A realidade por trás de um esporte.
De uns anos para cá, o MMA se tornou extremamente popular. Antes um esporte de nicho, ganhou notoriedade graças a um bem-sucedido modelo de negócios. Assim, era inevitável que, em algum momento, a modalidade fosse explorada mais a fundo por algum meio audiovisual. Kingdom, retrato do MMA criado por Byron Belasco para a DirecTV, é uma das primeiras produções do tipo. Poderia tratar esse universo com uma abordagem cheia de sonhos e maravilhas, mas prefere atacar o lado do esporte que não é visto pela população, acertando em cheio no processo.
A série narra a história da família Kulina. Seu patriarca, Alvey (Frank Grillo), é uma lenda do UFC, e hoje é dono de uma academia de MMA. Lá, treina seu filho, Nate (Nick Jonas), para uma importante luta em Long Beach. Seu outro filho, Jay (Jonathan Tucker), é um ex-lutador cheio de problemas com drogas e álcool. A academia recebe então a visita de Ryan Wheeler (Matt Lauria), recém-saído da prisão, que tenta conseguir um emprego como treinador, o que Alvey aceita. Lisa (Kiele Sanchez), porém, não gosta da ideia, já que é ex-noiva de Ryan e atual de Alvey.
O maior acerto de Kingdom é, sem dúvidas, não procurar em momento algum enfeitar o universo do esporte que retrata. Essa realidade crua até soa exagerada em alguns pontos (a cena em que há a insinuação de que Jay teria se matado é particularmente aborrecida), mas funciona perfeitamente na maior parte do tempo, cerceando seus personagens dos mais variados problemas, e trabalhando suas introduções de maneira a transformar todos em seres humanos gostáveis, mas com uma série de defeitos. A cena que abre o episódio, por exemplo, mostra Alvey cometendo um erro muito comum a pessoas que praticam alguma arte marcial, resistindo, de maneira aparentemente bem-sucedida, a um ataque através de suas habilidades de luta. Embora isso o caracterize como um mocinho, a ação revela uma certa arrogância por parte do mesmo.
O fato de o episódio se encerrar com a consequência dessa abertura é a maior prova de que Kingdom trabalha exatamente com esse conceito. Belasco poderia seguir em frente sem que a ação de Alvey tivesse sua consequência, mas estabelece a culpa de seu protagonista de maneira extremamente cruel. Além de estabelecer uma interessante rima temática para o piloto, a série desconstrói a imagem do personagem como um mocinho perfeito, responsabilizando-o por um acontecimento aparentemente muito grave com Nate.
Essa última cena é apenas o que finaliza esse processo. Durante todo o episódio, vemos Kingdom utilizando Jay como acessório para minimizar as habilidades de Alvey como pai. Se nos primeiros minutos o primogênito soa como um irresponsável, incapaz de dar a seu irmão o bom exemplo que este precisa para conseguir ter sucesso em sua luta, logo vemos essa imagem mudar. Com o passar do tempo, começamos a compreender os motivos para agir dessa forma, culminando na cena em que vende um computador para conseguir dinheiro para sua mãe, agora uma prostituta. A beleza dessa sequência é digna de nota, levando o espectador a entender que a venda ocorreria para consumo de drogas, para em seguidas sermos surpreendidos.
Do outro lado está seu irmão Nate. Construído de maneira oposta a Jay, sua função no episódio está não apenas em retratar o sonho de um lutador em plena ascensão, mas em tornar a última cena ainda mais impactante. Kingdom trabalha durante todo o episódio para não transformá-lo em uma criatura detestável. Seu único momento de falha é para intervir por seu irmão. Diante de uma grande quantidade de personagens repletos de falhas, isso provoca instantaneamente no espectador o sentimento de que nada de errado deveria acontecer a Nate, simplesmente para que nos choquemos ainda mais com a violência do final.
Aliás, Kingdom também aproveita para traçar um interessante paralelo entre os irmãos Nate e Jay e os amigos Ryan e Alvey. Enquanto Nate e Alvey se mostram como verdadeiros atletas, suas existências são equilibradas pelos problemáticos Ryan e Jay. Essa semelhança entre duas gerações distintas cria a sensação de que o universo retratado é repleto desse tipo de disparidade, criando um interessante ciclo, contribuindo para que tudo soe natural.
Por sinal, o que Kingdom faz de melhor é trazer diálogos e cenas incrivelmente orgânicas. Mérito do diretor Adam Davidson, capaz de conduzir seus atores de forma a transformar cada conversa em algo crível. Além disso, a maneira como ambienta a cena em que Nate luta contra Walker (interpretado por Cub Swanson, lutador do UFC) é arrebatadora, através de cortes bruscos e uma série de gritos curtos, criando com perfeição o ambiente de uma luta. Adicionalmente, mostra ao espectador como o momento de uma luta de MMA é completamente distinto de qualquer treinamento na visão dos próprios lutadores, não havendo espaço para absolutamente mais nada além do que ocorre dentro do octógono.
Mas, Kingdom também tem seus problemas. Além de exagerar um pouco no aspecto cru de sua linguagem, a série explora de maneira bastante anacrônica suas personagens femininas. Mostrando uma dificuldade muito parecida com talentosos cineastas como Quentin Tarantino ou Christopher Nolan, Belasco as trata ou de forma excessivamente sexualizada, ou com uma fragilidade pouco compatível. Não por acaso, a única mulher que não é meramente utilizada como brinquedo sexual é Lisa, cuja introdução se limita a demonstrar para suas garotas como seduzir um homem a treinar na academia. Além disso, embora a prisão de Ryan pareça mais do que suficiente para que ela deixe o noivo, Kingdom dá a entender que Lisa não se desprende totalmente dele, o que acaba colocando a personagem em uma posição que a série não consegue explicar com clareza.
Embora essa seja uma característica incômoda, isso não é o bastante para tornar Kingdom uma série fraca. Pelo contrário. Sua natureza orgânica e o bom trabalho de seu showrunner em criar seus personagens a tornam uma produção praticamente imperdível. É uma série que naturalmente dividirá opiniões, exatamente pelas características citadas. Mas sem dúvidas tem qualidade e potencial de sobra.















