Quando o drama vira comédia.

É curioso como o que separa uma situação dramática de uma cômica é a forma como a encaramos. Um acontecimento catastrófico pode se tornar hilário se for contado de uma maneira enfeitada, especialmente se o narrador da história não é a pessoa que passou pelo problema. Uma boa parte das sitcoms são baseadas em situações do gênero, envolvendo seus personagens em algo impensável, absurdo, e que praticamente destrói a vida deles. A partir daí, constroem piadas sobre o assunto e sobre outras situações. Benched, nova comédia do USA, parte exatamente desse princípio. E embora seja terrivelmente irregular é até capaz de atrair algumas risadas.

A série, criada por Michaela Watkins e Damon Jones, mostra a história de Nina (Eliza Coupe), uma advogada que, ao saber que não se tornou sócia de seu escritório e que seu ex-noivo se casará com outra, tem um surto nervoso e se demite, se queimando no cenário de direito corporativo. Por isso, se torna defensora pública, colecionando problemas em seu primeiro dia, seja com o cheiro do tribunal, com o fato de não conseguir sequer encontrar as pessoas com quem precisa conversar, ou porque Trent, seu ex-noivo, é seu rival na corte.

É difícil ter o que gostar em Benched. A começar pela datada premissa, que torna os primeiros minutos desse piloto extremamente previsíveis. Além disso, a cena que envolve o surto de Nina se arrasta por tempo demais, tornando-se incrivelmente artificial com o passar do tempo. Se a reação dela a princípio é divertida, quando ela começa a atirar coisas no chão aleatoriamente o humor da série começa a se tornar repetitivo. E mesmo que a piada sobre a demora do elevador em fechar seja particularmente eficaz, não ajuda a causar uma boa impressão no espectador.

Os problemas de Benched não param por aí. Incapazes de conferir qualquer tratamento especial a seus coadjuvantes, Watkins e Jones, estreantes como showrunners e roteiristas, falham em um aspecto importante de uma sitcom. Por conta desse problema, vemos várias piadas tediosas quando algum destaque é dado aos personagens secundários. Cheryl, por exemplo, se revela como mera caricatura, trabalhada sem nenhum cuidado. O único coadjuvante que consegue se sair razoavelmente bem é o Juiz Nelson (Fred Melamed, que curiosamente já interpretou um juiz em The Good Wife), cujas tiradas irônicas funcionam bem na maior parte do tempo, por conta do apurado timing do ator.

Por isso, Benched se apoia demais em sua protagonista. E Coupe se esforça bastante para dar vida à sua personagem. E faz um bom trabalho. Na primeira metade do episódio, é muito prejudicada pela falta de qualidade do roteiro, se aproximando demais de uma caricatura. Mas nos 10 minutos finais é Nina quem consegue provocar algumas risadas no espectador, através de algumas piadas dinâmicas e eficazes. Essa agilidade falta no começo do episódio, e mesmo quando se encontra parece um pouco fora de ritmo.

É exatamente essa metade final que evita que Benched seja um total desastre. Embora a série não chegue a demonstrar um potencial incrível de se tornar uma comédia brilhante, é possível ver que, pelo menos quando se trata de sua protagonista, Watkins e Jones são capazes de fazer o espectador rir. Na verdade, quando se trata de comédia, se a série consegue não ofender seu público através de piadas terríveis, podemos considerar que há alguma chance de se tornar algo agradável.

Assim, se Benched tem claros problemas com a construção de piadas e aproveitamento de personagens, e faz um piloto bastante problemático, isso não significa que o episódio não tenha suas qualidades. Eu, pessoalmente, não pagarei para ver. Mas certamente não julgo quem o fará.

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