Inumanos chega com a difícil missão de criar um momento épico na televisão.

Não muito tempo atrás Medusa, Raio Negro, Tritão, Gorgon, Crystal e Karnak foram anunciados em uma proposta de live action, mas como parte da família de filmes da Marvel. Após o anuncio de que a família real chegaria aos cinemas, com um longa anteriormente programado para estrear em 2019, uma parcela dos fãs da Casa das Ideias celebrou a vitória, que na época soava como uma resposta da Marvel Estúdios para a ausência dos mutantes em seu universo cinematográfico. Mas a conquista não durou muito tempo. Durante sua segunda temporada os agentes da S.H.I.E.L.D. foram apresentados a névoa terrígena, aos experimentos dos Kree e ao gene inumano. Com a personagem de Daisy Johnson, que nos quadrinhos ganhou seus poderes por causa de experimentos conduzidos por seu pai, Cal Zabo, a série da divisão de televisão da Marvel antecipou a introdução da raça inumana e complicou o relacionamento já conturbado entre Kevin Feige (presidente da Marvel filmes) e Ike Perlmutter (responsável pela divisão de televisão).

Fora do cinema e dentro da televisão, a Marvel TV se aliou ao IMAX para criar dois episódios que seriam exibidos no cinema, antes da estreia na televisão e filmados com câmeras de última geração. Parecia tudo maravilhoso, certo? E a maravilha terminou quando a primeira foto do elenco, já dentro da fantasia e composição dos personagens, foi apresentada. Críticas cresceram quanto ao aspecto B da produção e tudo piorou quando o trailer foi lançado. O negativismo apenas aumentou após o lançamento oficial. Enquanto estava em final de edição e adição de efeitos especiais, a equipe tentava apaziguar aos fãs e descrentes, pontuando que tudo ainda estava em construção, que os efeitos melhorariam e que tudo terminaria bem, mas não foi exatamente o que aconteceu. Agora, após sua estreia, o que vimos no primeiro trailer apenas se confirmou. Inumanos é exatamente como mostraram que seria, apática, mal construída e com efeitos que deixam a desejar.

O piloto, apesar de não ter sido tão execrável como a mídia analisou, demonstra pouca identidade, apesar de razoável potencial para melhora. Compreendo que é necessário fazer uma separação entre o que foi criado no papel e o que está na televisão, mas quando penso em uma produção dos Inumanos a última coisa que me vem à mente é a palavra ‘genérico’. E visualmente falando Inumanos é bem fraca. A composição é muito comum e existe pouca separação entre a tecnologia e ambientação que realmente evoquem a separação entre a humanidade e a inumanidade. Tudo ali é parecido com o que existe na Terra, com quase nenhum fator realmente impressionante. Pior ainda, estes inumanos são incrivelmente básicos. Onde está o departamento de maquiagem? O que aconteceu com a equipe responsável pelas fantasias? Por que tudo é tão cinza, apático e sem profundidade? Qual a justificativa para ter uma base na lua e gravar no Havaí se no final tudo é tão básico, chapado e sem vida?

E os problemas também vão além da construção de cenários ou do fato de termos algo tão comum, mesmo estando na lua. A própria identidade destes personagens é questionável. Tome Karnak como exemplo. O inumano que tem o poder de perceber qualquer falha tem seus poderes expostos de uma maneira exemplar, contudo quando precisa escalar uma montanha, ele cai e não percebe a falha na estrutura da rocha. É um tipo de erro que vai além do mero detalhe e praticamente destrói uma cena tão bem construída como a da luta entre ele e os guardas.

Da mesma maneira funciona o momento em que Medusa tem seu cabelo raspado, sem nenhuma resistência. Talvez o inumano que a surpreendeu tenha desligado seus poderes, porém nenhuma explicação é dada e o telespectador é levado a construir sua própria resolução, assim como a crítica especializada. Muito do que é feito nestes dois episódios demanda fé do público. Fé em um material que poderia ter sido muito mais do que foi apresentado como produto final.

