Para todos aqueles que levam uma vida monótona, na esperança de que possam viver em segunda mão os prazeres e perigos da aventura”

– Agatha Christie

Curiosamente, Agatha iniciou a carreira literária com Tommy e Tuppence. Com os três episódios dessa minissérie comemorativa sendo baseado em seu segundo romance publicado, foi muito adequado escolherem Tommy e Tuppence e apresentar mais dois personagens fascinantes da escritora maravilhosa que Ms. Christie foi. O fato de seu último romance escrito também ter sido protagonizada pelos dois detetives amadores reforça bastante a escolha deles como tributo por seus 125 anos.

You’re being very nosey today, Tuppence”

– Tommy

Primeiramente, uma adaptação nunca vai ser a exata cópia da obra e o roteirista tem o total direito de fazer modificações. No entanto, muitos tolos mudam coisas desnecessárias nas grandes obras literárias da Agatha e nunca dá certo; vide os episódios de “Poirot” que se aventuraram nesse caminho. Em Partners in Crime subjugaram o leitor e telespectador como públicos totalmente diferentes, um erro que causa incômodo em muitas pessoas. Diferentemente de outras adaptações, essa tinha que ser mais fiel por ser uma comemoração à vida da rainha do crime.

Iniciando sem o prólogo de “Secret Adversary” o telespectador perde o contexto da estória e parceria de Tommy e Prudence, dois veteranos de guerra; obviamente ela era voluntária em um hospital e Tommy um militar, muito competente por sinal (ao contrário do que insinuam sobre seus ferimentos na série). Talvez a escolha tenha sido para agilizar a ação da trama e prender o maior número possível de pessoas, mas as cenas foram um tanto aleatórias e deixaram a personalidade de Tuppence mais como a de Ms. Jane Marple do que qualquer outra coisa. O assassinato no vagão restaurante e a não divulgação do fato foi um ponto interessante e a curiosidade de Tuppence pode fazer o plot funcionar ao longo dos três episódios adaptados da obra.

Avançar a cronologia do casal foi estúpido, talvez a escolha de um ator mais velho como David tenha forçado o roteiro a isso, ou não. Tommy e Tuppence constroem seu amor nesse exato caso, acabaram de se reencontrar e eram amigos de infância. Após voltar da guerra obviamente Tommy não teria um emprego, aqui apenas pareceu que ele era um tipo preguiçoso e imaginativo, coisa que Tommy era descrito como sem; esse ponto chave sobre a imaginação deveria ser muito explícito no personagem e trocar essa característica pelo exato contrário foi ridículo.

Em Londres a personalidade de Tuppence começa a aparecer mais e agora sim algo começa a encaminhar bem na série. A atrevida, corajosa e muito inteligente detetive amadora começa a investigar, o mais instigante é ela ter ido sozinha e sem medo do perigo; coisa que a maioria das personagens femininas da época não faziam. Na casa de apostas a cena com o possível “empregador” foi intensa, a primeira que realmente empolgou. A mudança repentina dos negócios do bookie foi mais do que a faísca que Tuppence queria para acender o interesse de Tommy quanto ao mistério e a aventura dos dois começa a fluir mais naturalmente.

O envolvimento do tio de Tommy, Major Carter, consegue tornar o enredo mais envolvente; a ideia de colocar Tuppence e Tommy em um jantar com Carter para “extrair” informação foi excelente. A conexão do departamento do major e Tommy e Tuppence poderia ser absurda, mas ficou brilhante pelo simples fato de nada parecer por acaso – exceto, claro, Jane Finn colocando a gravação nas mãos dos Beresford – ou deslocado. Aprofundando-os na aventura, o ritmo começou a melhorar e as pistas mesmo que ainda discretas foram bem desenvolvidas e no timing correto.

A entrevista com o tio de Jane foi interessante, o mais legal foi ver a perspectiva totalmente diferente de Tommy e Tuppence sobre ele; os dois se complementam, mas também é importante mostrar que são dois indivíduos muito diversos. O próximo encontro não sendo exatamente isso foi muito bem, a introdução do amigo de Tommy foi divertida e propícia ao twist das fotos. A missão undercover da Tuppence foi ótima e engraçada, uma das minhas artimanhas preferidas é quando o personagem se disfarça e aqui não foi diferente. Enquanto Tommy seguindo o suspeito foi um ótimo paralelo para demonstrar como é o team work dos jovens aventureiros (mesmo não muito jovens na série).

A secret assassin. A missing girl. A communist plot! Don’t you think we were born for this kind of thing?”

– Tuppence

Embora não tendo começado de maneira acurada, Partners in Crime conseguiu manter a atmosfera contagiante, leve e que captura o que Agatha Christie tinha como intenção ao criar Tommy e Tuppence Beresford. As modificações não eram necessárias e não surpreenderam, porém no sentido de entreter a série desempenhou um bom papel em seu primeiro episódio. A expectativa para os próximos dois capítulos abordando esse mistério foi criada e, por enquanto Partners in Crime vale o tempo.

Young Adventurers Ltd. 1: Sobre o nome “Jane Finn”, Ms. Christie escolheu esse nome porque não era nada comum, ela construiu essa trama quando ouviu um nome parecido (Jane Fish) em uma casa de chá e achou interessante e impactante.

Young Adventurers Ltd2: por ser uma minissérie poderiam usar dois atores mais novos nesse primeiro caso e os protagonistas escolhidos na próxima adaptação. Faria muito mais sentido isso do que deslocar a estória toda pra encaixar os atores.

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