Populismo, como significado de origem, é a simpatia pelo povo. Politicamente falando, no entanto, isso vai totalmente no caminho contrário já que o povo é usado como uma massa disforme de manobra para que as razões mais escusas sejam digeridas como motes de mudança e crescimento. Tal vertente política floresce geralmente nos momentos de maior crise, quando a população sofre com desemprego, violência e um certo estágio de falência econômica. Raros são os casos em que tal artimanha dá certo, porque em sua maioria, serve somente como uma válvula de escape para que o pior da humanidade seja colocado para fora. Só que em equações sociais do tipo a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. Uma Noite de Crime se utilizava da consequência de tais escolhas e suas sequências foram aprofundando (e maior ou menor escala) os resultados. Esse quarto volume, A Primeira Noite de Crime (The First Purge, 2018), resolve voltar no tempo para mostrar a origem de tudo, mas não poderia estar mais errado em sua execução.

Os EUA se encontram em colapso. A população na tentativa de mudança deposita a confiança no Partido dos Novos Fundadores, que prometem a recuperação da até então grande nação americana. Como solução eles propõem um experimento. Durante um dia do ano, pelo período de 12 horas, todos os crimes são permitidos (inclusive o assassinato). Isso é uma chance de o povo expurgar todas as suas frustrações sem sofrerem as consequências de seus atos. O que parece ser uma ideia perfeita vai aos poucos se mostrando um cruel plano de governo orquestrado para eliminar as parcelas mais carentes da população.

A Primeira Noite de Crime
A Primeira Noite de Crime

Mesmo com a latente carga política imbuída no roteiro, os dois primeiros filmes flertavam mais com a noção do torture porn, de colocar o ser humano “comum” como o monstro da situação. Entretanto, nos dois últimos volumes (principalmente com ascensão de Trump ao poder) os filmes foram ganhando um presente e visível contorno político, tocando em feridas abertas no tecido social em que vivemos atualmente. Mas, ao contrário de “O Ano da Eleição”, esse quarto capitulo perde bastante em sua força cênica. O roteiro de James DeMonaco continua afiado, quase dando uma aula de politica atual, mostrando todos os pormenores de como tal situação chega ao ponto de colapso, mas a direção de Gerard McMurray peca em não conseguir manter a mesma força.

Todo o valor de produção do filme mina a potência da narrativa. Tudo parece muito amador, sem uma firmeza ou coesão entre os núcleos e passagens. É como se tivessem resolvido fazer uma versão de baixo custo da franquia em formato de filme para televisão. Só que nem mesmo na televisão a qualidade seria tão ruim (a série está aí para provar). Não há sentido de urgência, de ameaça ou de revolta social. Tudo é jogado de maneira preguiçosa na tela e faz com que os 97 minutos de projeção sejam maçantes. Efeitos, cortes de câmera e cenografia são básicos e em alguns momentos artificiais demais.

A Primeira Noite de Crime
A Primeira Noite de Crime

O elenco também não ajuda. O único nome de peso é Marisa Tomei (com um cabelo loiro horrendo). O resto dos atores vem da televisão ou são relativamente desconhecidos (Y’lan Noel, Lex Scott Davis e Joivan Wade). A decisão de separar os personagens em núcleos isolados que vão se unindo no decorrer as 12 horas também é algo que talvez fosse bonito no papel, mas que ao ser transposto para a tela fica carente de credibilidade, principalmente no clímax saído direto de algum dos filmes da franquia “Duro de Matar”.

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A Primeira Noite de Crime tinha potencial para ser uma crítica poderosa contra o lado mais cruel do ser humano e como ele é alimentado pela ignorância e o senso de impunibilidade. Mas acaba sendo somente um filme de terror genérico que perde a chance de trabalhar uma narrativa atual de modo mais proeminente. Principalmente em tempos eleitorais no Brasil, onde preconceito, ódio e intolerância ganham contornos de defesa da moral e dos bons costumes familiares nas mãos de falsos bastiões. O que está pior sempre pode piorar ainda mais.

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REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
primeira-noite-crime-roupagem-genericaA Primeira Noite de Crime tinha potencial para ser uma crítica poderosa contra o lado mais cruel do ser humano e como ele é alimentado pela ignorância e o senso de impunibilidade. Mas acaba sendo somente um filme de terror genérico que perde a chance de trabalhar uma narrativa atual de modo mais proeminente.