Nova receita com o tempero antigo.

Spoilers Abaixo:

Existe uma certa tristeza em se analisar os rumos tomados pela história norte-americana. Fundada com um ideal de liberdade, com uma constituição que protegia a população do governo e limitava a interferência deste na vida cotidiana, com o tempo e o aumento de sua soberania política se transformou em um estado regido pelo medo, como pode ser notado pelas suas sucessivas invasões militares em outros países e a aprovação de uma lei que acaba com liberdades básicas de sigilo como o Patriot Act. Pelo que pode ser notado neste episódio piloto, Last Resort é uma clara crítica a essa política externa perigosa efetuada pelos Estados Unidos.

A trama, de um modo bem resumido para não estragar a experiência dos que não viram, conta a história de Marcus Chaplin (Andre Braugher) e Sam Kendal (Scott Speedman), respectivamente comandante e primeiro oficial do USS Colorado, submarino americano com o poder bélico equivalente a dezoito ogivas nucleares, que, ao serem informados que deveriam atacar o Paquistão, decidem questionar a efetividade da ordem dada e acabam entrando em conflito com o governo americano.

O roteiro de Shawn Ryan (o gênio por trás da lendária The Shield e da, infelizmente, subestimada The Chicago Code), consegue com eficiência estabelecer como funcionará a dinâmica da dupla principal, maior foco do episódio, e estabelecer paralelamente o impacto de suas ações em solo norte-americano e na ilha de Sainte Marina.

Marcus Chaplin é, sem dúvida, o grande foco do episódio, com uma personalidade conferida já em seus primeiros minutos como um capitão que, apesar da firmeza e decisão em cada uma de suas escolhas, é imbuído de um espírito de cooperação muito forte e busca sempre pautar suas decisões no que é melhor para a frota e a nação. O sempre ótimo Andre Braugher confere ao personagem um semblante de respeito, não precisando jamais levantar a voz ou utilizar do medo para ser respeitado de modo que seja natural a confiança demonstrada pelos subordinados em sua autoridade.

Sam Kendal, por outro lado, representa o oficial mais jovem e uma espécie de pupilo para o protagonista, compondo o elemento de humanidade da dupla principal. Incrivelmente, Speedman confere seu desempenho mais carismático em pelo menos uma década, tornando seu personagem uma figura que pode representar sem problemas o elo entre a série e o espectador.

Como pode ser percebido, o conceito de nenhum dos personagens está perto de ser novo, mas conseguem funcionar dentro do contexto da série de forma a serem apresentados e não soarem como mera repetição. Essa característica, saber utilizar conceitos que a audiência está acostumada, recebendo influências desde 24 a Sci-Fis como Star Trek e Battlestar Galactica, e reciclá-los de modo a mostrar a independência da série, repete-se em praticamente todos os aspectos do piloto, conseguindo sem grandes problemas cumprir com a árdua missão de estabelecer um ambiente familiar, mas já mostrando sinais do que poderá transformá-la em única e relevante, principalmente se for levado em conta que uma marca patente de Ryan é a de saber evoluir seus personagens e universo.

A direção de Martin Campbell (cujos trabalhos mais notáveis são Goldeneye e Cassino Royale) é claramente sujeita aos limites de linguagem naturais da tevê aberta, que apenas é abandonada nos raros momentos no qual a câmera está sobrevoando algumas locações a fim de apresentá-las. Dentro dos problemas, Campbell apresenta eficiência ao saber contrapor quadros mais abertos, longos e estáticos nos momentos de menor intensidade e os balancear com enquadramentos fechados, curtos e frenéticos nas cenas de maior tensão, sem jamais cair no erro de fazer com que o espectador perca a noção do que está acontecendo em cena.

Evidentemente, o piloto está longe de ser um exemplar perfeito do gênero, caindo de rendimento sempre que foge das ações mais diretas dos dois membros mais ativos de sua tripulação principal, como o núcleo americano ou no representante do poder dominante em Sainte Marina, mas é um pecadilho que pode ser perdoado por, além de ser absolutamente necessário, jamais chegarem ao ponto de serem momentos ruins, apenas tirando um pouco da orgânica do episódio.

Equilibrando com sucesso a apresentação dos personagens, universo, e utilizando doses adequadas de ação, Last Resort se mostra uma experiência bem-sucedida neste seu primeiro episódio. Mesmo que, com perdão da praga, tudo dê errado a partir de agora, uma missão já foi cumprida pela tripulação: a de ser um candidato real a melhor piloto da Fall Season de 2012.

PS – Last Resort estreia oficialmente no dia 27 de setembro nos EUA, mas o episódio piloto foi disponibilizado na internet pelo Yahoo! TV.

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