As famílias disfuncionais de Riverdale.

Riverdale nos trouxe, nessas duas semanas, um panorama maior das famílias e da mitologia da cidade a beira do Rio Sweetwater, além de, acertadamente focar no progresso e nos mistérios e contratempos do caso Jason Blossom.

Começando pelas famílias, temos concorrentes a altura dos Cooper, finalmente! Heart of Darkness foi quase que exclusivamente dedicado a mostrar a família Blossom e nos explanar os motivos de Cheryl tentar ser o anticristo. Como apontado anteriormente por esse que vos fala, Cheryl é uma alma perdida e cheia de angustia, alguém que merece piedade e não ódio, que faz o que faz em prol da auto-preservação e cabe a nós identificar e quebrar a casca em que ela se mantém.

Nem todo o luto do mundo serve como desculpa para o modo com Penélope Blossom agira daquela forma com a filha. O silêncio, o desprezo velado, a necessidade de se impor perante uma garota que acaba de perder o irmão gêmeo que sempre foi o único que demonstrou se importar com ela… Mesmo que Penélope tenha perdido seu garoto de ouro, isso não justifica a agressão psicológica continua ao qual a garota é exposta. Temos aqui uma concorrente a altura para Alice Cooper na concorrência para o prêmio de pior mão de Riverdale.

Tivemos também o desprazer de conhecer Cliff Blossom, mostrando que o patriarca é tão ou mais desagradável que a esposa, ao atacar, deliberadamente, uma garota de dezesseis anos em meio a um jantar. Isso não se faz com convidados.

A melhor parte dos Blossom, sem dúvida é a avó dos gêmeos. Completamente assustadora e senil? Sim. Usada como artifício de roteiro para movimentar a trama? Sem dúvidas. Mas uma adição incrível que ajudou a compor a ambientação de Tornhill, como se os Blossom vivessem eternamente em um romance gótico.

Preciso fazer aqui um adendo de que Madelaine Petsch ficou acima do tom em quase todas as suas cenas no episódio cinco, em especial no take final da cerimônia fúnebre, onde, não sei se é intencional, a mesma mostra-se caricata, atuando para todos que ali estão.

Dito isso, tivemos ainda um pouco da obsessão e desencontros de Hal Cooper em relação a filha e ao que ocorreu com Polly. Desenvolver o pai de Betty na trama trouxe um leque maior de possibilidades para o assassinato de Jason, mostrar que sua personalidade é tão perturbada quanto a da esposa ajuda a traçar o quão problemática essa família sempre foi atolada na própria hipocrisia, vivendo do passado, numa rixa sem sentido.

Jason e Polly são como Romeu e Julieta, as famílias se odeiam por um histórico que envolve dinheiro, ganância e assassinatos.

Mencionaram durante o episódio as ‘famílias fundadoras’ de Riverdale e não pude ligar logo a The Vampire Diaries e toda a treta entre seres mágicos que tem a ver com famílias fundadoras.

Para finalizar o plot dos Blossom e dos Cooper, temos aqui a certeza de que os mais velhos são duas bandas podres de uma maçã estragada. Betty, Cheryl, Polly e Jason estão bem ferrados com os pais que tem.

Nesse mesmo episódio nos mostraram também um pouco sobre os Andrew e os Lodge. De todos os adolescentes dessa cidade, certamente Archie é o mais sortudo. Por mais que os pais tenham se divorciado, Fred é o mais próximo de uma pessoa normal e não poupa esforços e atenção ao garoto. Tivemos plena certeza disso e do apoio e confiança dele no rapaz ao longo do episódio, com conselhos em meios as voltas das escolhas que o ruivo precisa fazer.

Archie finalmente ganhou tempo de tela e sua trama é condizente com tudo o que foi apresentado, após sofrer com a predadora sexual que era sua ex-professora de música, ela começa a se questionar sobre seu talento, precisa de um novo mentor e de fazer escolhas difíceis. Alguns dirão que a trama está chata, porém, é a trama mais próxima de qualquer um de nós. São as pequenas escolhas que precisamos fazer no nosso dia a dia, lidar com nossos sentimentos, com todo o turbilhão de decisões que mudam nosso dia a dia em uma fração de segundo, dos sacrifícios que fazemos quando queremos algo. Archie sabe agora que você precisa lutar pelo que quer sempre, e isso traz uma maior dimensão ao personagem.