Ainda discutindo os personagens, Karnak e Gorgon foram os que tiveram mais espaço para conquistar a audiência. O pequeno almoço da família real é breve, mas garante divertimento. A base do humor da Marvel está ali, é possível identificar logo no começo, e estes personagens conseguem fazer o melhor uso desta dinâmica. O mesmo não pode ser dito a respeito de Raio Negro, o rei. Não falar é um desafio muito grande, mas não é impossível. Buffy a Caça Vampiros teve um episódio inteiro em que nenhum de seus personagens falava e conseguiu passar a personalidade de cada um com expressões faciais e construção de cenas. Inumanos teve diversas oportunidades e só conseguiu em um momento, quando Raio Negro e Medusa “conversam” através do comunicador e do som do coração do monarca. O resto? Nem tanto.

Inumanos
Inumanos

Não, Inumanos não é a pior série já feita pela Marvel, ainda temos Punho de Ferro em pé de igualdade. Contudo estar no mesmo patamar de outra produção de Scott Buck não é nenhum mérito. Ambas sofrem do mesmo problema, a falta de identidade. Só que dentro desta balança Inumanos apresentou personagens com uma dinâmica melhor do que a de Danny e seus amigos, lá no universo construído pela Netflix.

A trama movimenta certo interesse e ambos os episódios seguem um padrão interessante, mas por se tratar de uma temporada com apenas oito capítulos a equipe decidiu que o mais interessante seria correr com o roteiro e logo de cara já desfazer as maiores dificuldades da produção, o orçamento. Em um episódio o cabelo da Medusa é raspado, Tritão, o personagem com maquiagem diferente e que realmente oferece uma compreensão daquele povo como algo “a mais”, desparece e o rei é confinado ao Planeta Terra. Logo, o foco permanecerá com os pés no chão e não na lua, como o segundo capítulo confirma.

Obviamente o maior trunfo, até o momento, mora em um personagem, Maximus, interpretado por Iwan Rheon (Game of Thrones, Misfits). Rheon, que consegue conduzir com maestria a posição de um vilão perturbado, também oferece algumas nuances interessantes para o papel. Ele está, no fim do dia, lutando para construir algo melhor para seu povo, mesmo que sua motivação esteja levemente baseada no desejo pelo poder e por ter aquilo que o irmão tem, a começar pela cunhada – que já deixou bem claro que não é propriedade de ninguém. Só que nem mesmo Rheon é capaz de carregar sozinho o fardo de Inumanos e até a conclusão de Those Who Would Destroy Us, nada fica realmente claro.

Existe um problema crescente em Attillan e o descontentamento deste povo com o processo da terrigenese é óbvio. Aqueles que não recebem poderes classificados como uteis para a sociedade são forçados a trabalhar nas minas. Esta política, se bem explorada, poderá garantir uma ótima relação entre irmãos, com uma boa base para a exploração do ideal de Maximus. Dentro destes dois episódios, porém, nada é realmente explorado com profundidade. Claro que por estarmos ainda no segundo capítulo é compreensível, entretanto deverá existir um desenvolvimento melhor neste quesito se Inumanos quiser demonstrar complexidade em seu roteiro.

Até o agora, com Behold… The Inhumans e Those Who Would Destroy Us, a mais nova série da Marvel mostrou que ainda não está pronta para o grande público. Genérica, sem nenhum grande atrativo visual, com medo de fazer uso de maquiagem prostética, e barata, estes dois episódios mostraram que a crítica é fundamentada e que o resultado final foi aquém do esperado. Felizmente (ou infelizmente) temos apenas mais seis episódios até a conclusão da primeira (talvez última) temporada da série. Honestamente eu gostaria que o produto tivesse sido diferente. Apesar de não serem os X-Men, a visão da família real quanto a individualidade e sua própria afirmação fazem deles personagens bem diferentes dos mutantes. Se a série conseguir, até sua conclusão, explorar o fator determinante de seus protagonistas e utilizar o carisma de alguns personagens como Gorgon e Karnak, além de Dentinho e Cristal, existem chances para que ela não termine com o saldo tão negativo. Porém, se o foco permanecer em Raio Negro, um personagem desafiador e Medusa, que já perdeu parte de seu charme, o resultado não poderá ser diferente daquilo que já vimos.

