Ter Hank Voight como protagonista, talvez, seja o tiro no pé de Chicago PD.
Aproveitando a carona no sucesso e na boa recepção de Chicago Fire, a NBC não esperou por muito tempo e já lançou o seu spin off, o procedural policial, Chicago PD. Apesar da rapidez, é difícil não acreditar que mais um drama criminal produzido por Dick Wolf, o dono da franquia Law & Order, na mesma emissora que tem a série americana mais antiga no ar, Law & Order SVU, não dê certo. A não ser, é claro, que a audiência crie problemas em aceitar Hank Voight como o protagonista da série, assim como eu tive ao assistir esse piloto.
Não tenho como separar Chicago PD de sua mãe, sem lembrar todas as atrocidades e maldades que o sargento Voight fez no pouco tempo que passou pela série dos bombeiros, atormentando Casey e Cia. E olha que eu não tenho problemas em acompanhar séries que tenham em seus protagonistas pessoas com personalidades ruins e que cometam ações mais do que questionáveis – Dexter e House me vem a cabeça rapidamente –, mas não consigo me sentir a vontade ver um policial passando por cima de qualquer lei para conseguir o que quer ou aceitando dinheiro sujo de traficantes. Não sei se sou eu que estou muito acostumada a ver detetives, agentes federais e derivados, como mocinhos que seguem rigidamente as regras e que só acabam passando o limite do aceitável em raríssimas exceções, ou se estou sendo cabeça fechada, mas não me agradou nem um pouco pensar em acompanhar uma série que tenha seu principal personagem em forma de policial corrupto, que age como quer e quando quer, passando por cima de todos. Ainda mais quando Chicago PD se vende como algo verídico, logo depois de usar o próprio Voight como o grande vilão da primeira temporada de Chicago Fire.
Apesar de o sargento ter sido o principal motivo do meu grande desgosto com a série, outros personagens não me agradaram muito. Sophia Bush, queridinha por muitos – não, eu não me incluo nesse grupo –, não conseguiu me vender sua atuação como a detetive Erin Lindsay. Até não acho que o problema tenha vindo apenas da atriz, mas a própria personagem pareceu caricata demais para trabalhar em uma unidade de inteligência que combate o tráfico. Drogas e traficantes, aliás, não são os crimes e criminosos, respectivamente, que mais atraem a minha atenção, o que ajudou com a minha falta de empatia com Chicago PD.
Antonio Dawson já é figurinha carimbada para quem acompanha Chicago Fire, mas se eu já achava o personagem dispensável na série mãe, achei o personagem ainda mais perdido no spin off. Pouco fez e acrescentou. Sem contar na indecência que é ele aceitar trabalhar com o Voight depois de tudo que aconteceu. No pacote dos personagens que não fizeram boas apresentações, incluo o japonês-técnico que participa de todas as produções de Dick Wolf. Mesmo que ele tenha me trazido uma sensação de território conhecido, o rapaz não fez absolutamente nada. Também acrescento nessa lista o Saul de Chicago (não consegui nem me preocupar em saber o nome do cara), que só serviu para ficar dando sustinhos, dizendo que já estava na delegacia e usar a sua boina roubada da Showtime.
Por outro lado, não posso deixar de apontar os acertos da série. Primeiramente ao trazer personagens importantíssimos de Chicago Fire – sim, estou falando basicamente da Shay, da Gabi e do Pouch –, deixando uma experiência bem interessante de assistir as duas séries fazendo uma espécie de crossover, o mais natural, discreto e simplista que já passou pela história da televisão americana.
Os personagens de Jesse Soffer e Patrick Flueger, Jay Halstead e Adam Ruzek, respectivamente, me agradaram bastante. Apesar da má impressão que tive do Jay na série dos bombeiros e da mijada bronca que ele já levou do Voight nesse piloto, o detetive parece ser o segundo personagem com mais potencial para explorar na série (acredito que a Lindsay de Sophia Bush seja a primeira) e na hora do vamos ver, foi o cara que fez o que precisava no momento. Ruzek é outro personagem bem interessante, justamente por ser novato, e pelas próprias primeiras impressões que ele deu ao Saul na academia. Marina Squerciati também fez um ótimo trabalho no seu papel da oficial Kim Burgess, que não aceitou ser capacho e já mostrou que pode ir longe se souber tomar as decisões certas. Não deve demorar muito para que ela suba de cargo e se torne uma peça importante para o dia-a-dia da série.
Porém, o destaque mesmo fica por conta da sequência final do episódio. Fiquei chocada ao ver que realmente mataram a detetive Julia Wilhite, até porque, apesar de não ter tido muito destaque, a personagem me agradou no pouco que apresentou. É uma pena que tenha sido apenas uma participação de Melissa Sagemiller, mas pelo menos acabou rendendo cinco minutos muito eletrizantes para um piloto que eu estava achando morno até então. A única ressalva fica pelo fechamento rápido dessa história, com o traficante já sendo preso nesse episódio mesmo. Talvez fosse mais interessante se ele tivesse escapado e a caçada continuasse… De qualquer maneira, o episódio terminou em aberto, com o filho do Antonio sendo raptado, o que ajudou a dar uma amenizada.
Apesar de seus pontos positivos e do grande potencial que a série tem para aperfeiçoar e melhorar outros pontos, o meu problema fica ainda sendo o sargento Hank Voight. Tenho certeza que se o chefe da unidade fosse o Dawson, por mais insosso que ele seja, seria mais fácil de acompanhar a série (o problema é que pelo jeito os produtores concordam que Jon Seda não conseguiria carregar uma série nas costas). Até acredito que os roteiristas vão trabalhar na personalidade do Voight, humanizando cada vez mais, para torná-lo mais aceitável para o público e para os seus próprios companheiros de delegacia. Caso isso aconteça, tenho certeza que não pensarei muito em voltar a acompanhar Chicago PD. Porém, por enquanto vou deixar a porta encostada para ela. Não fechada, mas encostada.















