sétima letra do alfabeto, o sistema único de saúde e a mais famosa estátua do Rio de Janeiro, formam o nome dessa música. E a resposta Jesus Cristo (G + SUS + Cristo), de Roberto Carlos. Como eu gostava disso. Gente! E passar a manhã vendo qual ratinho iria ganhar a corrida de algum desconhecido, e ainda torcer por ele para ganhar o Playstation do Yudi e Priscila. Adivinhar qual maça teria a explosão de flores do Tentação. Ou tentar combinar relacionamentos no “É namoro ou amizade”. Descobrir as palavras do Roda a Roda ou arrepiar com a música do peão da casa própria.

Quem nunca imitou a voz do Silvio Santos, ou disse um inspirado “Ma Oe” em alguma circunstância da vida? “Vai pra lá, vai pra lá”. Ou ainda a voz do Lombardi – saudoso locutor – dizendo os números da Tele Sena. Ou não incorporou ao seu vocabulário, bordões da emissora como “Isto é incrível” ou ainda o “Sucesso” dos ratinhos fantoche do Ratinho humano. E por falar nele… Ratinho, Celso Portiolli, Marília Gabriela, Eliana, Flávio Cavalcanti, Jô, Carlos Alberto de Nóbrega entre os ilustres apresentadores que são ou já passaram pela casa.

Conhecemos protagonistas sofridas de novelas mexicanas e brasileiras, com grande influência do choro e do maniqueísmo. Paola era má, muito má. Mas Maria do Bairro era muito altruísta. Boa, que dava até dó. E tantas outras entre Canaviais da Paixão, A Gata, Amigas e Rivais… Mas, o sucesso vem também com as crianças, aliás mexe-mexe mexe com as mãos, Chiquititas! Ou Carrossel ou Cúmplices de um Resgate. E toda a festa à televisão, com a realização do Troféu Imprensa ano a ano.

No humor, temos um programa que ainda inova como “A praça é nossa”, com alguns personagens que revivem e prevalecem a nostalgia como a velha surda, ou inova como com a Filó – Ô COITADO! –, e já tivemos Ronald Golias e Ary Toledo, mostrando todo o compromisso da emissora também com o humor, além de Bozo, que marcou toda uma geração. O Show de Calouros com tantos jurados icônicos: Aracy de Almeida, Décio Piccinini, Elke Maravilha, Mara, Nelson Rubens… E hoje a classe de programa foi herdada pelo Raul Gil, que também quer saber para quem você tira o chapéu.

Vimos a Casa dos Artistas com uma Bárbara Paz despontando para o mundo e ao estrelato. E também vimos alguns realities shows bons, mas que deveriam ter tido um zelo maior, como Ídolos e Solitários. O jornalismo se apresenta com alguns programas marcantes como o Aqui Agora tem suas limitações de investimento da própria emissora como, por exemplo, é a única emissora das grandes que não está cobrindo as Olimpíadas e isso deu certo. A campanha do Teleton que reúne uma gama de artistas por um bom motivo. Mas, alguns percalços também estragam a história da emissora, como a farsa do PCC no Programa do Gugu.

E como um site de séries, não posso deixar de comentar grandes obras como “Alô, Doçura”, de Cassiano Gabus Mendes e a atual “A Garota da Moto”, que fez o SBT brilhar os olhos com a produção de séries e prometeu pensar mais nesse segmento. Ou seja, pode voltar a aparecer por aqui no site. Além é claro do carro-chefe da emissora a série mexicana Chaves e Chapolin, que marcaram a nossa cultura popular, desde estampas até bordões.

Silvio, sempre inspirado, e dessa vez com uma roupa tão inspirada com uns shorts azuis e uma camisa amarela, disse que não tem como competir com a Globo. E concordo com Ricardo Feltrin que este foi o seu maior acerto, e esta é uma grande lição que levamos para vida. Porque quando a gente conhece o concorrente, e assim o reconhece como uma grande potência: o negócio é respeitá-lo para conseguir consolidar o nosso lugar. Mostrar que ainda podemos conquistar uma vice-liderança, ainda respeitar e reconhecer de onde se bebe a fonte de inspiração.

Luta boa é luta com respeito. E não conseguimos falar de qualquer outra emissora hoje no Brasil sem falar da poderosa platinada. Mas, aqui não cito para minimizar nenhum mérito do SBT, mas para enaltecer o respeito de sempre. E é louvável, que faz merecer muito mais que 35 anos na nossa vida dos brasileiros, que estamos tão acostumados em traçar entraves entre rivais.

Parabéns, SBT.

Artigo anteriorBallers 2×04/05: World of Hurt/Most Guys
Próximo artigoMr. Robot 02×07: eps2.5_h4ndshake.sme