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Garth Ennis abertamente não só tem uma relutância a religião, mas também aos super-heróis. E Tio Ben manda um oi. Pera lá… volta. Leia de novo! E o leitor poderá pensar: “Aos super-heróis? Mas ele não vive no meio dos quadrinhos? Já não trabalhou para várias editoras de super-heróis?” Simmm! Este quadrinhista é um combo de estranheza e realismo gore, e por conviver realmente, diga-se de passagem, não o impede de tecer severas críticas ou ter amizades com pessoas do meio. E a “deixa” agora citada do universo do Homem-Aranha: “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, é uma das estruturas narrativas das HQ’s que ele mais problematiza em sua obra. Em Preacher ele escancara isso com Jesse Custer:

“Se eu começasse a dar uma de Deus pra cima das pessoas com esse meu DOM, só pra facilitar a vida, quem seria eu pra falar em responsabilidade? QUEM TEM PODER TEM QUE USÁ-LO DIREITO”

Na saga preacheriana, Ennis mostra que Deus é um despreparado para lidar com sua criação e todas nuances sob sua guardiania (leia mais aqui). E ficar botando a culpa no livre arbítrio para os erros que o homem vem cometendo desde que foi criado, e consequentemente, com os demais seres da criação, não passaria também, de uma desculpa para algo que não foi bem planejado ou criado erroneamente. Se ELE É DEUS, usasse o seu PODER direito.

Voltando ao Homem-Aranha, e independente das leituras feitas nos cinemas e nas edições posteriores, a tão famosa frase do Tio Ben, é um problema que misticamente foi glorificada como a via sacra para uma redenção dos super-heróis. E verdade seja dita, a morte do seu tio, é fruto da irresponsabilidade do Peter Parker, história contada em Amazing Fantasy #15, 1962, e o eterno sentimento de perturbação que vai ser o fantasma mental do Homem-Aranha por toda a sua vida:

A leitura negativa disso, é que o homem tem que ser responsável pelos seus atos, a positiva, a verdade cristã para a humanidade, um eterno sentimento de culpa por não ser “perfeito”, e o padecimento do erro devido a primeira criação, ADÃO. O que é terrível pelo simples fato de levar os indivíduos mais apegados aos dogmas, uma disposição para ter medo, “ou”, uma possível ida sem volta para o Inferno. Claro que neste jogo da salvação, tem o “perdão”, mas também, marcas mentais que poderiam levar o homem a loucura por não conseguir lidar satisfatoriamente com sua responsabilidade pelo PODER que lhe é concebido, e sempre corrompido pelo livre-arbítrio.

Se Garth Ennis via Jesse Custer por Preacher, estaria dizendo que a religião não deveria existir por sua existência criar mais problemas do que soluções, onde entraria sua estranheza com os super-heróis? Com o próprio Jesse Custer trazendo na sua alcunha elementos chaves da filosofia dos super-heróis, que são o trauma de infância e o uniforme + superpoderes, respectivamente inaugurados por Batman e Superman, que somado a responsabilidade do poder inato ou adquirido do Homem-Aranha, formariam a Trindade dos Quadrinhos. E Jesse Custer encarna perfeitamente isso: 1) Sofre de um grave trauma na sua infância; 2) adquire um superpoder; 3) Sentimento de culpa pelo o que ele é; E por último de bônus, ele anda fantasiado. Garth Ennis é genial.

Ennis tem um intuito, anunciar a morte da religião em Preacher, como também, a dos super-heróis. Que em partes concordo, e até diria que entramos num mundo Pós-Religião e Pós-Super-heróis com a existência dessa HQ neste tipo de narrativa. E é justamente isso que é interessante no período que ela foi lançada. Uma obra que estava antenada com o seu tempo, mas não uma obra datada, ela se fará presente por uns bons anos.

No quadrinho Pro, a desconstrução ennisiana dos super-heróis é feita num tom cômico bem escrachado contando a história de uma garota de programa que ganha superpoderes, e a difícil incumbência de como saber usá-lo, e o recrutamento para a Liga da Honra:

Num mundo cada vez mais “decadente” anunciado em Preacher, tem como não achar relevante suas releituras de super-heróis clássicos num homossexualismo pop, beirando muitas vezes ao pervertido? Uma moralidade exageradamente louca numa vigilância constante sobre o que os outros estão fazendo? Um heterossexualismo machista nu e cru? Uma mulher querendo dizer que caso o homem pode viver como o Rambo se achando o tal, qual o motivo dela também não ser assim, já que o Rambo não passaria de um personagem como qualquer outro que o ser humano executa? Não condene a primeira leitura quando alguém fala ou escreve que Garth Ennis só quer chocar. Sua obra tenta dizer que o homem tem problemas mais necessários para lidar, do que os criados pela religião, ou por escapes exagerados pelas leituras de quadrinhos de super-heróis.

