O mexer das engrenagens.

O episódio inicia com um plano diante do mar e termina dentro dele. Nesse movimento de retorno, há um esforço de mergulho. O que víamos com distância agora se entrega. O quadro inicial era de uma cristalidade luminosa, o final já é envolto nas sombras que nos é tão familiar. “Vamos deixar as ondas levarem tudo embora”. Pois que levem. A onda que recua nunca é a mesma que investe de volta.

É por entre esses dois planos que o episódio se estabelece. O “recuo” é mais para o preparo da arremetida. E me digam se não é bonito ver um episódio como esse? Se não é prazeroso sentir as engrenagens narrativas se mexendo, as peças no preparo, se delineando para o final derradeiro? “Volcheck” conseguiu estabelecer o território para os dois últimos episódios da temporada de forma dosada, se movendo precisamente, com a consciência de que as coisas acontecem pela lógica do encadeamento, e que tais coisas – algumas boas, outras ruins, outras realmente traumatizantes– apenas adensam a matéria da série, sua fisicalidade, ou seja, seu jeito de enxergar o mundo essencialmente através da ação (virulenta).

Logo, é mesmo uma questão de imoralidade quando vemos Abby ser tão mesquinha a ponto de chantagear o amante que diz amar. A escolha que – mal sabe ela – põe abaixo seu relacionamento que antes sublimava nas intenções românticas de viver uma paixão que não a fazia mal. Eis suas intenções: ou seu amor ou uma morte (embora essa morte seja da sua ameaça, Cookie Brown, essa presença). Maquiada, linda, corrompida e pequena, se vale da ferramenta que tem mãos – Jim – para se agigantar. Veremos no que isso vai dar.

Bem, pra aumentar a dose da sujeira temos Mick. A figura mais nojenta dessa série. Mais descabida, mais interesseira, mais corruptiva. Não é pela necessidade, é algo bem de natureza mesmo. E é engraçado como Ray Donovan lança gestos de simpatia por esse personagem, abre as fronteiras de seu histrionismo para abrigar os trejeitos de Mick. Talvez, por se identificar demasiadamente com ele, talvez por ser demasiadamente ele.  Mick planeja um roubo em uma loja de maconha. Envolve o filho apaixonado – que quer o dinheiro para fugir disso tudo, e o agente de condicional viciado. Pois é, a mortalha que sobrevoa Shorty, que parece estar próximo do fim, paira sobre a cabeça de todos.

Então temos Kate e Cochran. Esses pesos, esses fardos, esses males necessários. Kate retorna (claro, sempre há o retorno das coisas inacabadas, dos corpos mal enterrados) querendo saber a Verdade. Ambiciosa em encontrar as respostas que lhe foram negadas depois de ser enganada. Os caminhos que Kate cruza são perigosos demais e ela nem se dá conta disso. Ou melhor, até agora. Ela usa sua lábia, ela usa seu corpo, ela usa o sexo para atrair Ray. Se vira contra ele ao falar a Verdade do outro que ele tanto se recusa encarar. Encontra a violência. Encontra a falta de ar. Adeus Kate…não agora. Apesar da construção do plano suspender o momento até o suportável, a ferida vence Ray.  Eis a brecha do protagonista, exposta pra quem quiser ver.

Já Cochran, pelas vias contrárias, quer ocultar a Verdade. Ambicioso pelo futuro que tem pela frente, deseja encerrar o passado, ou melhor, substituí-lo por algo melhor. É acuado pela chantagem de Ray, até encontrar a violência. Mas Voltcheck nunca daria um tiro em Cochran. Voltcheck é uma vítima, um peão – e cinicamente, nome do episódio. Ao atirar em si mesmo ele espalha o sangue para dar cor e materialidade para a sujeira.

Ray Donovan é tão literal que precisa de um cara que trabalhe com auto ajuda para auxiliar Ray de alguma forma. Knight é mais que um contraponto, mas esse discurso materializado de uma vindoura superação –  é importante ressaltar a elipse que o episódio cobre ao deixar claro que Ray se abriu para Knight confessando todas as situações que o afligem na noite em que anterior. Ao acordar, Ray entra novamente na sua casca. O protagonista atravessa as tramas, sentindo o peso do que está por vir. Ele pode não saber o que é ainda, mas sente por sua dor, por seus traumas, por suas perdas, por suas distâncias. O que fazer diante da escuridão abrasadora desse mar sofrível, senão mergulhar de corpo e alma nele?

PS.1: A cena de Bridget e Connor pegando um M&M’s são dessas necessárias para cristalizar a relação dos dois e limpar um pouco as coisas da sujeira que estamos habituados.

PS.2: Bunchy dorme no sofá, esperamos o próximo para ver o desenrolar de sua trama.

PS.3: Pra ficar registrado, a ótima música do fim do episódio é I Heard, do Young Fathers.

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