Quando uma das piores temporadas da história da TV no reserva uma ótima surpresa logo em um de suas últimas estreias.

Lembro que já na época dos upfronts achei a proposta de Mixology ousada e já imaginava, desde aquele momento, que em razão da proposta pouco comum da série – de ter toda sua temporada contada em apenas uma noite, em um único ambiente – ela seria um sucesso ou um desastre. O fato de ser uma comédia com a equipe criativa encabeçada pelos mesmos roteiristas de Se Beber Não Case (The Hangover, 2009), intensificava ainda mais essa impressão de “ou sucesso ou desastre”…

Mas daí a ABC liberou sua grade e jogou a série para a midseason o que já deixava claro que sua possibilidade de ser um desastre era bem maior do que a de ser um sucesso. É claro neste meio televisivo que, raras exceções, a midseason é uma época de séries tapa-buracos e que têm pouca confiança de seus respectivos canais. E se nem a ABC acreditava na série, o flop era semi garantido.

Os meses se passaram e posso dizer com toda certeza que já não aguardava tanto pela série. Para ser honesto não aguardava absolutamente e já havia até me esquecido de Mixology, até a semana passada, quando vazaram os dois primeiros episódios da série. E assim, sem qualquer expectativa, os assisti. E adorei o que vi.

A verdade é que vivemos uma época triste para a televisão, que nos apresenta, ano após ano, projetos fracos, pouco ousados, remakes e spin-offs. A falta de qualidade da televisão americana é tão grande que vemos novas plataformas como Netflix e Amazon nos oferecendo produtos de qualidade e, de maneira desesperada, os canais contra-atacando trazendo de volta séries antigas em decisões altamente duvidosas (Sim, NBC, estou falando de você!). E neste meio onde o novo e o criativo foi suprimido em razão do genérico – mas rentável – ver qualquer sombra de originalidade já nos impressiona bastante. E essa é a razão do efeito positivo que essa estreia de Mixology causou em mim, esse ar de originalidade – mesmo que bem simples – que essa estreia nos trouxe.

A proposta de Mixology é sim, na prática, tão bizarra quanto nos pareceu quando foi anunciada. Mas o fato de conter um bom roteiro e uma direção segura, faz com que essa bizarrice inicial suma rapidamente e toda aquela situação nos torna estranhamente agradável. Mesmo que não seja algo único ou marcante, o piloto da série é tão bem conduzido que nos faz ao menos nos importar com aqueles dez estranhos e suas histórias… Honestamente? Pouquíssimas séries nos últimos três anos conseguiram conquistar minha simpatia apenas no piloto.

Mixology tem uma das propostas mais simples que já vi na vida: mostrar, no decorrer de toda sua temporada, os acontecimentos que ocorrem um uma noite, em um bar, com dez estranhos que vão interagindo entre si em busca de um amor, um caso, uma noite de sexo… É simples, é humano, é real. Mas é perigoso… Com uma premissa tão simples é necessário um combo de “bons personagens + bom texto” para conseguir agradar o público.

E a razão de eu ter gostado tanto de Mixology já de cara foi que eu consegui visualizar esse combo em ação. O episódio piloto, “Tom & Maya”, reúne aqueles que são os dois personagens mais destoantes da série por se aproximarem de clichês completamente opostos: o homem que é quase uma moça, pela total ausência de masculinidade e até mesmo auto-estima, e a mulher masculinizada, que destrói todos os seus relacionamento exatamente por assumir “o papel do homem”. São duas subversões da sociedade em forma de clichê. São figuras carimbadas em comédias românticas e congêneres… Mas são absurdamente carismáticos. E o texto de Tom (Blake Lee) e Maya (Ginger Gonzaga) funciona de maneira tão orgânica, que antes do final do episódio nos vemos torcendo pelo “casal”.

Vale destacar que, apesar do bom trabalho de Blake e Ginger, que assumem seus personagens com grande força, o maior responsável pelo sucesso do casal Tom e Maya neste piloto é exatamente o texto. Achei o roteiro da série absurdamente natural e, mesmo que traga situações irreais – como o relacionamento de Maya e Keyshawn Johnson – e personagens clichês, é desenvolvido de maneira tão simples, tão orgânica, que compramos tudo o que o episódio nos apresenta. Aliás, essa organicidade também se estende à direção que, mesmo caminhando pelos variados núcleos e apresentando alguns flashbacks dos personagens centrais, ainda assim é MUITO competente em estabelecer aquele ambiente.

O que isso tudo quer dizer, Thiago? Quer dizer que a razão para essa boa estreia de Mixology é que, apesar das situações e das caricaturas, a série é capaz de estabelecer – através de seu roteiro e de sua direção – com maestria aquele ambiente por ela proposto: uma noite no bar. E assim, aquele fator que era o seu grande diferencial, que era a “bizarrice” em sua proposta, se torna sua maior arma. Ao conseguir estabelecer aquela noite perante o público, ela consegue atrair sua atenção e fazer com que ele se importe com aqueles personagens, pois eles estão vivendo exatamente aquilo que vivemos aqui fora.

