O Paquistão passa por sérios problemas diplomáticos com os Estados Unidos. O presidente de seu país faz acusações quanto ao uso de drones americanos em seu espaço aéreo, que desafiam a soberania do Estado. Não fosse a desconfiança de que existe um plano por trás de tudo isso para acabar com masculinidade da população paquistanesa, estaríamos falando da mais recente temporada de Homeland.

Em seu episódio piloto, The Brink (HBO, 2015) começa com deboche e referência explícita à série protagonizada por Claire Danes, mas também com um texto ousado e de forte crítica à política americana em algumas de suas frentes.

Se o texto dos criadores Kim e Roberto Benabib tem a dinâmica necessária para uma atração de pouco mais de 30 minutos, fica a dúvida se a HBO vai sustentar um show que brinca de não se levar a sério com uma temática bastante definida e com piadas onde o politicamente correto está de férias.

Assumindo um papel burocrático no consulado do Paquistão, na capital Islamabad, Jack Black é Alex Talbot, um funcionário que entendiado com sua função vive perigosamente entre os pilares das drogas e da pornografia, esquecido e sem importância aparente, ele vive a expectativa de ser reconhecido por seus “favores” pelo secretário de Estado americano Walter Larson, vivido pelo excelente Tim Robbins, um político irresponsável (!) e que alimenta seus prazeres sexuais através de um olhar rigoroso e sacana, usando sua secretária Kendra Peterson, como uma espécie de para-raios e que aceita suas esdrúxulas solicitações, mesmo em meio a decisões importantes, como atacar ou não o Paquistão. Completando o elenco principal, temos o bom ator Pablo Schreiber (reconhecido por seu trabalho em “Orange Is The New Black”), um piloto da força aérea americana, que entre outras responsabilidades, leva ‘bolinhas’ para o interior do seu porta-aviões para manter seus amigos acordados. Um traficante de luxo.

Mesmo que o elenco esteja afiado em suas tarefas, Black é o que não consegue se livrar das caretas e trejeitos para os personagens que escolhe encarnar. Não compromete neste primeiro instante, mas parece que o ator americano está interpretando ele mesmo durante todo o episódio. Aliás, este é um mal de atores que vivem no universo do humor e que depois possuem alguma dificuldade para se desvencilhar dos vícios interpretativos. Ainda não atrapalhou, mas se for para ver o Jack Black de “Escola de Rock”, eu prefiro os filmes.

Tim Robbins, que é mais sofisticado e cascudo, é afiado com seu jeito mezzo canastrão de fazer um político de valores escrachadamente discutíveis. A ironia é mais sutil e sem os exageros que Jack Black imprime em cada careta. Já Schreiber é bom de cena e não deixa a peteca cair. Transita bem quando é exigido fugir da comédia rasteira e das armadilhas de trazer seu último personagem para o público reconhecê-lo. De todos os (personagens) apresentados, me parece que é o que tem a tarefa mais difícil: convencer no papel de um piloto mal pago pelas Forças Armadas americanas e que precisa do seu “segundo emprego” para manter as contas em dia.

O desafio de abordar  temas tão sensíveis à rotina da humanidade e talvez, um pouco de covardia, de mexer novamente com o povo paquistânes (mais pacatos do que iranianos e palestinos, por exemplo), pode gerar resultados negativos à produção e continuidade de “The Brink”. Se a intenção era fazer uma referência à presunção textual de Homeland e de outras séries do tipo, a criação de um país fictício faria com que o objetivo tivesse o mesmo efeito.

Permitam-me a ousadia de agourar essa reunião de craques. “The Brink” deve flopar por escolher um cenário complicado com um texto de “Comunnity”. Entendedores entenderão. Nada contra a boa ideia, mas mesmo com alguma riqueza de detalhes e boa direção, não sei se o público estadunidense vai comprar a ideia de brincar com a temática. Ainda é cedo para prognósticos, tanto para o bem como para o mal, mas a aposta está feita.

“The Brink” tem um humor repleto de referências ao que existe de melhor em roteiros mais pomposos e menos explícitos. A torcida é que a HBO banque a ousadia e não considere os números como fiel da balança para continuidade do projeto. Será?

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