Já as garotas Lodge encontram-se em apuros. Hermione nos mostra, cada dia mais, que é uma jogadora exemplar, porém, com tantas camadas que não sabemos exatamente quando a mesma está usando sua fragilidade para conseguir o que quer ou quando realmente está frágil. Verônica, ou Ronnie, para os íntimos, é a prova de que você pode ser espontâneo, explosivo e ainda assim caridoso. Sua interação com Cheryl, dando força quando mais ninguém realmente se importa dá um caráter único para a personagem que, apesar das falhas, tem sim um enorme coração.

No fim do episódio tivemos então um pouco mais de Hal e que ele foi o responsável pelo furto das provas da casa do Xerife Keller. Ok, Hal, você está dentro do jogo após correr por fora como alguém completamente alheio.

Já entrando no episódio seis e falando sobre Hal, tivemos, no fim do episódio, uma cena antológica da família Cooper em meio a uma discussão onde Alice mostra que seu desprezo não tem limites e se estende a todos os membros da família. A mesma parece não saber do que o marido é capaz e isso embola de vez a questão do assassinato, afinal, por mais destemperada que mama Cooper seja, ela é a pessoa com menos capacidade de fazer isso. Alice é impulsiva e autoritária, não teria o sangue frio de planejar meticulosamente cada passo do ocorrido com o garoto Blossom.

Em “Chapter Six: Faster Pussycats! Kill! Kill!” saem os Blossom e entram os McCoy como família problemática. Josie tem uma personalidade parecida com Cheryl, porém a mesma se dá pelos excessos cometidos por sua mãe e a ausência do pai. A Prefeita McCoy faz com que a líder das Pussycats acredite que é única, insubstituível e rara, quando, na verdade, ela é apenas uma garota talentosa. Essa falta de limites é tão prejudicial quanto o completo desprezo praticado pelos Blossom.

Com isso chegamos a conclusão de que todas as famílias são imperfeitas, mas, algumas, pecam em excesso na criação dos filhos e constroem adultos ainda mais problemáticos. Vide o que os Cooper fizeram com Polly.

Vendo aquilo me senti num romance de época em que os pais querem esconder e controlar, a qualquer custo, o que a filha faz. Que em pleno século XXI uma adolescente engravidar do namorado seja motivo para trancafiá-la e escondê-la de tudo e todos. Que mundo é esse em que vivemos que a ‘moral e bons costumes’, em que a imagem é mais importante que o bem-estar de um membro da família? Que década é essa em que os pais querem ter controle de uma garota apenas por ela namorar um desafeto de uma briga boba que perdura três gerações? E não adianta falarem que é ficção, pois isso existe e está cada vez mais comum, basta pesquisar em qualquer tabloide.

Em termos gerais, o episódio soube dividir um drama mais pesado e uma trama adolescente mais leve. A sacada dos roteiristas merece ser aplaudida episódio após episódio, eles sabem dividir o tempo de tela e dão, sem dó, o protagonismo para quatro pessoas diferentes, interligando tramas e dosando-as de acordo com o histórico da própria série.

Verônica viu seu mundo desabar ao perceber que as coisas podem não ser como ela esperava, que seu pai, apesar de não ser santo, pode ter destruído sua família. Archie segue em frente a duras penas, aprendendo com os desafios que se interpõe a ele, sabendo que todos nós nascemos sozinhos e precisamos lutar pelo que queremos dessa mesma forma; usando o medo e o receio como combustível.

