A nova dona de casa desesperada.
Minha experiência com novelões importadas dos EUA não é tão antiga como poderia (shame on me!) e começou basicamente com aquela delícia chamada “Desperate Housewives”, cujo sucesso indiretamente abriu as portas para Revenge na ABC. E quem viu a maravilhosa e também rainha Bree Van de Kamp, tão puritana, conservadora e “boa esposa”, mostrar seu lado podre e sua fascinação por armas de fogo (quanto maior o calibre, melhor!) dificilmente não enxergou com nostalgia um momento “dona de casa desesperada” na cena em que nossa rainha Vicky ameaça Ems com sua espingarda.
De fato, Victoria Grayson parece estar tomada pelo desespero, o que costuma bloquear um pouco a capacidade humana de raciocínio. Seus planos para aliciar David Clarke estão mais furados do que queijo suíço. Ok, os de Ems também eram, mas você não pode se dar ao luxo de planejar mal as coisas e acabar contando com a sorte caso não seja o ungido protagonista da série. O fato é que não há como sustentar as mentiras que Vicky conta por muito tempo. Assim que Ems identificar seu pai, será muito fácil que ela e Nolan consigam desmascarar as mentiras de Victoria e trazê-lo de volta para o lado deles. Por isso, fazer com que David saia em um rompante de sede de justiça para tentar esfaquear inadvertidamente a própria filha é um dos cliffhangers mais falhos que a série já utilizou. Sabemos que isso não vai dar em nada que já não imaginávamos que aconteceria, portanto nada esperamos a respeito.
Tampouco nos é interessante ver os caminhos trilhados por outros personagens. Charlotte é tão chata e tão mal composta por sua intérprete que não há um pingo de empatia ao vermos o suposto “emocionante reencontro” com o pai.
Jack supostamente deveria estar nos presenteando com uma epifania bacana sobre seguir o seu próprio caminho e coisa e tal, mas a série falhou tanto na tarefa de construir o personagem nesse sentido que é impossível esboçar qualquer reação que não seja a própria indiferença em relação ao que ele faz ou deixa de fazer com o Stowaway. Jack teve um desenvolvimento peculiarmente bacana no aspecto dos conflitos de caráter e valores pelo qual passam todos os personagens de Revenge, mas toda essa discussão de carreira profissional só parece ter a ver com justificar uma decisão da produção de cancelar o cenário do bar.
Nem mesmo ver Vicky manipulando Margô para receber dinheiro foi uma cena capaz de nos propiciar algum espetáculo. A maneira como a rainha conduziu o diálogo foi se mostrando um plano tão descarado e óbvio, tão abaixo dos seus padrões de manipulação – e mesmo abaixo da inteligência da própria Margô! -, que eu só queria que aquilo acabasse logo para que eu evitasse sentir mais vergonha pelas atrizes sendo obrigadas a encenar aquela cretinice. Por fim, Daniel falido sendo expulso do hotel? Não, obrigado.
O único aspecto realmente intrigante do episódio foi o retorno de Louise (é isso?), a filha adotiva de Vicky que saiu de repente do manicômio porque aparentemente a fuga da nossa rainha gerou uma verdadeira revolução na administração do lugar. Será que por trás da fachada de fiel súdita de Victoria (aliás, me identifiquei horrores, se eu estivesse em Revenge também super faria a linha “Shut up and take my money!” diante de tamanha majestade!) residem segundas intenções?
Há dois caminhos possíveis para Louise: ou ela se aproximou de Daniel já sabendo quem ele é em nome da devoção que criou por Victoria, ou ela é (preparem o bocejo) mais uma espiã de Ems. Nenhum dos dois é surpreendente ou cativante, mas, se é para escolher um, que seja o de criar ao menos uma aliada para Vicky e tornar esse embate entre as duas grandes forças de Revenge algo um pouco mais digno de ser visto.
Justamente por ter consolidado caminhos extremamente óbvios e nada cativantes é que Ashes foi, acima de tudo, um episódio completamente entediante e dispensável. Os únicos personagens que realmente importam a esta altura (Emily, Vicky e David, basicamente) seguiram jornadas cercadas por obviedades e que falham em gerar qualquer expectativa para o futuro. Pra piorar, o episódio não nos deu nenhum bafão, não nos deu ninguém divando, enfim, não foi lá muito fácil. E, sejamos francos, se o “grande mistério” que tivemos para discutir neste espaço está centralizado numa who que apareceu pela segunda vez, é porque a coisa não deu muito certo. Revenge, você já foi bem melhor, hein?
Observações:
– Revengers, tem algum bombeiro entre nós? É normal um local de incêndio, no dia seguinte ao controle do fogo, ainda estar com tudo saindo fumacinha enquanto o proprietário anda por lá?
– Ainda no assunto “cinzas do Stowaway”, adoro Revenge assumindo a própria mexicanização até em detalhes de idioma escrito. Vejam o flagra:

– “Se Vicky não é a prioridade, eu é que não quero ser o primeiro item da sua lista.” Nolan, mesmo apagado garantindo nossos segundos semanais de alegria com as melhores pérolas, como não amar?















