Eu quero voltar a mergulhar no Rio, mas ele agora é só esgoto
Vivemos em um sociedade cada vez mais consumista onde a cultura do descartável ameaça a sustentabilidade e o equilíbrio da nossa convivência no planeta. Falar sobre temas sustentáveis parece cansativo, mas se faz extremamente necessário principalmente quando estamos presos pela fumaça da ignorância, que é letalmente tóxica.
Apesar de a linguagem documental não ser das mais populares, a televisão brasileira tem em seu repertório um histórico de fazer um bom jornalismo. E é exatamente por ousar no formato, que o programa Que Mundo É Esse? produzido pela GloboNews ganha força. A série mistura pitadas de reality, jornalismo-denúncia e documentário gerando um resultado diferente do que estamos acostumados.
O Série Maníacos foi convidado para assistir ao primeiro episódio da nova temporada e conversar com os apresentadores André Fran, Felipe UFO, Michel Coeli e com o diretor-executivo da atração, Rodrigo Cebrian. Os quatro episódios da nova temporada se passam na África e o primeiro deles mostra o maior lixão de eletrônicos do mundo, em Gana, onde grande parte desse tipo de lixo produzido pelos países da Europa é despejado.

O produtor Felipe UFO, contou que, apesar de dar início à produção da temporada com cerca de um mês de antecedência, virando noite muitas vezes para tentar entrar em contato com possíveis personagens e resolver burocracia, várias coisa são resolvidas durante a viagem.
O fato de sermos brasileiros abre portas, porque brasileiro é sempre bem visto em todos os lugares. E também pela nossa informalidade. Como somos uma equipe pequena, com equipamento pequeno, nos misturamos mais facilmente e somos tratados de igual para igual, como curiosos, tentando entender aquela realidade
Existe uma sensibilidade na montagem do episódio que revela a identidade da série. É possível perceber que eles de fato, se emocionaram e se envolveram com o tema. O uso de drones e de novas tecnologias ajudam a contar a história com uma qualidade maior. Segundo o fotógrafo e cinegrafista do grupo Michel Coeli, a cada temporada eles procuram por coisas novas.
Estamos atentos a linguagem da internet, que é muito rápida, cortada e não te deixa pensar muito. Sempre tentamos pensar em novas linguagens, não ter forma, e usamos sempre a sinceridade para contar as nossas histórias. Se a gente gostar, acho que outras pessoas vão curtir também
Difícil é assistir ao programa e não ser tocado pela denúncia feita. É estranho pensar que eu não sabia que parte da África funciona como uma grande lixeira para o mundo. E que pessoas estão morrendo por causa desse crime de omissão. Logo no primeiro episódio, conhecemos Agbogbloshie, em Gana, o maior lixão de eletrônicos do mundo. Quando alguém joga fora um celular ou uma geladeira na Europa, é pra lá que vai. São eles que produzem grande parte das 215 mil toneladas de sucata que compõe o cenário devastador.

Em certo momento do episódio, vemos um rio preto cortando o lixão e escutamos um grupo de catadores de lixo cantando uma canção animada que diz: “Eu quero voltar a mergulhar no Rio, mas ele agora é só esgoto”. A canção é um grito de socorro em forma de arte, esperança em forma de música, uma tentativa de ver a dor e sobreviver a um estilo de vida que foi imposto.
O cheiro é horrível, a fumaça preta toma conta do lugar e a expectativa de vida das pessoas que trabalham informalmente ali não passa dos 30 anos de idade
Denuncia André Fran.
E o mais triste é perceber que esse não é um problema africano, mas um problema que o excesso de consumismo dos países desenvolvidos traz para os africanos, tratando a África como um lixão
Nada é legalizado, os países enviam seu lixo de forma clandestina e ninguém assume nada. Mas o fato é que o lixo continua chegando e o mercado negro que foi criado a partir disso é politicamente mais forte. O que fazer quando ninguém quer assumir a responsabilidade? Apontar caminhos de luta. O episódio é dividido em um momento onde o problema é apresentado e em outro aonde as soluções aparecem. O próprio diretor-executivo do programa Rodrigo Cebrian afirma:
Chegamos ao objetivo de olhar a África de um jeito diferente, que não estamos acostumados a ver. Buscamos ações de africanos resolvendo os seus problemas de uma maneira que é inspiradora para o mundo
É o caso de empresas que juntam reciclagem e sustentabilidade para tentar limpar esses lixões. Mas mesmo tentando mostrar uma outra face da África, mostrando soluções que eles tem arrumado, fica difícil não se emocionar com as situações de dificuldade que eles enfrentam. Mesmo depois de separar o material para reciclagem ainda sobram montanhas de lixo não utilizado e isso continua prejudicando, não só a África, mas também o mundo.
Uma das questões mais importantes do mundo agora é a reciclagem. Consumimos cada vez mais e, se não reciclar, o que vamos fazer com o nosso lixo? Nos últimos cinco anos, quantos celulares você teve? Quantos computadores você teve? Isso tudo vai para algum lugar e aqui é um deles. Infelizmente sem estrutura, em condições sub-humanas
Publicado por Série Maníacos em Sexta, 8 de abril de 2016
O próximo episódio vai contar como a União Africana está construindo uma floresta, conhecida como Grande Muralha Verde, para tentar conter avanço do deserto do Saara. O programa, com direção-executiva de Rodrigo Cebrian e produzida pela BASE#1, vai ao ar hoje, dia 9 de abril, às 21h30 pela GloboNews.



