Jug e Betty formam um time e tanto na linha investigativa, finalmente colocando um foco de luz no que ocorreu com Polly. A moça está grávida e escondida pelos pais, afinal, é necessário que todos acreditem como a garota é perigosa e neurótica. Abro aqui um breve momento para comentar que espero que aquele beijo não vá dar em nada, Betty ainda gosta de Archie, que está seguindo em frente com Valerie e isso estraga todo o clima de amizade. Os roteiristas pecaram aqui ao não manter Jughead como um personagem assexuado, assim como sua contraparte dos quadrinhos, afinal, uma série que mostrou que não tem medo de focar em temos delicados em episódios anteriores poderia, muito bem, trabalhar um personagem assim e mostrar que pessoas assexuais existem.

Voltando ao caso do assassinato do garoto Blossom, sabemos que Jason iria fugir desde o episódio três, porém, temos agora maiores informações de que ele faria isso com Polly, que o mesmo ficou feliz com a gravidez da garota e que não mediria esforços para escapar do castelo do mal que era a Mansão Tornhill. Jason não era uma pessoa sem falhas, o mesmo estava vendendo drogas na cidade, vivia em uma família emocionalmente quebrada, seu único conforto era a irmã e então a namorada, cujos pais (dos dois lados) fizeram terminar o relacionamento.

Pensando nisso podemos supor que qualquer um dos quatro pode ter motivos para matar o rapaz, além de, claro, Betty e Jughead. A lista se intensifica a cada semana e cada nova pista.

Hal roubou provas.

O carro de fuga dos amantes adolescentes foi incendiado por alguém que quer a interrupção na linha de investigação da morte de Jason.

Penélope pode ter se descontrolado ao saber que o rapaz ia fugir.

Sabemos que Miss Grundy deu aulas particulares para Jason…

A trama se intrinca e, chegando na metade da temporada, não podemos dizer que está claro quem mataria o rapaz.

Vamos ver o que nos aguarda no Capitulo Sete na próxima quinta-feira.

P.S.: NÃO PRECISA METER ROMANCE EM TUDO, GENTE! Isso faz o fandom virar um antro de pesudofãs que só assistem a série para ficar shippando casalzinho e esquecem de prestar atenção na trama que está sendo construída. A série é muito mais que Varchie, Beronica e Jugchie, Beghead… Não tornem o fandom de Riverdale um Teen Wolf 2.0, onde o pessoal shippa os personagens até com os arbustos e a figuração. É feio, tira credibilidade da série e dá a entender para a produção que não é necessário qualidade, bom roteiro ou atuações, desde que tenha casalzinho para todo lado, fora que demonstra uma futilidade sem tamanho. O mesmo aconteceu com Arrow e o surgimento das ‘Olicitys’ na segunda temporada, vimos no que resultou esse excesso de shippers: terceira e quarta temporadas foram um baita lixo com 3% de aproveitamento. Não é porque a série é do CW que precisa focar apenas em romance, lembrem que esse canal nos deu OTH e Veronica Mars, duas séries excelentes que tinha muito mais que apenas shippers. Apenas parem. Sério.

Segredos a beira do Rio Sweetwater:

– Polly fugiu no final do episódio e está machucada. Ela teve a ajuda de alguém? E aquele sangue na janela, seria dela?

– Jughead está morando aonde?

– “Você não precisa acreditar em nós. Somos seus pais!”. COOPER, Alice.

– Todos os episódios da série até então tem nomes de filmes, sejam eles clássicos do cinema ou filmes B.

– Xarope de Bordô é o melhor motivo para assassinar alguém que eu já vi.

– Josephine Baker é considerada a primeira grande estrela negra das artes cênicas em todo o mundo.

– Procurem a trilha sonora de Riverdale. Tem uma qualidade absurda, tanto as composições originais de Blake Nelly quanto as músicas dos artistas.

Obs:

Gostaria de me desculpar por não ter rolado o review na semana passada. Tive alguns contratempos e não consegui editar o texto de forma que tivesse qualidade, sendo assim, essa semana teremos review dupla, o que, avaliando o que os episódios cinco e seis nos apresentaram, é a melhor forma de falar, afinal, os dois se complementam ao trabalhar os arcos dos personagens.

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