Episódio bom é aquele que tem a cena mais perturbadora da série.
Em menos de 5 minutos, metade dos segredos vieram à tona nesse episódio de Ray Donovan. Só por aí já dá pra ver como a série articula seus assuntos, na confiança de que a sujeira que eles escondem fica melhor sendo exposta mesmo. Assim Ray Donovan afirma, prova, repete e retrata que a perversão que abriga é algo inevitável nesse mundo virulento. A imundice não é algo restrito a celebridades – trabalho de Ray, cada vez com menos destaque. O que é necessário é tão-somente ser humano.
Ray Donovan continua sua recente série de episódios muito bons – coincidentemente (ou não) depois que a jornalista Kate McPherson teve sua trama resolvida – sintetizando o que sabe fazer de melhor: dar a corda aos seus personagens para logo depois enforcá-los.
Se houve uma trama principal nesse episódio foi a tentativa de Ray em possui um material que faça Cochran comer em suas mãos. Como já era levemente traçado nos episódios anteriores, Cochran e sua esposa convidam outro casal “amigo” – porque logo depois descobrimos que é mais uma chantagem com o seu subordinado do FBI – para rodadas de scrabble que se revelam ser nada menos do que swing. O problema é que Volchek não está lá muito satisfeito com a troca, o que acaba por abalar a partida. É a chance do nosso protagonista tirar proveito dessa história.
Pobre Volchek, que ao tentar sair das garras de Cochran, se lança de braços abertos no controle de Ray. Mal sabe ele que em Ray Donovan, quando a merda explode, voa é para todos os lados.
Engraçado notar como o “caso” dessa semana envolvendo uma celebridade – ponto baixo do episódio – serviu mesmo como pretexto para trazer Ashley como um dos destaques da história. A trama do guru foi das mais óbvias e que teve uma das saídas mais fáceis. Deixando a pergunta: um pouco de imaginação nessas horas faria mal ou Ray Donovan já está lotada de complicações em vários pontos de sua narrativa, o que já acaba sendo o suficiente? (Embora, Steve, o personagem de auto-ajuda ambulante tenha lá seu interesse.)
Mick, na sua tentativa desesperada de mostrar que um filho jamais deve mandar no pai, parece começar a cavar sua própria cova dando vazão para aquilo que sempre o traiu: sua boca. Só que agora, Hollywood o abraça novamente ao vislumbrar suas histórias criminosas. Me parece que os seus roteiros terão alta carga autobiográfica e como se trata de um Donovan, qualquer relato do passado é sempre um problema – os segredos novamente que insistem em serem expostos.
Falando em Donovan, Terry vive essa ilusão perene de que fugindo para a Irlanda com Frances os problemas que vivencia irão acabar. Mal sabe ele que pelo menos da academia – o negócio laranja de seu irmão – não vai ser fácil se livrar. Além de se esquecer, tolo que é, do que Frances acha dessa história toda. Decepções em Ray Donovan nunca são demais.
Outro ponto alto do episódio foi o encontro de Bunchy na casa de Patty. Não bastasse tomar o Viagra na hora errada, o personagem provavelmente desempenhou a cena mais perturbadora de Ray Donovan até aqui. A sequência funciona em uma equação fundamentalmente econômica a qual já estabelece de cara o que quer dizer: inicia no plano mostrando o desenho animado (a inocência), corta para uma troca de olhares do casal no sofá com o filho (a família ainda que disfuncional) para logo depois mostrar o menino deitando no colo de Bunchy. Dá-se um close (diabólico) na cabeça do menino encostando no homem que tenta sofridamente esconder sua ereção (ainda que indesejada), para finalizar em um plano que revela o rosto – visivelmente abalado – de Bunchy. Plano arqueológico, quase mediúnico, pois traz com ele o fantasma de abusos passados e a pedofilia que traumatizou toda a vida da vítima. Eis a crueldade dessa série.
PS.: Abby ganhou pouco destaque aqui, mas apareceu radiante com o detetive.
PS.2: Nunca um “Feliz aniversário” pareceu tão amargo.





















