O equilíbrio que Powerless precisa encontrar entre super-heróis e sitcom não parece mais um objetivo tão distante. Emily Dates a Henchman consegue juntar os dois aspectos até que bem, provando que a reformulação pela qual a série passou a poucos meses de ir ao ar pode ter sido uma boa ideia. Se antes o seriado prometia não se misturar tanto com o universo da DC Comics, ele é agora a salvação do programa.

Vamos começar pela trama secundária, que explica melhor a afirmação acima ao colocar Teddy, Ron e Van atrás do Batman, que perdeu um batarang. Essa história tinha tudo para dar errado, porque seria bem desonesto provocar a audiência com uma aparição do maior herói da DC e não o mostrar no final – algo que sabemos aconteceria porque Powerless não pode mostrar os grandes heróis da editora. No entanto, os roteiristas conseguem escapar desse problema de maneira criativa e engraçada ao fazer com que o Cavaleiro das Trevas não seja visto pelo pessoal da Wayne Security. E eles ainda dão um jeito de colocar Alan Tudyk vestido de Robin, o que por si só torna o episódio melhor.

Essa trama mostra como o conceito da série pode funcionar bem quando explorado com criatividade, e a mesma coisa acontece com a trama principal. É claro que, num mundo onde nenhum vilão age sozinho, a carreira de capanga é uma opção atrativa para pessoas comuns. Esse tipo de fato vai dando forma ao universo da série, que precisa encontrar um tom e se estabelecer para dar fundo e verdade às situações exploradas. E agora que Emily e a equipe da Wayne Security se relacionam bem (aliás, já se passaram seis meses em quatro episódios), Jackie quer que ela encontre um namorado, tanto para esquecer seu ex, que está de casamento marcado, quanto para que os dramas dela virem problema de outra pessoa. Mas logo fica claro que Dan, o escolhido por ela, é um capanga do vilão Charada.

Os roteiristas decidem pegar um caminho simples: em vez de se negar a acreditar e levar um tombo, Emily percebe o problema quando seus amigos explicam a situação e ela decide terminar com Dan. E, no final, tudo não passava de um plano do Charada para roubar tecnologia da Wayne Security. É simples, mas funciona. Powerless ainda tem muito que melhorar, mas humor e personagens estão começando a dar certo juntos, com a ajuda do universo que têm à mão, e nada parece tão forçado quanto parecia no começo. O problema é que agora a série corre contra o tempo para provar seu valor, uma vez que a audiência continua baixíssima.

1×05: Cold Season

 

Depois de dois episódios mais que razoáveis, Powerless volta a cair. O elemento mais atrativo da série desapareceu essa semana, quando os roteiristas deixam o mundo de super-heróis de lado e focam a trama principal em um dos coadjuvantes: Teddy inventou uma luva que aquece objetos e Emily decide submetê-la à Wayne Innovation Contest, um concurso de inovação tecnológica. Acontece que o engenheiro é muito inseguro, consequência de passar a vida toda à sombra de um irmão bem-sucedido, e alterna entre ter nenhuma e ter autoestima demais.

Em tese, colocar Danny Pudi no centro das atenções deveria dar certo, uma vez que o ator tem um timing de comédia muito bom e sabe interpretar personagens excêntricos como ninguém, mas o roteiro não consegue vender a insegurança de Teddy como interessante ou importante, já que esse complexo de inferioridade só aparece em casos muito específicos, não interferindo no seu comportamento rotineiro e, consequentemente, nos episódios. Além disso, o roteiro não faz nada muito criativo com a situação em termos de humor, algo que havia melhorado nos últimos episódios.

O título do episódio refere-se ao início da temporada de frio em Charm City, o que significa que os vilões “de gelo” (como Mr. Freeze, Captain Cold e Killer Frost) vão dar as caras pela primeira vez no ano. A tal cold season justifica a história da trama principal, mas não faz diferença para a secundária, que vê Ron lidando com ordens malucas de Van Wayne. Isso evidencia ainda mais a indiferença dos roteiristas para o que deveria ser o chamativo da série, um mundo de super-heróis visto pelos olhos de cidadãos comuns, e faz a série voltar ao campo da mediocridade essa semana.

Powerless ainda sofre para encontrar uma identidade própria. Os roteiristas parecem se preocupar mais em enfiar referências à DC Comics na história e forçar algumas piadas genéricas do que com criar uma comédia onde os personagens são interessantes por si só, não dependendo de outros elementos para conseguirem uma risada do público.

É até injusto mencionar outras workplace comedies da NBC aqui, mas o que ainda falta a Powerless é exatamente o que séries como Parks & Recreation e 30 Rock tinham de sobra: um universo bem estabelecido (e aí entram não só o contexto em que os personagens se encontravam, mas detalhes como piadas recorrentes e pequenos fatos que davam um senso único aos programas) e personagens que, de tão bons, são lembrados até hoje pelo público.

Só uma observação:

– O código de produção de Cold Season indica que esse episódio deveria ter sido o terceiro a ser exibido. Como os dois melhores episódios da série são os dois que viriam depois desse e acabaram vindo antes, talvez a série ainda tenha salvação. Vamos aguardar o da semana que vem e torcer por isso.

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