Revenge, por que tão desnecessária a esta altura do campeonato?

Muito se especulava sobre quem seriam os donos das Two Graves do nosso último episódio de Revenge. E, até o episódio passado, já parecíamos ter certeza de um deles, já que o destino de Victoria Grayson tinha tudo para ter sido selado em Burn. Porém, como tudo em Revenge, nenhuma morte é verdadeira até prova em contrário – aliás, por essa mesma premissa, nunca saberemos se Conrad está realmente morto, não é verdade?

Emily Thorne, onisciente como é, sabe (e quase disse isso em voz alta para nós) que está em um novelão onde tudo é possível, e por isso já supôs quase instantaneamente que Victoria estava viva. Acho que só perdeu em perspicácia para Charlotte, que, no retorno mais inútil da história do programa (sério, até Stevie Grayson conseguiu um retorno mais triunfal do que essa peste!), foi a primeira a se lembrar do histórico de mamãe de forjar da própria morte e insinuar que isso poderia ter acontecido de novo. Charlotte foi bem mais fria do que deveria com a mãe que sempre fez tudo por ela, mas perdemos o direito de culpá-la quando ela trouxe à tona a famigerada explosão do avião. Faz muito sentido se recusar a viver outro luto depois daquilo.

Louise, por sua vez, segue sendo a filha que toda rainha pediu a Deus, e continua sendo extremamente desvalorizada por conta disso. É interessante ver como Victoria dava importância para seus dois pirralhos mimados que deram corda pra Emily mesmo depois de ter suas vidas destruídas por ela sem razão alguma, enquanto Louise nunca foi reconhecida por seu valor. Prova de que laços de sangue são eternos para uma mãe, ainda que os filhos decepcionem e maltratem tanto.  Mas voltando a Louise, é impressionante como a criação dessa personagem conseguiu ser tão bem sucedida em plena temporada final diante de um histórico pífio de coadjuvantes que fomos ganhando ao longo do caminho. A inocência da maluquete é de cortar o coração, e vê-la sendo manipulada de um lado e de outro chega a me doer. Louise é praticamente um novo Daniel nas mãos gélidas de Emily e Victoria, mas a diferença é que a ruiva tem muito mais alma, carisma e amor no coração, e é por isso que não há como não ficar entristecido com o jogo de ping-pong que estão fazendo com ela.

Aliás, devo dizer que assim que Louise encontrou o capuz no meio das coisas de Victoria, a primeira coisa que pensei foi justamente “óbvio que foi o Nolan quem plantou”. E, pra ser sincero, prefiro continuar acreditando nisso até agora, porque não faz nenhum sentido que Margô tenha usado a peça para atacar a rainha e depois voltado lá e dito “oi querida, vim guardar esse modelito que me incrimina no seu armário, tá?” Para ter um mínimo de respeito com o roteiro desse episódio, vou fazer a escolha de assumir que Nolan plantou o troço lá para manipular Louise e recuperar sua confiança e pronto. Ponto para o nosso nerd por essa jogada, né, gente?

Outra coisa: como que a criatura me desfila por aí com um supostamente defunto Mason Treadwell no mesmo carro em que ela anda publicamente? Ah, Revenge, me respeita, né? Se você consegue bolar planos tão impenetráveis para Emily Thorne, o mínimo que esse roteiro deveria fazer era nos poupar de planos grotescos como esse que só são falhos para a protagonista se safar.

Ainda assim, tudo valeu a pena para ver o belo modelito Emily Is The New Black. Acho até que houve uma pequena homenagem aí. Acho muito divertido saber que, ainda que absolutamente a polícia inteira tivesse certeza deque a detenta tentaria fugir, ninguém ficou vigiando, e ela pôde fazer o que bem entendesse por um bom tempo (incluindo aproveitar-se do pai com câncer e prendê-lo no lugar dela, numa deliciosa sambada na cara de David que só as melhores e mais cruéis vilãs dariam conta de proporcionar).

