A pergunta de um milhão de dólares é: como gostar de uma série em que o protagonista é uma mala sem alça insuportável?

Spoilers Abaixo:

Sei que muitos vão argumentar citando exemplos de personagens desagradáveis/agradáveis como House, Monk (pensem em qualquer outro exemplo) e por aí vai, que não são flores que se cheirem, mas que tinham o grande trunfo nas suas próprias personalidades conturbadas. A verdade é que existem vários tipos de personagens “chatos”. Vou usar os meus dois personagens citados como exemplos. Acredito que todos conheçam House e sua personalidade amicíssima (#sóquenão) e também acho que todos sabem como era difícil lidar com a pessoa Gregory House. A diferença é que quem tinha que sofrer com isso eram os personagens da série e não nós, espectadores, que pelo contrário, amávamos o programa cada vez mais, na mesma proporção do tamanho da chatice dele. Sem contar que o House era chato porque ele queria ser chato, porque ele não se importava com o que os outros pensavam dele e ponto. Já Adrian Monk era quase doente (isso se não era realmente), devido ao tamanho de tiques e TOC’s que o personagem possuía, algo que acabava “justificando” toda a sua “chatice”. Mas assim como em House, a graça era ver os outros personagens tendo que lidar com esse tipo de situação, com uma pessoa completamente esquisita.

Em Golden Boy a história é um pouco diferente. Walter Clark é chato porque peca em todos os quesitos, seja na ambição infinita ou na não existente paciência. A prepotência do personagem de achar que era algo que ele ainda não era, porque viveu uma situação de ato heroico, me irritou profundamente, me fazendo virar a cara contra o próprio personagem já no episódio piloto. O que não é um bom sinal, afinal – na teoria – é ele quem irá carregar a série nas costas.

O piloto começou de uma maneira diferente, mostrando Walter Clark (Theo James – “Bedlam”), ou Junior para os ‘não íntimos’, já promovido ao cargo máximo de Comissário da polícia aos 34 anos, mais jovem que o ex-presidente Theodore Roosevelt (!). Já nessa cena é possível perceber o tipo de personalidade que tem o jovem Comissário, admitindo que muitos sacrifícios foram feitos durante sua curta, mas promissora, carreira. Além da personalidade pouco agradável, nada mais foi aprofundado sobre o personagem. Ele passou por uma experiência traumatizante quando ainda era um policial de ronda e foi considerado um herói nacional. Acabou dando um salto depois desse acontecimento e virou detetive do Departamento de Homicídios em pouco tempo. Era morador de rua, teve pais horríveis e tem uma irmã, Agnes (Stella Maeve), que se droga e apanha do namorado, e que parece ser a única coisa que importa para o Clark, além da sua carreira. História triste, que não gerou muito mimimi (ainda bem), mas que vai ser volte e meia lembrada pelo próprio personagem, como quando usou esse seu passado para lhe dar vantagens ilegais, como falar com um suspeito e invadir a casa do outro.

O seu parceiro na Homicídios acabou sendo Don Owen (Chi McBride – “Boston Public”), um detetive que está prestes a se aposentar. Owen é, de longe, o melhor personagem apresentado pela série nesses quarenta minutos. Mostrou-se um policial muitíssimo experiente, paciente e que leva a sério a palavra “parceria” (algo que seu novo parceiro demonstrou desconhecer). Fiquei curiosa para saber qual é o futuro reservado para ele, já que no começo do episódio a impressão que me passou é de que o detetive não esteja mais vivo graças a algum erro do Clark, ou algo do tipo.

Também fazem parte do distrito Christian Arroyo (Kevin Alejandro – “True Blood”, “Southland”) e Deborah McKenzie (Bonnie Somerville – “Friends”). Em quesito atuação, os dois foram os mais fracos do elenco, fácil, fácil. Assisto (aham, é no presente, podem me zombar) True Blood e gostava muito da atuação do Kevin Alejandro (inclusive o único ator com uma cara realmente conhecida para mim), mas aqui achei que ele deixou a desejar e muito. O seu personagem, Arroyo, é outro que me deixou enojada, usando truques baixíssimos para poder ficar por cima. A maneira com a qual ele tratou o Clark, assim que o novato se apresenta¹, já deixa bem claro que tipo de homem o detetive é. Depois que ainda é nos contado que ele queimou uma testemunha do Owen “sem querer”, não há como pensar que pode sair algo de bom dali. Já McKenzie, uma detetive com histórico familiar dentro da polícia, não mostrou muito a que veio. Ela sabe do que o seu parceiro é capaz e não parece se importar com isso, o que eu não considero algo nada bom e acredito que ela ainda vai mostrar quem ela realmente é.

Contando para o lado positivo, o piloto não foi nem um pouco arrastado e fiquei com a impressão de que passou rápido – sempre bom isso. Não perdeu o ritmo e o roteiro demonstrou que sabia o que fazer. O caso, apesar de nada original ou surpreendente, teve o seu destaque merecido e não prejudicou (mas nem acrescentou é verdade) no episódio.

O que me deixa com uma vontade de assistir ao próximo episódio é saber de que forma a série mostrará os seus casos. Se sempre serão em “flashbacks” da vida do Walter, até chegar aonde ele chegou, ou se esse episódio foi uma exceção. A cena final, que mostra o Clark conversando com o jornalista, diz que esse será o ritmo da série, o que me deixa satisfeita, afinal aí está a primeira diferenciação desse procedural para os tantos outros. É algo diferente para focar, um elemento pouco explorado por séries desse gênero e que foi o que mais chamou a minha atenção.

Não sou de assistir apenas um episódio e largar e por isso não desistirei logo de cara da série. Mas se a personalidade do Clark não for mais bem trabalhada (ele não precisa perder suas características, mas seria muito bom para a série minimizar um pouco a intensidade das qualidades negativas do personagem), não me vejo acompanhando a série por muito mais tempo. Por isso fico no aguardo. Mas e vocês, o que acharam de mais uma série procedural que estreia na CBS? Um pouco abaixo do nível das outras ou não?

p.s.1:¹ como já dizia o inesquecível Sirius Black, “se você quer saber como um homem é, veja como ele trata os inferiores, e não os seus iguais.”

p.s.2: a audiência de estreia de Golden Boy foi bem em milhões, na demo já não tanta, mas nada negativo também.

p.s.3: eu procurei, a série não tem nada a ver com um mangá japonês de mesmo nome (rs)!

p.s.4: dou um ovo de páscoa pra quem acertar, SEM GOOGLAR, qual personagem em Friends que a Bonnie Somerville deu vida. Eu fiquei de queixo caído de tão irreconhecível quando eu descobri!

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