Do No Harm: uma série única (ou prestes a sê-lo), pelo menos pra mim.

Spoilers Abaixo:

Preciso confessar uma coisa: eu, até hoje, nunca consegui abandonar uma série. Por mais tosco que eu ache um piloto (ou por mais que, aos poucos, as coisas desandem até dizer chega), eu me mantenho firme até o fim. O motivo, além de alguma patologia inexplicável, é porque a curiosidade sempre acaba falando mais alto… Eu penso: “putz, que bosta”, mas aí sai o episódio seguinte e me pego assistindo só pra ver o que vem depois. E olha, os exemplos são muitos: Alcatraz, The Finder, Terra Nova, Shit My Dad Says, The Event… Vi todos os minutos de cada uma destas bombas, assim como os de algumas outras. Isto posto, lá vai: depois de, sei lá, umas 70 séries iniciadas, é bem provável que Do No Harm consiga, enfim, me causar uma mudança de paradigma.

Ok, reconheço que, por enquanto, pretendo voltar pelo menos para o segundo episódio, mas prometi pra mim mesmo que, se o cenário não melhorar pelos menos um pouco, vou largá-la pelo caminho. E os motivos não são poucos, acreditem, a começar pela premissa. Na verdade, até admito que esta coisa de Dr. Jekyll e Mr. Hyde pós-modernos poderia resultar em algo interessante, mas o problema é que esta fixação vigente em fazer releituras mais dinâmicas de clássicos, tanto no cinema quanto na telinha, já me deu nos nervos. Ou seja, fica até difícil ter um cadinho mais de boa-vontade com o pessoal de Do No Harm.

Lembro-me de, ao assistir os promos, imaginar a série como uma mistura exótica de Californication, House e Beauty and the Beast – e de pensar, em seguida: “bom, pelo menos não é da CW”. E bom, até que meu palpite não passou tããão longe assim… Tudo bem que da série da Showtime tivemos só uma mini-suruba mostrada a jato (sem peitinhos, já que é TV aberta), mas já é alguma coisa. De House, veio o médico ousado e extremamente talentoso (sim, eu sei que um deles é ranzinza e o outro parece um ursinho carinhoso de tanta fofura, mas isso é outra discussão). E temos, também, uma Cuddy wannabe, menos milf e tão permissiva quanto! Por fim, para Beauty and the Beast ficou só a tosqueira mesmo (e o já citado fato de ser uma adaptação moderninha entre outras mil).

Aprofundando a análise do episódio, devo dizer que demorei apenas seis minutos para sentir uma baita preguiça. Era tudo tão corrido, com uma pressa desnecessária (e danosa) para ambientar a história… De imediato, descobrimos que o Dr. Jason (Steven Pasquale, de Rescue Me) é um doce de pessoa, e que ele nunca, NUNCA, desiste de um paciente (mais clichê impossível). Em seguida, surge outro médico meio freak, que fornece medicamentos ao doutor (e que, de cara, percebemos que terá também certa função de alívio cômico – não que eu tenha rido dele, ok? -, numa tendência que eu aposto que só vai se intensificar). Já a tal da Lena (Alana De La Garza, de CSI), desde o primeiro instante em que aparece, escancara para que serve: é o interesse amoroso do protagonista. Pouco depois, surge um psiquiatra que explica em duas frases o problema clínico do nosso herói… Até o Dr. Jordan (Michael Esper) mostra rapidinho que será o antagonista no hospital, ficando sempre muito perto de descobrir o segredo de Jason. Tudo bem didático, tudo bem cuspido na nossa cara, tudo bem boring.

Para piorar, a primeira cena que me agradou já tinha sido completamente entregue por um dos promos. Ainda assim, deu pra curtir minimamente a primeira vez em que Jason acorda pós-possessão, em meio a mulheres semi-nuas e à destruição no apartamento, bem como o “Happy Birthday” nos braços teve o seu quê de estiloso. Pena é ter que, em dois tempos, largar os elogios de mão para retomar as críticas…

As aparições de Lena nos primeiros 20 minutos foram tão cheias de furos que, só por aí, já dava pra ter uma ideia de como as perspectivas não são lá muito promissoras. Como assim a moça trabalha com o cara, acompanha pacientes com ele (para não falar no óbvio climinha, que a série dá a entender que já rolava há tempos), e nunca pensou em pedir o número de telefone? Improvável, para dizer o mínimo. Usar uma muleta narrativa (afinal, o objetivo era pura e simplesmente colocar o número dela ao alcance de Ian, o alter-ego badass) como essa já no piloto é de dar dó. Aí, algumas horas depois de levar um fora do médico, Lena recebe uma ligação e vai vê-lo normalmente… Chega, o encontra totalmente diferente, numa postura que em nada condizia com o que ela conhecia do doutor até então. Só que, em vez de no mínimo fazer um punhado de questionamentos, a morena faz cara de tacho e se deixa seduzir numa boa, como se estivesse tudo na mais perfeita ordem… Depois de topar ser despida, a queridinha decide, do nada, empurrar o namoradinho pra trás e acaba (descobrimos depois) ficando pê da vida porque… ele riu??? Ah, mas vá, né.

Na segunda metade, a coisa até melhora, ainda que ligeiramente. Há outros (quase) bons momentos, como quando Jason usa Ian para vencer uma briga (já a analogia envolvendo a mesma subrtrama, relacionada à paciente que apanhava do marido e “não podia se separar”, eu achei óbvia demais, e aí perde toda a graça). A situação envolvendo Olivia (Ruta Gedmintas, de The Borgias), que ao que tudo indica ganhou o coração de ambas as personalidades, também prendeu minimamente a minha atenção. E eu ri, pela primeira e única vez no piloto, com as piadas envolvendo o pênis do Dr. Jordan. Até mesmo a resolução do problema bolada por Jason não decepciona (será que rola mesmo este teste de glicose antes de uma cirurgia?), embora o tom didático da explicação posterior – mais uma vez – prejudique um pouco as coisas. Estas esparsas pílulas de (alguma) qualidade, contudo, não são suficientes para salvar o episódio.

Sobre o elenco, achei todo mundo bem apagadinho, tão robóticos e no automático quanto o roteiro… Pelo menos, Steven Pasquale, que tem, de longe, a maior responsabilidade, não está de todo ruim (o que, para um piloto, às vezes já é de bom tamanho). Acho que falta mais expressão para diferenciar duas personalidades tão distintas, mas dava pra sentir algo mudar, em algum nível, quando rolava o troca-troca no controle da mente do doutor. Devo dizer, inclusive, que preferi o ator dando vida ao lado malvadão (como Jason tem e terá bem mais tempo de tela, talvez resida aí mais um problema da série).

Do No Harm é produzida por David Schulner, da já citada (e pouco auspiciosa) The Event. O piloto é dirigido por Michael Mayer, de alguns episódios de Smash, enquanto o roteiro é assinado pelo próprio Schulner. A série estreia oficialmente no dia 31 de janeiro, mas (numa estratégia que também já deixou de ser criativa há um bom tempo) foi liberada antes do tempo pela NBC no seu site oficial.

P.S. – Que porra de assistente é esse, Dr. Jason? O cara cuida da agenda, tem as senhas do banco, quebra galho como investigador particular e sabe-se lá mais o que.

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