Se somarmos os prêmios de cinco das séries mais populares de David E. Kelley (Picket Fences, Chicago Hope, Ally McBeal, The Practice e Boston Legal), chegaremos a um resultado invejável: nove Globos de Ouro e quarenta e oito estatuetas do Emmy. Como showrunner, o interesse do produtor é desenvolver tramas cativantes e politicamente carregadas sobre um panorama jurídico. Suas últimas três empreitadas na televisão deram certo; agora chega à NBC sua mais nova criação, Harry’s Law.

Spoilers Abaixo:

Pensei que não poderia dar errado. Quer dizer, “série jurídica” com Kathy Bates no papel principal? Seria um deleite sem mais tamanho. Abri um sorriso no primeiro minuto do episódio, tentei esquecer a narração Desperate Housewives e me concentrei na Har… Espera. Já rolou pra vinheta de abertura?

Exatamente.

Harry’s Law apresenta em quatro minutos e cinquenta segundos a personagem Harriet Korn (eu pensei na mesma coisa ao ler o nome no IMDb. É, foi nisso mesmo. É, eu sei. Isso, isso). Em quatro minutos e cinquenta segundos, são apresentados o passado de Harry, sua assistente Jenna, sua epifania, dois acidentes em sequência e um novo propósito de vida. Como telespectador, você tem a obrigação de assimilar tudo e partir pra próxima. Mas pra próxima o quê?

Bem, Harry era uma advogada que trabalhava no setor de patentes em uma grande firma. Depois de mais ou menos um mês de letargia, reconheceu que trabalhar com a área era absurdamente chato. Foi então despedida pelo chefe e, numa caminhada pela rua, acabou atingida por um… Rapaz. Caindo de um prédio. No hospital, os dois se veem e ela diz ao rapaz que sacou que ele estava tentando cometer suicídio. Pergunta o porquê e o rapaz vai embora. Segundos mais tarde, ainda muito bem de saúde e andando tranquila pela rua, Harry vê um lugar à venda e caminha para lá. Dando dois passos no asfalto, ela é atropelada por um carro – coincidentemente, o motorista era um jovem advogado que já tinha trabalhado contra os clientes dela no Tribunal. De novo a Harry não se machuca e isso é atribuído a um colchão e a “too much soft tissue”.

Acredite, eu não contei nada. Isso tudo passou em quatro minutos e cinquenta segundos.

No resto do episódio, vemos a Harry pegando o caso daquele rapaz que tentou o suicídio (ele se defende de uma acusação por porte de drogas, mas que é a terceira do seu histórico) e o seu novo sócio – aquele cara que a atropelou – defende o gângster que prometeu proteger o escritório e que ganhou em troca o direito de ser defendido de graça caso fosse preso. A assistente também fica com a Harry e transforma o escritório em metade escritório, metade loja de sapatos (porque a loja tinha muitos sapatos caros, que tinham sido deixados lá pelo antigo proprietário). E é até aqui que eu posso chegar sem dar spoilers.

Como um todo, o piloto me pareceu meio “unaired pilot”. Cenas que provavelmente fariam sentido no desenrolar do episódio me pareceram suprimidas: para mim, toda aquela sequência de introdução poderia ser exibida em doze, quem sabe catorze bons minutos. Quatro e cinquenta é uma maldade com os telespectadores, que são forçados a ignorar a Harry – já que mal a conhecem – em detrimento da dama de Teatro que a interpreta. Isso me chateou bastante.

O sócio se chama Adam Branch (Nathan Corddry), e talvez seja um dos elementos mais embaraçosos do piloto. O cara é um miscast e faz questão de mostrar: a personalidade meio Alan Shore + Jeffrey Coho pareceu altamente forçada e pouquíssimo interessante. No fim das contas, olhei para ele e pensei em como uma penca de atores mais apropriados dariam conta do recado e muito bem. A Jenna (Brittany Snow) foi irrelevante para o desenrolar da trama, bem como o foram os demais personagens.

De pontos positivos, tenho de ressaltar novamente a Kathy Bates… E a interpretação do juiz que presidiu o caso que a Harry pegou. O ator incorporou toda a condescendência que marca a atuação de muitos magistrados brasileiros… E certamente de muitos magistrados americanos. Causa uma irritação sem mais tamanho, e quem vive isso na pele sabe do que eu estou falando.

Verei o próximo episódio de Harry’s Law, mas apenas por causa da Kathy Bates. Mesmo com 11 milhões de telespectadores, o programa não terá vida longa. Essa é a minha previsão.

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