O choque entre a moralidade e o subversivo. 

Magnífica 70 é uma produção mais que necessária, especialmente nos dias de hoje. Mesmo quando temos produções tão contundentes no que diz respeito ao período do regime militar no Brasil, como O que é isso, companheiro?  e Batismo de Sangue, é possível ver que, quanto mais nos distanciamos desse período, mais a memória coletiva se apaga, sobrando apenas os resquícios que curiosamente não condenam esse momento trágico de nossa História como deveriam.

A série, produção da HBO Latin America, coloca seu foco sobre o Censura Federal, que operava a toda no Brasil do ano de 1973, sob a égide do então presidente Médici. Também damos um mergulho fundo na Boca do Lixo, que se localiza no bairro da Luz na cidade de São Paulo, que se tornou polo cinematográfico em vários momentos de nossa História, inclusive na década de 1970. Ambos os universos são bem delimitados como completamente opostos nesse episódio piloto, deixando bem claro que o constante choque entre esses dois mundos será um dos motores da história de Magnífica 70.

No início do episódio, somos apresentados a Vicente (Marcos Winter), que trabalha no departamento de censura e cuja vida e trabalho se cruzam e podem ser definidos pela palavra repressão. Ele usa sua máquina de escrever para censurar e vetar todos os resquícios subversivos (o que ele imagine que possuam tal natureza) e é possível perceber que sua vida possui o mesmo ritmo mecânico que o instrumento de seu trabalho. Como se não bastasse, Vicente ainda tem como sogro o general Souto (Paulo César Pereio), que não só cobra do genro um neto como foi aquele a arrumar emprego no departamento. Fato que certamente ganhará muito destaque num futuro, caso o militar acabe por descobrir os encantamentos de Vicente pela Boca do Lixo.

O mundo da Boca do Lixo vira a regular rotina de Vicente de cabeça para baixo através do filme A devassa da estudante, produzido pela Magnífica Cinematográfica, que dá o título para a série. A visão de Dora dispara memórias perturbadoras na cabeça do censor, memórias essas ligadas a uma relação desconfortável (e provavelmente de natureza pedófila) com sua cunhada, que faleceu há cinco anos por circunstâncias desconhecidas. Há possíveis agravantes ainda mais incômodos sobre essa morte, especialmente no que diz respeito ao conhecimento que Isabel tinha sobre a relação. Algo que certamente será mais explorado no decorrer dos episódios.

Também há de se ver o desenrolar da história periférica de Dora, ou Vera, e seu irmão que acabou de sair da cadeia. Meus olhos estão postados especialmente sobre a atriz, vivida por Simone Spoladore, e suas duas faces e identidades. No momento ela se encontra na posição de musa de Vicente, mas o episódio deu mostras de que ela tenha uma storyline própria (e esperamos que assim o seja, e que ela não se limite a ser apenas a compor o triângulo com Vicente e Manolo).

Aliás, quem sobrou foi Manolo e seu passado. Não consegui me interessar por seus problemas de impotência sexual, explicados no extenso e cansativo flashback de sua chegada à Boca do Lixo. Verdade seja dita, até agora ele só serviu como um dos elos para que Vicente tomasse as rédeas da direção (e gosto por ela). Por enquanto ele pode ficar por aí.

Já a entrada de Vicente no universo da Boca do Lixo e a possível descoberta de uma paixão por dirigir seus filmes subversivos foi o arremate perfeito a um episódio que ambientou muito bem o que pretende mostrar daqui para frente. A oposição e a complementaridade dos dois mundos; o moral e devasso; o reprimido e o subversivo, criando uma cena ímpar e que fez com que os olhos de Vicente brilhassem diante do que via. Entre a rotina mecânica e a perturbação de seus próprios demônios, foi a primeira vez que o censor se encontrou completamente à vontade com alguma coisa, que é justamente a perfeita mistura dos dois lados dessa moeda.

Magnífica 70 começou com pé direito, satisfazendo muito em sua ambientação e apresentação, tanto do contexto histórico do período em que se encontra como na apresentação da mistura de suas tramas dos universos que pretende colocar em choque e simbiose. Mesmo com algumas sobras, certamente animou e deixou um claro enfoque um dos períodos mais trágicos de nossa História, mas permitindo que nossos olhos brilhassem da mesma forma que os de Vicente na sequência da filmagem.

Relatório final: 

– Abertura fantástica com a música Sangue Latino de Ney Matogrosso. Espero muitas outras canções marcantes de nosso cancioneiro nacional;

– O episódio abre com a imagem de Emílio Garrastazu Médici, 28º presidente do Brasil e o 3º presidente da ditadura militar. Médici alinhava-se à chamada “linha dura” e seu mandato (30/10/1969 a 15/3/1974) foi o mais repressivo do período militar (chamado de “Anos de Chumbo”). A censura de todo material artístico, tal qual vimos nesse episódio, é apenas a ponta do iceberg de uma política de exílios, torturas, mortes e desaparecimentos de combatentes dos movimentos sociais e daqueles que eram opostos ao regime;

– Também é importante lembrar que, como base para todas essas medidas, usava-se o Ato Institucional nº 5 (ou AI-5), decretado no governo Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968 e que, entre suas determinações, aumentava os poderes do Poder Executivo, permitia intervenção nos Estados e a suspensão sem limites dos direitos políticos dos cidadãos;

– O primeiro filme assistido por Vicente realmente existe: trata-se de O Mulherengo. Minhas pesquisas colocaram sua data sendo em 1976, o que provavelmente sinaliza que o filme teve o lançamento adiado por causa de seu conteúdo, que certamente deixou a censura de cabelos em pé;

– Entre os motivos para o veto de A devassa da estudante, Vicente colocou que a escola era uma metáfora para um quartel, sendo uma crítica ao regime. Essas interpretações livres dos censores eram muito comuns nesse período;

– Interessante a inserção das tramas de corrupção, lavagem de dinheiro e caixa dois na administração da Magnífica, quando hoje ouvimos tanto que naquela época não existia esse tipo de coisa;

– Manolo aluga a equipe de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Muito boa a menção ao ícone do cinema marginal brasileiro que, além de ter construído uma das imagens mais marcantes no terror nacional, ainda filmou outros gêneros como faroeste, drama, aventura e pornochanchada.

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