Agora, vamos falar sobre planos ridiculamente absurdos? O que foi Jack contratando um segurança falso para uma loja aleatória de joias chiquérrima para levar Margô à prisão, gente??? Como que um DONO de uma joalheria deixa uma cliente bilionária que é dona de um império mundial de comunicação ser tratada daquele jeito? “Ah, mas se ele achar que ela roubou, tem que deixar, porque todos são iguais perante a lei”. Bom, nesse caso, poderíamos ter feito tudo mais simples e botado Papai Noel para descer pela chaminé da delegacia e libertar Emily, não é verdade?

Para fazer uma analogia mais compreensível, lanço a pergunta: o que um dono de uma joalheria no Brasil faria se Silvio Santos, frequentador e cliente altíssimo da loja há décadas, estivesse saindo do lugar e o alarme apitasse? A) Assumiria que é um problema do alarme, pediria desculpas e ainda daria um brinquinho de diamantes de brinde para que o dono do SBT presenteasse a esposa ou B) Permitiria de boas que o segurança recém-contratado (por “recém” entendam: no mesmo dia!!!) jogasse o homem do Baú na parede, o algemasse, o levasse para a cadeia e o alojasse na ala dos assassinos. Pois é, Silvio, eu se fosse você jamais iria visitar o pessoal de Revenge, viu? Lá é assim que as coisas funcionam. Analogia número 2: em Breaking Bad, a personagem Skylar White foi acusada de roubar uma joia de altíssimo valor numa loja e levada pela polícia, onde foi interrogada e, depois de fazer um charminho, liberada por falta de provas (sim, ela estava de posse da joia). Ok, não quero comparar a qualidade e a competência dos roteiristas de Revenge com os de Breaking Bad por motivos óbvios, mas será que Sunil Nayar não enxerga limites para o ato de subestimar nossa inteligência?

Não, não enxerga. Afinal, Victoria Grayson apareceu de volta, toda diva saindo do banho dentro de casa como se nem estivesse sendo dada como morta pela polícia. E não ganhamos nem o direito de ver Margô negando-se a revelar a informação a Ems para nos dar a chance de presenciar uma ótima cena de tortura que Revenge, exibida no horário das 22h e prestes a terminar, poderia muito bem ter tido a ousadia de nos entregar. Presumo que a ideia seja desvincular Santa Ems da imagem de torturadora, o que só me faz acreditar mais ainda em um lamentável final feliz para a protagonista. Para isso, claro, ela vai ter que passar pela terrível assassina Courtney Love, que, vamos combinar, é o papel perfeito, porque essa mulher sempre me deu tantos calafrios quanto a personagem que ela está interpretando tem a missão de nos dar.

Agora, vamos falar sobre esse retorno nada triunfal de Vicky. Pra quê, Revenge, P-A-R-A-Q-U-Ê? Estávamos todos felizes, em paz e satisfeitos com a ideia de ver Vicky sacrificando a própria vida para destruir Emily. Foi um final perfeito, que agradou tanto aos fãs de Victoria Grayson quanto os de Emily Thorne por diversos motivos. A série finalmente parecia estar tomando o caminho certo. Então, sou incapaz de entender o que temos a ganhar ao vermos pela segunda vez o mesmíssimo recurso de explodir Victoria para trazê-la de volta em seguida. Nem eu, um dos Revengers mais céticos, consegui acreditar de verdade que a série seria tão cara de pau ao ponto de repetir o mesmo artifício batido duas vezes. E só de pensar na possibilidade de um dos Two Graves ser de Vicky a essa altura, dou uma leve gorfadinha. Trazê-la de volta no final de um episódio para matá-la de novo no seguinte? Não, nem Revenge seria tão porca. Ou será que seria?

Plea foi um episódio para apagar da nossa memória, com muito mais chutes, forçadas de barra e furos de roteiro do que a quarta temporada inteira já nos havia entregado. Nem de longe a série conseguiu cumprir a missão de um pré-series finale: nos deixar ansiosos pelo último episódio. Partcularmente, estou mais propenso a acreditar que terei que apagar esses dois últimos capítulos do meu acervo pessoal e considerar que Aftermath será o meu series finale do que a ter esperanças de um final decente e bem escrito para nosso universo revengístico.

P.S. – Não, não estou nem aí para a morte de Ben, mas obrigado por perguntar.

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.