Mais uma adaptação literária da CBS que chega prometendo.
Acho que é normal se sentir em perigo na presença de um animal selvagem. Quando isso acontece, instintivamente o corpo se vê carregado de adrenalina e o ato reflexo de “correr ou lutar” passa a ser a única decisão a se tomar. A não ser é claro que estejamos em uma situação controlada. O que poucos sabem é que um encontro com um animal selvagem pode causar a mesma reação no animal. Se por um acaso, durante uma passagem pelo no nosso Pantanal Mato-grossense, por exemplo, vocês conseguirem surpreender uma Onça-pintada e toparem com ela em uma trilha, acredite, o maior predador terrestre das Américas fugirá. É claro que há muitas variáveis a se considerar (a presença de um filhote, por exemplo), mas geralmente, o animal tende ao instinto de fugir.
Inicialmente eu condenei a premissa do show – que os animais podem se coordenar para eliminar a “ameaça” humana – pelo fato de parecer absurda demais. Pensei que colocar animais selvagens na posição de inimigos em uma época em que a discussão pela preservação ambiental é cada vez mais necessária, poderia causar uma reação desagradável. Outro fator que não agradou foi o fato de usarem animais domésticos no trailer. Como falei acima, o medo de animais selvagens pode ser instintivo, já animais domésticos inspiram amor e carinho e é muito fácil vê-los como parte da família (quem tem um pet em casa sabe do que estou falando). Colocar nossos amigos de pelo em posição de adversários não é legal. Porem, depois de ser vencido pela curiosidade, resolvi dar uma chance para a história e ler o livro antes da estreia da série. Aí entendi que os seres humanos são tomados como opressores o que, virtualmente, da um ar de legitima defesa para o comportamento dos bichos. Não terminei o livro e nem tenho a intenção de soltar spoilers aqui, mas até onde pude ler achei interessante acompanhar a perspectiva dos animais de vez enquanto. A estratégia de ver através dos olhos dos bichos deixa claro que existe algo os instigando e, pra mim, foi a grande isca usada para me fisgar com a história. É uma pena que não tenham usado essa estratégia no piloto da série.
Aí é que entra o mistério. A causa de os animais estarem se comportando dessa maneira é o que move o enredo. Na série vimos que o pai de Jackson Oz (James Wolk) é dono de uma teoria que os animais podem se virar contra os humanos no maior estilo dos habitantes de Pandora no filme Avatar de James Cameron. O problema é de onde vem à inteligência para ataques coordenados. Tivemos até a hipótese de ataques em fila indiana com o intuito de eliminar rastros. Isso implica que os leões não queriam ser rastreados e depositaram uma grande perspectiva de futuro ao planejarem essa ação. É necessário pressupor que seriam contados e seguidos para então cogitar a necessidade de andarem em fila para camuflar o número de atacantes. Esse nível de pensamento lógico só é observado na espécie humana e até seria explicável no comportamento animal caso os indivíduos envolvidos tivessem sido treinados para tal ou sendo controlados por algo. Tudo isso serve para criar à incógnita e chega a apontar para a possibilidade de que os animais estejam sendo usados de alguma forma, o que vai de encontro com a teoria apresentada pelo pai do protagonista.
Fiquei animado pelo fato de destacarem que leões machos andando em grupo não é um comportamento comum para a espécie, me pareceu que a etologia real das espécies envolvidas no show será usada para destacar as ações tidas como não naturais no contexto do enredo. Isso é interessante e perigoso ao mesmo tempo, já que a conveniência de roteiro pode se aproveitar para destacar o que acreditar ser importante e ignorar outras particularidades. De qualquer forma o piloto só nos mostrou a ameaça por parte de leões e isso não contribuiu para entendermos a magnitude da proposta da história.
Em paralelo ao que vimos na África, acompanhamos Jamie Campbell (Kristen Connolly) uma repórter de Los Angeles que curti uma bela teoria de conspiração e controla um blog sobre o assunto. Ao invés de se perguntar o que poderia ter causado o desvio de comportamento de dois leões cativos, a repórter prefere pensar que uma empresa de biotecnologia é a responsável. Infelizmente o grupo que controla a distribuidora de carne para o zoológico também é dono do jornal que “a garota com tatuagem de Gênio” trabalha. Ter uma repórter como personagem é uma escolha inteligente já que se pode dar ritmo na trama a partir da investigação feita por ela, eu só não gosto quando tentam atribuir raciocínios para a personagem que buscam direcionar as conclusões do telespectador.
No meio da investigação de Jamie é que conhecemos o veterinário patologista Mitch Morgan (Billy Burke) que procura respostas para o comportamento dos leões do Zoo de Los Angeles e de quebra ainda encontra os gatinhos desaparecidos.
O episódio piloto não conseguiu criar uma atmosfera de tensão e eu senti falta de mortes mais violentas – é eu sei, ficou esquisito, mas é verdade – no livro de James Peterson as descrições dos ataques é particularmente rica em detalhes, com presas entrando em olhos e garras dilacerando membros, o fato de deixarem isso abstrato como na conversa de Chloe (Nora Arnezeder) e Oz no jipe de safari, onde a turista divaga sobre em qual momento se morre enquanto se esta sendo devorado, pode frustrar o telespectador mais exigente, afinal estamos assistindo uma série e não lendo a obra escrita. Entendo que existe uma política de orçamento, horário de exibição, canal e público alvo a ser respeitada, porém ataques de animais selvagens tendem a ser violentos, então…
Zoo não trouxe nada de excepcional, mas pode cativar pelo mistério em si. O ritmo é parecido com Under the Dome (também da CBS) e apesar de tentar embasar o acontecimento a partir do diálogo dos personagens é possível notar algumas incoerências no comportamento deles – quem que acaba de perder o melhor amigo e é perseguido por leões assassinos, se importa em fazer café? – e isso quebra a tensão às vezes.
Não continuarei com as reviews da série. Como Biólogo sou muito exigente (leia chato) para tratar do assunto e não quero estragar a diversão de ninguém. Desejo boa sorte para quem assumir a cobertura do show e uma boa diversão para quem acompanhar. A boa notícia é que o próprio James Peterson acredita que a série será melhor que o livro, então para quem quiser arriscar, fica a dica.
Ps1: O comportamento demonstrado no final do episódio, com o Leão levando o Abraham (Nonso Anozie) para cima da arvore é típico de Leopardos e não de leões. O rei da selva caça em conjunto e divide a presa com o grupo.
Ps2: Ficou confuso se o líder do grupo que atacou os personagens deixou o Sr. Kenyatta vivo de propósito ou não. Se for de propósito eu gostaria de saber como o leão conseguiu deixa-lo inconsciente sem o matar.














