O legado de Sidney Prescott foi honrado?
Nos anos 90 os filmes com assassinos seriais não eram dos mais abraçados pelos investimentos cinematográficos. Para Hollywood, assassinos com máscaras que andavam atrás de suas vítimas enquanto elas corriam gritando, eram uma coisa que tinha dado muito certo dez anos antes, com Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo e Halloween encabeçando as vendas. Por isso, muito relutantemente, um roteirista desconhecido chamado Kevin Williamson ganhou a chance de levar aos cinemas não mais uma história sobre gritos e facadas, mas uma história sobre como se faz esse tipo de história. Nunca tive dúvida alguma de que todo o sucesso de Scream (ou Pânico, como se chamou no Brasil) se deu porque ela se apoiava de modo genial na metalinguagem.
Na trama do filme, Sidney Prescott começava a ser perseguida e ter seus amigos mortos por um mascarado esfaqueador. À volta dela, borbulhavam todos os tipos possíveis de estereótipos juvenis americanos, de modo proposital, sobretudo porque aquela era uma trama sobre um espelho cultural. Enquanto as pessoas eram mortas, o texto do roteiro traçava analogias sobre como os filmes acabavam determinando as regras dos assassinatos. Assim, Scream acontecia apoiado nos seus antecessores, só que abertamente, demonstrando que o assassino misterioso estava matando estereótipos lançando mão deles. O resultado pegou a critica de surpresa e reacendeu o interesse do espectador por esse tipo de produto. Scream se tornou uma franquia muito respeitada.
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Essa semana a MTV nos trouxe a série de TV baseada nesses argumentos e embora os nomes de Williamson e Wes Craven apareçam nos créditos, a grande pergunta era se uma série poderia conseguir segurar a atmosfera dos filmes. A resposta veio logo no primeiro bloco, no melhor estilo Scream de ser, com o nerd da história nos dizendo que o horror faz parte da nossa cultura como nunca fez (o professor cita American Horror Story, The Walking Dead, Hannibal), mas que fazer uma série de TV nos moldes dos filmes de assassinos dos anos 80 seria impossível, porque uma série precisa esticar as coisas. Nesse momento, a MTV marca seu primeiro grande ponto, porque esse tipo de diálogo metalinguístico é importantíssimo para manter viva a genialidade e sagacidade do argumento original.
Com a primeira morte acontecendo (numa boa sequência que remete ao clássico), o episódio piloto já se apressa a estabelecer os mesmos estereótipos de sempre. A adaptação marca mais um ponto, porque essa delimitação de estereótipos é feita de maneira alegórica. Ela representa um espelho real da juventude americana, mas é superficial propositalmente, para que isso invoque o espírito dos antigos modelos. O personagem nerd, por exemplo, não se priva de descrever os colegas com os rótulos que eles defendem, concluindo que pra que dê certo o público precisa se importar com eles, para que quando sejam brutalmente assassinados, doa. Assim, a série esclarece que sim, é possível fazer uma série de TV usando o gênero, desde que fique estabelecido que o “esticamento” do tempo é inevitável e dedicado aos detalhes acerca de cada personagem.
Se importar com o nerd Noah ou a lésbica relutante Audrey não vai ser tão difícil. O problema dessa estreia foi muito mais a protagonista Emma, que está longe, muito longe de soar transgressora como a que fora vivida por Neve Campbell no cinema. Sidney era sombria, desconfiada e dava muito trabalho para o assassino, com embates diretos que a tornaram diferente de todas as “mocinhas” do gênero. Emma me pareceu extremamente apática, o que é perigoso, já que a mitologia criada para segurar a trama se apoia nela da mesma forma que aconteceu no cinema.
No passado, a mãe de Emma virou objeto da obsessão de um garoto deformado que acabou humilhado pelos amigos da amada. Para se vingar, ele começou a matar um por um, até que foi morto numa emboscada que a usou como isca. O corpo dele caiu num lago e desde então tornou-se uma espécie de lenda regional bem típica dessas cidadezinhas. Durante o episódio, o roteiro insinua ligações sobrenaturais que considero desnecessárias, até que me provem que elas são, de alguma forma, reflexos do plano maior do assassino. Scream sempre foi sobre cultura pop, controle de mídia e tecnologia… Ela não precisa de elementos fantásticos.
Por fim, podemos dizer que na sua proposta de honrar a atmosfera dos filmes, Scream foi bem-sucedida na sua estreia. O elenco não é bom, mas um bom texto pode salvar a série da irrelevância. Citações, referências e sagacidade sempre foram a marca da franquia e nesse piloto elas apareceram bem. Enquanto a série tirar partido da própria dúvida, ela se sairá bem. Enquanto se constrói, o programa precisa continuar se perguntando – e nos perguntando – se o gênero sobrevive a uma adaptação como essa. Scream sempre foi tomada de autoanálise debochada, mesmo que estivesse matando gente e perseguindo pessoas. Isso a fez genial. O lema era matar a sério sem se levar a sério… É uma fórmula sobre uma fórmula. Dá pra errar, mas não é uma receita difícil de seguir.
Stab One: A máscara do Ghostface se tornou um ícone e justamente por isso, os produtores resolveram não a usar, já que a história é completamente independente. O próprio Wes Craven aprovou a nova versão, que mantém a ideia geral, mas de uma forma mais sutil.
Stab Two: A deliciosa conversa do assassino pelo telefone com as vítimas só apareceu no final. Mas, espero que possamos ver mais dessa audácia.
Stab Three: Pra quem não sabe, Kevin Williamson é o criador da série Dawson’s Creek e showrunner durante muito tempo de The Vampire Diaries. Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado também é dele. O primeiro Scream tinha um elenco de grandes nomes das séries de TV de sucesso da época, como Courtney Cox de Friends e Neve Campbell de Party of Five. Atualmente Kevin é o nome por trás de The Following e Stalker. Já o diretor Wes Craven é especialista no gênero e ficou conhecido depois de dirigir The Hills Have Eyes e A Hora do Pesadelo.
Stab Four: Sou um defensor e apaixonado da franquia Pânico e posso dizer que essa estreia aqueceu meu coração. Torço pra ser bom daqui pra frente. E recomendo de verdade que o primeiro filme da franquia seja visto por TODOS que ainda não viram. É uma pequena obra-prima da cultura pop e merece todo nosso respeito.