E Pro, fica tentando dizer que ela é um sujeito que não é separado de sua história, não importando se ela vai continuar sendo ou não futuramente garota de programa, diferente dos super-heróis que vivem uma dupla existência. Em um momento ela fala:

 “ÉÉÉ… Nada mau, hein? Mil boquetes numa noite! Essa super-rapidez vai me deixar rica…”

O Santo superman, se assusta, e Pro continua:

“Não vejo por que não. Todos vocês têm identidades secretas e trabalhos normais… Bem, este é o meu. Que mal há em tornar minha vida mais fácil?”

E novamente temos a fala da responsabilidade do poder inato ou adquirido em um dos seus personagens. A passagem acima é uma via negativa para isto, que é sobre alguém que só quer viver a vida, somente isso. E sem a mística dos quadrinhos, que nas entrelinhas ennisianas, resgataria um poder metafisico das religiões, uma via positiva para os seus atos. Em Ennis, digo sem pensar duas vezes, os super-heróis apenas seriam releituras de apóstolos, deuses e profetas das religiões passadas. O Superman é o que melhor encarna esta missão. Não existe profeta maior, “o grande deus encarnado” nos quadrinhos.

Numa outra HQ sua, Blood Mary – Dama da Liberdade, 1997. Mary Malone luta contra Achilles Seagal:

Um reverendo porta-voz de Deus na Terra que deseja engravidar só 144 mil mulheres!!! A história se passa na Babel do mundo contemporâneo, Nova York/2012 (recomendo). Quando não é diretamente, é indiretamente a religião retratada nas HQ’s de Garth Ennis. A enorme quantia de pessoas agora citadas, é uma referência bíblica tirada de Apocalipse para o fim dos tempos.

Para melhor entendermos um pouco a vida e história de Garth Ennis e sua repulsa com os super-heróis e o surgimento de Preacher, vamos voltar ao Estados Unidos do começo do século passado.

Entre os anos de 1914-1918 (Primeira Guerra Mundial), já era evidente que os Estados Unidos seria uma potência global de proporções ainda não visto em nenhum país após a Revolução Industrial. Neste período, foi o fornecedor principal de uma variada quantidade de produtos industrializados para uma Europa desestruturada. Entre eles, alimentos era um item essencial. Tudo é claro, envolvido por boas taxas de empréstimo.

Findando a guerra, surge o American way of life. Os EUA se “tornam” um modelo de estado social. A América na década de 20, detinha praticamente 50% da produção industrial do planeta. Era dinheiro que não acabava mais enchendo os cofres estadunidenses. Já em 29, faltava compradores para sua produção industrial. Acontece a Grande Depressão, chega a “quinta-feira negra”. No dia de 24 de outubro de 1929, acontece a quebra (crack) da Bolsa de Valores de Nova York. Tamanho choque econômico, levou a falência de várias empresas, o terror social toma conta das ruas, e o desemprego em massa. A crise durou até 1933, e o crescimentos de sua economia só veio atingir novamente um apogeu estratégico, após o New Deal do Franklin Roosevelt e o fim da 2ª Guerra Mundial.

É neste período que os Comics atingem o seu auge em migração direta das tirinhas de jornais. Os jovens precisavam ter sua moral e esperança restaurados para servir de guia numa América decadente.

RESQUÍCIOS DOS SUPER-HERÓIS QUE ESTAVAM POR VIR

Uma das primeiras histórias de sucesso se iniciam com Tarzan de Hal Foster, e Popeye de Elizie Crisler Segar, ambos de 1929. Embora, o menino da selva ainda não representasse a personificação de um herói, tinha um jeito atlético, demonstrava ser forte. E com o marinheiro comedor de espinafre, a força sobre-humana dado a um homem. Ambos já anunciando o que estava por vir, o surgimento dos Super-heróis.

