Disseram-me que o sr. Donovan é discreto e não teme violência”

Não é sem certa dose de ironia que o primeiro plano da terceira temporada de Ray Donovan mostre um padre, já que longe de abençoar alguma coisa o histórico da figura se manifesta sempre corrompido. É então que a imagem desfocada revela ser a visão de um adoecido: eis o necessário – um campo e contracampo – para adentrar no mundo da série. Longe do divino, longe da beleza. Um mundo essencialmente cruel e moribundo. Nada de salvação dessa vez. O acamado é Ezra Goldman (quase irreconhecível) que nos últimos momentos de vida grita por seu protegido. O passado doí quase mais que a própria doença que o consome. O sacerdote é Thomas Romero, que parece estar conduzindo uma investigação sobre o Padre Danny.

Se o final da segunda temporada tratou de colocar Ray na escuridão solitária que seu personagem sempre se destinou a pertencer, grande parte desse episódio ainda compartilha da mesma empreitada. As primeiras cenas o colocam como um rato vasculhando o submundo e tirando a sujeira repugnante dos escombros urbanos (“Tip the country on its side and everything that falls loose lands in L.A”). Todas as imagens são sombrias e escuras. É a parede fria que serve de apoio para o sexo brutal, é o reflexo da janela que serve como espelho – um vulto, mera silhueta negra na cidade luminosa. A notícia da morte de Ezra é mais um golpe. A decaída de Ray avança: é curioso notar como o personagem está particularmente sem rumo e o movimento do episódio evidencia a maneira como a solidão faz parte dele e como o próprio Ray faz questão de se afastar de todos. A cena do cemitério é emblemática. Ray é expulso do mausoléu e sua família corre atrás dele – incomoda como a série retrata a crise familiar e seu impulso de permanecer unida através de seu elo mais doentio e abusivo.  Mas Donavan sai fora do quadro e deixa sua esposa solitária no primeiro plano e seus filhos logo atrás, levemente desfocados. Ao fundo o “HOME OF PEACE”, gravado no concreto da tumba, escancara a certeza de que a paz só será encontrada na hora da morte. Que Ezra descanse então, pois os que vivem não terão o mesmo conforto.

O encontro final de Ray com o Sr. Finney (uma das melhores partes do episódio) é a prova viva desse fato. “In man’s struggle against the world, bet on the world” é o que dizia Kafka, mas nenhum dos dois concorda. Ambos apostam no homem. E apostar no homem nada mais é do que ter a confiança nos instintos, estar em desacordo com os outros e permanecer solitário nessa luta. Não deixa de ser triste o destino dessa empreitada e todas as sequelas que ela deixa para os próximos já que Ray Donovan nunca foi solidária com ninguém.

Em uma série essencialmente sobre relações familiares conflituosas é engraçado como no intento de continuar a operação fundamentalmente sintética de contrapor Ray e Mickey, o ultimo constrói uma relação tortuosamente paterna com uma menina do lugar onde mora (a cena em que alterna um plano da garota, uma camisinha jogada no chão e logo depois uma visita a prisão é bem característico do ambiente em que a criança vive e que Mickey tenta proteger). Depois de falhar tantas vezes com seus filhos, o seu gesto nobre aqui – matar o padrasto (e essa é a nobreza suja que esperamos em Ray Donovan) pode acabar custando sua calmaria.

Família, pais e morte – assuntos que voltam constantemente em Ray Donovan e que parece continuar sendo a tônica dessa temporada. Ray se tornou a imagem do pai que tanto abominava, perdeu seu mentor e se afastou da mulher e dos filhos. Mick vê uma chance de cobrir suas falhas motivado pela aspirante a Shirley Temple e sua encantadora On the Good Ship Lollipop, mas podemos imaginar onde essa história vai dar. O aspecto mais interessante aqui é como a série interlaça inúmeras situações somente para contrabalancear a ótica dessa perspectiva ilusória: uma imagem ideal de um pai presente, protetor e honesto. Pertencente a um senso de família irreal que simplesmente não se encaixa e nunca se encaixará nesse mundo doentio.

PS.1: Achei as cenas do Bunch bem fracas. Funcionam mais pelo seu comportamento extremamente carismático e sem jeito.

PS.2: Abby leva para a casa alguém que finalmente aceitou sua ajuda depois de tantas decepções com as pessoas a sua volta.

PS.3: Torcendo para o próximo episódio focar mais na Paige (Katie Holmes).

PS.4: Que ponto leva uma pessoa a deixar sua filha aos cuidados de Mickey Donovan?

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