O Primeiro dos Caídos tem um Britânico Senso de Humor.

Um belo dia o diabo se cansa das trevas, expulsa todos os condenados e fecha as portas do inferno. Promove uma disputa para escolher um novo “presidente” da corporação infernal e se manda para Los Angeles, onde inaugura uma boate de Jazz & Blues chamada Lux, acompanhado de sua diabólica fã Lilim Mazikeen. Deus aproveita desse ato de insubordinação e envia o anjo Amenadiel para resolver um de seus problemas mais perseverantes – os deuses antigos sem nome. Caso Lucifer eliminasse esses problemas, ele teria uma Carta Divina que o permitira continuar sua nova vida sem outras intervenções. Bem sucedido nesta empreitada, o Primeiro dos Caídos passa a manter uma rotina de conversas filosóficas, regados a muito álcool e drogas, com o objetivo recorrente de abalar a fé dos seres humanos em Deus.

Não! Esta não é a sinopse do piloto da nova série da Fox, mas sim da brilhante HQ que Mike Carey fez para a Vertigo do final dos anos 90 até meados dos anos 2000. A série simplesmente se apropria de alguns personagens e conceitos, assim como a CW já havia feito com a bem sucedida iZombie (cobertura completa da primeira temporada aqui) e com a injustiçada Constantine, da NBC (todas as reviews e notícias aqui). Portanto, a primeira dica para se gostar de Lucifer: esqueça completamente que é uma adaptação das histórias da Vertigo!

A série aproxima-se, na verdade, muito mais de uma paródia das histórias originais, pois nos apresenta um Tio Lu sarcástico, brincalhão e, quem diria, apaixonado e preocupado pelos mortais, os quais, um dia, só teve interesse em assinar um contrato para comprar-lhes suas almas. Tom Ellis, conhecido (ou não) como o protagonista de Rush, está bastante à vontade no papel do capiroto e o seu sotaque inglês conquista boa parte dos espectadores (além de outros atributos que eu me sinto incapaz de avaliar). O senso de humor exagerado e, por vezes, caricato, foi bem vindo para o piloto, mas esteve no limiar entre o debochado e o infantilóide, por isso, é preocupante o tanto que esta fórmula vai funcionar.

Lucifer é o segundo personagem mais poderoso da DC Comics, perdendo somente para o seu pai e criador, Yahweh, e as suas atitudes demonstram claramente isso. Ele não se esforça em nenhum momento para esconder a sua identidade e este foi o aspecto mais interessante e divertido do piloto. O conceito de que a verdade é tão estranha que só pode ser mentira foi muito bem aplicado, sendo assim, ele utiliza seus poderes de revelação de desejos sórdidos à vontade e pode falar para todos livremente: “Eu sou imortal”, “Eu sou o demônio”, “Balas não podem me matar”.

Lilim Mazikeen e Amenadiel também estão presentes na trama e tiveram as adaptações mais fiéis deste piloto. A diabinha, que é completamente apaixonada por Lucifer, trabalha no Lux, que não toca Jazz & Blues, mas sim música eletrônica de balada e vai servir como “bússola imoral”, lembrando a todo momento que o seu patrão representa o MAL e deveria agir segundo este preceito. Já o anjo negro também é enviado pelo Senhor, mas não para fazer qualquer proposta a Lucifer, mas sim para adverti-lo que o seu comportamento não será tolerado, pois a sua a sua “mudança de time” causou um desequilíbrio nas forças primais.

E, por fim, o maior temor desde a sinopse oficial se confirmou: a série vai mesmo descambar para a cansativa fórmula de procedural de investigação (preferia muito mais um procedural de filosofia de boteco sobre livre arbítrio). A justificativa para Lucifer seguir esta empreitada, provavelmente, vai ser o mistério que paira sobre a detetive Chloe Dancer, que não foi afetada pelo magnetismo do Príncipe das Trevas. Teria ela uma origem divina? A química entre os dois foi excelente, especialmente se envolvermos um terceiro elemento – Trixie, a filha de Chloe. Ela e Uncle Lu protagonizaram as melhores cenas deste episódio.

A avaliação final deste piloto é positiva, mas temerosa. É difícil imaginar explicações para envolver um psycho-playboy em investigações policiais toda semana, assim como será perturbador ver a mudança de personalidade de um personagem que representa o mal na sua mais pura essência, afeiçoando-se à humanidade ternamente. Claro que tudo isso é especulação e eu posso estar completamente enganado. Esta série pode ser bem mais densa e, quem sabe, receber visitantes ilustres da Vertigo/DC, como Etrigan, Espectro, Deadman, Sr. Destino e, especialmente, John Constantine, já que Matt Ryan começou a vagar por outras séries alheias mesmo (veja a confirmação da sua presença em Arrow aqui). E já que é pra sonhar, porque não torcer pela presença de Morfeus e seus irmãos perpétuos, já que o filme Sandman está em produção e as mídias tendem a convergir?

Enfim, como fã incorrigível de quadrinhos, assistirei até o último episódio, especialmente porque é uma série de mid-season e, acredito, não terá mais que 13 episódios, além de ter uma “pegada” parecida com iZombie, que também era um procedural, também foi uma adaptação da Vertigo rasa e, apesar disso, foi uma das melhores séries da mid-2015.

Até 2016!

Do Inferno: que fiasco aquele efeito do olho vermelho, quando Lucifer ameaça a menina na escola. Tomara que o efeito seja refeito até a estreia oficial.

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Alexandre Bonfá
Apaixonado por HQ´s há mais de 30 anos, eu me sinto realizado com essa avalanche de séries de Quadrinhos da atualidade. Tá achando pouco? Ano que vem vai ter o dobro!