Easter eggs e outras informações de Inumanos:

­- A primeira aparição dos inumanos em uma revista em quadrinhos foi em Quarteto Fantástico #45, de 1965. Eles depois conseguiram uma revista solo em 1975, com doze números. Seu retorno aconteceu em 1998, com roteiro de Paul Jenkins e arte de Jae Lee.

– Inicialmente os inumanos vivam na Terra, no Himalaia, até serem forçados a se refugiar na zona azul da lua.

– A criação dos inumanos começou a milhares de anos atrás, quando a raça alienígena Kree começou a fazer experimentos em seres humanos, para transformá-los em armas contra os Skrull. O experimento, porém, foi abandonado. Muito tempo depois um cientista inumano conseguiu desenvolver um método de liberação do potencial do gene inumano, acordando poderes e transformações. Este processo ficou conhecido como terrigenese.

– Existiram algumas conexões com outra produção da Marvel. Quando estão discutindo a respeito do desaparecimento de Tritão, é mencionado que um evento foi responsável por espalhar o composto terrígeno no abastecimento de água humana. No final da segunda temporada de Agents of S.H.I.E.L.D. uma caixa com cristais terrígenos caiu no oceano, infectando peixes e vida marítima que entraram em contato com a névoa. Desde então vários descendentes de inumanos tem recebido seus poderes. A mais famosa é Quake, a inumana Daisy Johnson – que teve seu gene acordado de outra maneira, em um templo Kree.

– Outra pequena conexão vem da discussão de Karnak e Gorgon, enquanto eles estão observando o despertar de dois novos inumanos. O diálogo entre ambos é bem parecido com o que foi desenvolvido no terceiro ano de Agents, quando Lincoln pontuou que cada inumano tinha um poder desenvolvido de acordo com a necessidade naquele momento.

– Esta diálogo, porém, não é obra da série e sim das revistas em quadrinhos, em especial no momento criado por Jenkins.

Inumanos
Inumanos

– A própria cena de despertar dos inumanos, com a voadora, é um reflexo da HQ. A diferença é que na nona arte o garoto é aparentemente revertido para um Alpha Primitive – explorado em MAoS, e a garota, Tonaja, ganha uma pele parecida com a de cobra e asas.

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– Na série o rapaz ganha o nome Bronaja, mas seu poder de ver o futuro é bem similar ao de outro inumano “famoso” da Marvel, Ulysses. Foi por causa de Ulysses que existiu a segunda Guerra Civil.

– Auran, a fiel seguidora de Maximus, divide poucas similaridades com sua contraparte nos quadrinhos. Na nona arte a chefe da segurança real de Atillan tem uma aparência diferente, é fiel a Medusa e Raio Negro e tem duas filhas.

Inumanos
Inumanos

– O cabelo da Medusa também foi cortado por Maximus, na HQ de Jenkins.

– Um inumano poderoso foi mostrado na série, Eldrac, o portal vivo. Eldrac já foi um homem, mas quando passou pela terrigenese ele terminou como uma espécie de máquina de transporte. Seu uso não é muito recomendado porque ele usualmente envia as pessoas para onde elas precisam ir, nem sempre para onde elas querem chegar.

REVISÃO GERAL
Nota:
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primeiras-impressoes-inumanosInumanos mostrou que ainda não está pronta para o grande público. Genérica, sem nenhum grande atrativo visual, com medo de fazer uso de maquiagem prostética, e barata, estes dois episódios mostraram que a crítica é fundamentada e que o resultado final foi aquém do esperado.