Semana passada, a série Rescue Me exibiu no canal FX seu último episódio de sua sétima e última temporada, fechando assim uma história que se iniciou no já longínquo ano de 2004. Entretanto, seu real ponto de partida foi o fatídico 11 de setembro de 2001, o dia em que 343 bombeiros deram suas vidas buscando salvar estranhos em perigo em prédios em chamas. A história que acompanhamos minuciosamente foi a dos homens que sobreviveram.

Spoilers Abaixo:

Antes de comentar sobre essa última temporada, acredito que é importante frisar duas características fundamentais da série durante o seu decorrer, não apenas para percebemos certas conexões na história como para compreendermos melhor o seu final, o qual foi um tanto quanto surpreendente, seja para o bem ou para o mal.

Primeiramente destaco o título da série, que sempre teve um duplo sentido que a meu ver serviu como base para abordar os mais variados temas com o máximo de realismo que uma ficção pode nos proporcionar. Não houve assunto, polêmico ou não, que não tenha sido tratado, discutido ou exposto ao público, seja via drama ou comédia, durante as temporadas.

O termo Rescue Me é a essência do paradoxo existente no trabalho diário de cada bombeiro. Sem jamais glamourizar tal função, Peter Tolan e Denis Leary apresentaram uma história emocionante e divertida sobre os homens do Batalhão 62 durante esses anos. E foi esse o grande diferencial da série. Ao contrário do estereótipo do bravo herói, eles optaram por mostrar que aqueles bombeiros que arriscam suas vidas diariamente por pessoas que nunca viram ou que, em alguns casos, até mesmo odeiam intimamente (ou não) são apenas humanos, cheios de falhas e graves problemas, como qualquer um de nós.

Em segundo lugar friso o estilo bruto da história. Rescue Me poderia ser taxado de uma série politicamente incorreta, mas não acredito que esse termo lhe faça jus. Rescue Me é só a vida como ela é, no limite do possível é claro. Vejam: apresentar situações cômicas racistas, homofóbicas e misóginas nos mais variados momentos; exibir uma quantidade insana de relações sexuais e extraconjugais, inclusive entre parentes; fazer piadas com tradições sociais e religiosas sem pena. Tudo isso é sim Rescue Me, mas também é o mundo real, para horror dos moralistas.

Tendo esses pontos em mente, fica muito mais fácil entendermos os eventos presenciados nessa temporada final. Desde a ascensão gradual de Franco até o posto de tenente do batalhão, passando pela crise profissional e familiar de Tommy, culminando ainda na morte trágica de Lou em serviço, a série fechou sua história de uma forma que eu não esperava. Na verdade, os próprios roteiristas resolveram brincar com o público no final. Eu já tinha comentado várias vezes que esperava a morte de todo o grupo durante um incêndio, e essa era a lógica “natural”, tanto que o começo do último episódio mostrou, por meio de mais um dos sonhos do Tommy, como teria sido o funeral deles.

Como explicar então a opção por salvá-los, com exceção do Lou? A resposta é: não há explicação. Notem que no discurso final que Tommy faz aos calouros, refazendo ali a ontológica cena inicial do piloto da série, ele afirma que uma das perguntas que consomem os homens que sobreviveram ao atentado terrorista as Torres Gêmeas é porque eu sobrevivi e meus irmãos, primos ou amigos não. E simplesmente não há uma resposta, ao menos uma satisfatória. É irônico que após tanto tempo conhecendo cada um daqueles homens, suas (poucas) qualidades e (enormes) defeitos, eles tenham sobrevivido a tudo pelo qual passaram. E mais: praticamente ilesos. Não faz realmente sentido e não é mesmo pra fazer.

Deixo para Tommy expor melhor essa questão:

“Isso não é um trabalho. Não é uma ocupação. É um chamado. Uma necessidade. Um desejo que sentem em seus ossos, em seus cérebros e em seus sacos.”

Rescue Me nunca foi uma série de grande sucesso, nem tão pouco reconhecida pela crítica especializada, nem jamais chegou a vencer um prêmio importante. E, ironicamente ou não, da mesma forma são tratados os bombeiros: sem admiração, respeito ou perspectivas. Entretanto, quando precisamos deles, quando não há mais esperanças, são com eles que podemos contar para pôr em riscos suas próprias vidas por nós. Será especialmente por isso que Rescue Me será lembrada com carinho por muitos anos por todos aqueles que a acompanharam até o fim.

@Adriel_SS

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