Com valores relativamente baixos, o foco dos Comics, não era a qualidade, mas a grande vendagem de massa com a construção de um futuro ideal, que com sua popularização, foi preciso criar mais e mais heróis, mas não ainda os super-heróis. Embora histórias de aventureiros, semideuses e homens de máscaras pipocavam, faltava algo. Só em 1938 no mês de junho, que veio surgir o primeiro super-herói, o Superman pelas mãos de Jerry Siegel e Joe Shuster. Com ele se inicia o Primeiro Elemento X das HQ’s: Super Poderes.

A bem da verdade histórica, utilizar um uniforme não era novidade, pois o Fantasma (1936), já trazia o título de primeiro herói mascarado dos quadrinhos, enquanto a identidade secreta, já era uma criação antiga, e usada magistralmente pelo Zorro (1919), só citando dois exemplos clássicos.

No ano de 1939, quem surge, o Batman de Bob Kane. Que não é novidade para ninguém, que a DC (antiga National Periodical) queria um super-herói nos moldes do Superman, em outras palavras, visando o lucro pelo lucro sempre (e a gente besta que é, nunca deixando de consumir, risos). E com ele, surge o Segundo Elemento X das HQ’s: O trauma de infância. Batman se tornou um fenômeno tanto quanto seu rival de mercado agora citado. E com o “homem-morcego”, os quadrinhos ganham um novo rumo. Ninguém poderia ser o Superman, ele era um super-herói idealizado (sempre foi e será). Já com Batman não, com treinamento específico qualquer um poderia ser como ele (com muito treinamento é verdade, risos), e de reboque, o Robin. Se você não pode ser um, pelo menos o outro mais “atrapalhado”, poderia ser. Claro que o Batman trazia algo do Fantasma e de outros heróis, mas o cuidado na identificação de fazê-lo existir para ser um fenômeno, foi espetacular, parabéns DC!

Vem a década de 60, Stan Lee com a Marvel, ajuda imensamente na construção humanizada dos super-heróis. Em 62 surge o Homem-Aranha (Spider-Man), inaugurando o Terceiro Elemento X das HQ’s: A Reponsabilidade devido a um poder inato ou adquirido. E na junção dos três, toda uma era de super-heróis foi moldada pela Trindade dos Quadrinhos.

PERÍODO EMOCIONAL DAS HQ’S

Se fôssemos dividir os super-heróis em eras, a primeira era, seria do Super-herói da Perfeição com sua temporalidade entre a década de 30 e 50. Existia algo de divino neles. Por isso o Superman até hoje é conhecido como uma leitura Pop de Jesus Cristo, de moral exemplar, e comportamento social de pura inspiração. A segunda era, compreendida entre a década de 60 e 70, é a do Super-herói Humanizado. O mercado é extremamente concorrido, o “super-herói deus”, precisa ser encarnado, fazer parte da vida diária das pessoas. É preciso criar uma identificação com o cotidiano do jovem americano. Vem a Guerra do Vietnã em 1975, caso Watergate, Guerra Fria, suposto ataque nuclear… E super-heróis com ares mais agressivos começam a surgir, e aqui se começa o arquétipo do anti-herói. O Justiceiro foi um, criado em 1974. A terceira era, é a do Super-herói Des-heroizado na década de 80 e 90. Aqui temos a maturação do Anti-herói. Um pouco antes, tivemos Wolverine em 1974. E Demolidor por Frank Miller em 1979. E nunca deixando de citar, em 1983, surge Lobo, um humanoide alienígena sem freios na língua, imoral, altamente violento, e capaz de matar tudo de vivo que surgisse a sua frente, menos os golfinhos espaciais! (Até os mais brutos são capazes de amar, risos).

Um dos personagens drasticamente alterados no período, foi o Superman, que cometeu um assassinato pelas mãos de John Byrne (1986-1988). Algo quase impossível de ser pensado em se tratando de quem é.

No ano de 1986, Batman por Frank Miller em o Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight Returns) recria a história do homem-morcego numa Gotham como deveria ter sido criada antes. Aqui não temos um Batman existencialista em seu sentido filosófico kierkegaardiano, preocupado com sua morte, mundanidade e angustias que um mundo em caos poderia lhe causar. É brutal, forte, um anti-herói por excelência, e disposto a não se curvar perante o sistema, é o criador das suas leis. Como era de esperar, Superman até aqui, continua com o seu “moralismo cristão” numa missão de levar a “luz” para deter o perigoso Batman.