Logo, não estamos mais nos preocupando com o nível de clichê dos personagens, mas sim se colocando no lugar de Tom, pois todo mundo já levou um pé na bunda antes e/ou já foi atrás de uma mulher que era claramente “muita areia pro seu caminhãozinho”. E assim, quando ele consegue aquele telefone escrito num guardanapo é como se nós mesmos tivéssemos conseguido. Da mesma forma, sei que um monte de mulheres puderam se ver através de Maya, de sua aparente dureza e “masculinidade”, mas que, no fundo, só espera a ingenuidade boba de algum Tom pra trata-la com a delicadeza que ela merece.

Da mesma forma, todo mundo já foi em um encontro com um cara/mulher que conheceu na internet, ou foi afogar as mágoas de um término de relacionamento em uma noitada no bar e, igualmente, todo mundo já levou um amigo que acabou de terminar a uma noitada para tentar levantar sua moral. Todo mundo já encheu a cara para esquecer um problema, como Ron (Adam Campbell) fez e certamente, todo mundo já saiu apenas para tomar uma cerveja com um(a) amigo(a) e acabou encontrando muito mais do que imaginava… Quem sabe até um amor?

É clichê? Sim. Mas a vida é clichê. E principalmente para mim, no alto dos meus 20 e poucos, o bar (pub/balada/whatever) é um lugar cheio de significado para mim. Muitos dos meus bons e maus momentos começaram e/ou terminaram neste lugar. E o fato de conseguir reproduzir esse ambiente com perfeição e, mais do que isso, de colocar nele dez personagens completamente opostos e clichês e de transportar para estas figuras um monte de sentimentos e frustrações que nós mesmos vivemos aqui fora, é a principal razão deste piloto ter mexido tanto comigo… Mixology é absurdamente real para mim.

Com isso estou dizendo que Mixology é uma maravilha e que vai inovar a televisão e ganhar milhares de Emmys e Golden Globes? Absolutamente não. Só estou falando que foi uma série que fez uma estreia bem consistente, baseada em sua premissa. E que, a partir dessa própria premissa e de seus personagens, conseguiu criar uma forte conexão comigo rapidamente. Pra esse tempo de pouca criatividade na TV, criar uma conexão tão rapidamente é motivo mais do que suficiente para incluí-la na minha watchlist.

E já afirmo que o segundo episódio, “Liv & Ron”, é igualmente bem feito e, novamente o roteiro e a direção continuam sendo o grande carro-chefe, mostrando um ritmo condizente com o ambiente em que o “casal” se encontra. Não vou me aprofundar muito sobre esse episódio em questão por se tratar de um “Primeiras Impressões”, mas já adianto que Liv (Kate Simses) e Ron (Adam Campbell) são dois personagens tão cativantes quanto foram Tom e Maya no piloto. E que também exercem muito bem o papel de “espelho” para o público, mostrando muito do que nós mesmos fazemos e sentimos ao conhecer alguém em uma noitada.

Na verdade, ambos os episódios são bem parecidos em suas estruturas e apresentam personagens realmente carismáticos. Se me perguntassem uma nota, daria 8 para ambos, pois realmente achei que ficaram em um mesmo patamar. E por mim, se a série for manter esse mesmo nível e estrutura até o final, assistirei toda a temporada feliz.

Mixology é uma criação da dupla Jon Lucas e Scott Moore, responsáveis pelo roteiro e construção dos personagens da trilogia Se Beber Não Case (The Hangover) e tem uma encomenda inicial de 13 episódios para sua primeira temporada, com estreia oficial prevista para 26 de Fevereiro. A série tem a estranha proposta de abordar durante esses 13 episódios os acontecimentos e os encontros amorosos de dez estranhos. Tudo isso em apenas uma noite. Seu elenco é encabeçado por Adan Canto (The Following), Vanessa Lengies (Glee), Blake Lee (Parks & Recreation) e Adam Campbell (Harper’s Island). A direção do episódio piloto ficou a cargo de Larry Charles.

P.S.: Tenho pouca prática em fazer reviews de comédia, mas achei Mixology algo tão interessante e genuinamente realista que fiz questão de fazer pelos menos esse “Primeiras Impressões”. Vi algumas pessoas criticando a série no twitter e, mesmo respeitando essas opiniões, achei que valeria a pena fazer pelo menos esse texto para mostrar que eu faço parte do público para quem foi feito essa série e quem sabe encontrar mais alguém que também faça parte desse grupo.

P.S. 2: Mesmo ficando aqui no Primeiras Impressões, voltarei sempre que possível pra acompanhar as reviews – quem quer que as assuma – e deixo o meu twitter aberto pra quem quiser comentar os episódios comigo.

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