O perfeito e estranho adeus de Daniel Holden.
A segunda temporada de Rectify contou com dez episódios, e com isso, a série se tornou um pouco cansativa. Na terceira, apenas seis episódios, concisos, precisos e intensos. Não houve tempo para cansar, tudo foi construído com maestria e intensão. O arco narrativo acompanhou a decisão jurídica de que Daniel deveria deixar Paulie, até o personagem finalmente dar um passo solitário para dentro de uma casa estranha em uma cidade desconhecida.
Mas não teve lágrimas. Despedidas podem fazer bem, quando não são definitivas, é assim que Daniel e Amantha encaram o adeus. “I love you sister” “I love you brother”, singelo, mas extremamente profundo e comovente. O episódio ainda mostra um Daniel que senti falta: aquele que brinca consigo mesmo, que diverte e comove pela sua simplicidade, pelo seu olhar diferente sobre as coisas mundanas. Para Daniel, a visãodos fundos do hotel é incrível, para Jon, que compartilha o momento com o protagonista, é apenas uma “visão de merda”. Para quem viveu boa parte de sua vida confinado, até um muro qualquer pode ser lindo.
A liberdade de Daniel em Paulie não parecia completa. O personagem sempre conviveu com fantasmas de seu passado. Pode-se ver ao decorrer do episódio que Daniel vai constatando que deixará uma história complicada para trás, e a atuação de Aden Young transpira uma leveza que vai se transformando em animação e esperança. Cada diálogo parece correto, no momento certo, trazendo encerramento pessoal, e amarrando os últimos nós soltos na narrativa. É o caso do sonho de Tawney, que não traz encerramento para os personagens diretamente, mas para o espectador, que passou a temporada privado dos diálogos existencialistas que acontecem quando Daniel e Tawney estão juntos.
Fugindo diretamente de Daniel, a série também busca um senso de encerramento para a família do protagonista. Parece que com o afastamento do personagem, as coisas se tornam mais fáceis. Teddy e Amantha jogam cartas, Ted Sr conversa com o filho de forma direta e sem conter a emoção que um “homem” geralmente contem. Se uma expressão pudesse definir esse episódio, ela seria “vida que segue”. Daniel chegou, balançou as estruturas, destruiu forças emocionais e agora seguiu seu caminho. Não se pode dizer que ele é o culpado pelo emprego “medíocre” de Amantha, ou pelo fracasso do casamento de Teddy e Tawney, ou mesmo pelos conflitos entre Ted Sr e Janet. Em todos os casos, existiam fraquezas, e Daniel só as intensificou. De qualquer forma, agora é a hora dos personagens mudarem o foco de suas preocupações, pois, estão “livres” da “responsabilidade” de precisar servir como apoio para Daniel. O protagonista parece disposto a tentar caminhar com as próprias pernas.
No arco investigativo, as coisas se esclarecem. Talvez Daniel sequer seja culpado. O estupro de Hanna Dean foi cometido por George, Trey e Chris Nelms (personagem introduzido recentemente). A autoria do assassinato fica no ar, porém. Rectify entrega parte do mistério, mas de forma inteligente contém informação que poderia tornar a série menos misteriosa. Ainda assim, mais coisa está por vir. Jon, que pouco apareceu na temporada, e que julgo um personagem excelente, dotado das motivações corretas e escrito com coerência, parece indisposto a ir embora. Por tantas vezes arrumou as malas, mas agora tentará derrubar o império de corrupção do senador, que devido a algum tipo de justiça divina, mal consegue se defender com palavras.
A parte mais comovente do episódio, e mais chega de significado, é o momento em que Daniel se banha nas águas do mar. Nota-se que o mar está longe de ser azul como em algum paraíso. A água significa um batizado. A água representa a purificação do espírito de Daniel, e ao sair dela, está pronto para enfrentar a nova vida. Daniel pede a Janet que se perdoe, pois dentro do possível, lidando com uma situação adversa, sempre deu seu melhor. The Source é também sobre perdão. Esse perdão deve ser direcionado ao próximo, aos familiares, amigos e conhecidos, mas principalmente, é sobre perdoar a si próprio. Só assim é possível tentar atingir algum tipo de felicidade ou plenitude.













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