Ainda em 86, surge Watchmen questionando a existência de super-heróis com seus superpoderes com aventureiros fantasiados num universo com o contexto da guerra fria numa discussão psicológica, ética e moral dos seus personagens.

E para surpresa de muitos, os quadrinhos americanos não paravam de chocar. O ideal moral da Era de Ouro, a primeira era, a do Super-herói da Perfeição, já não era mais possível de ser cogitado. E no ano de 1988, o evento mais nonsense acontece. A DC resolve matar um personagem numa campanha nacional votada por telefone. O infelizardo escolhido, foi o Robin, na época vivido por Jason Tood. Em uma bizarra votação de 36 horas, o parceiro do Batman é assassinado num grande espetáculo, quer algo mais anti-herói do que isso?

NO FATÍDICO ANOS 90

Período sombrio para os quadrinhos. Se lá fora era discutido o rumo que iriam tomar em cada ano desta década, só para contextualizar, o Brasil se regozijava com É o Tchan com seu enorme sucesso Na Boquinha da Garrafa em 1995. Questões de prioridades né meu povo? Se lá fora, os quadrinhos apesar de histórias pavorosas, não deixavam de ser um reflexo do momento histórico americano, vide o caso O. J. Simpson (1994) e tantas outras situações sociais duma América que precisava resgatar um pouco de brilho moral dos quadrinhos de outrora, aqui… Carla Perez mostrando que o Brasil poderia descer até o chão (e desceu literalmente na política atual).

Um pouco mais de contexto histórico, também foi criado no período a Image Comics, 1992, que descaradamente era uma cópia de vários personagens históricos das HQ’s, só que agora, com mais violência, mulheres sensuais com partes exageradas e corpos volumosos em uma explosão de venda de personagens personificando uma enorme gama de anti-heróis. Não estava tranquilo, nem favorável para a Marvel, muito menos para DC.

Se matar o Robin marcou um dos momentos mais vergonha na alheia nas HQ’s até então, é em 1992, que o troço atinge a irrealidade por causa de um mercado totalmente na espera de um empurrão para ser quase seputado. A DC arrasada comercialmente, devido ao sucesso da Image Comics e outros vieses quadrinhísticos, resolve matar o Superman. É lógico que a DC vira o holofote dos quadrinhos mais uma vez. E “o novo jesus” na pele deste super-herói, é morto em pleno século XX. É chocante um ícone sócio místico-religioso americano ser “assassinado” pelo Apocalypse num vil e caricato ato de lucrar. E o Superman ressuscita (alguém duvidou?), com cabelos longos numa estranha mistiscência a Jesus retratado pela cristandade Europeia. A Image Comics até podia ser a bola da vez no universo dos quadrinhos, mas era a DC que brilhava, mesmo que bizarramente, tanto foi, que Batman/1993, também teria que sofrer, ele fica paralitico na saga a Queda do Morcego (sem palavras para a sua cura, e paro por aqui). A DC é mestre em estragar a amizade. Coincidentemente, Superman e Batman iniciam e fecham um imenso arco criativo nas histórias dos quadrinhos, depois disso tivemos Preacher, aí o mercado alcança um novo patamar.

Não é exagero dizer que Preacher estava no lugar que deveria ser seu na hora certa. Jesse Custer tem na sua pele vários elementos morais (ressignificados da religião) da era de ouro dos quadrinhos; a humanização da era de prata; e a degeneração da era de bronze. Impossível não ser o sucesso que foi nos anos de sua missão preacheriana. Garth Ennis é da zueira, e ninguém me faz pensar o contrário, que Jesse Custer não passa de uma releitura também de “Jerry Siegel e Joe Shuster”, quem, quem? Os criadores do Superman.

E aqui estamos tentando mostrar a relevância do surgimento de Preacher, seu valor narrativo, sua crítica a religião. O modo imersivo de suas histórias carregadas de religiosidade e simbolismo. O modo ennisiano de lidar com super-heróis nas suas obras, como também, sua polêmica ida para a TV.

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Fayez Knon
Professor, e nas outras horas viciado em séries (um série maníacos, rsrs). Sempre assisti mais séries do que filmes, e isso desde criança. Gosto de TV Shows desde uma comédia a um drama ou do suspense a uma ficção científica. Se a trama é boa, vale o meu momento assistindo.