Strike a Pose. 

Nova York, como diz a canção de Alicia Keys, é a selva de concreto para qual os sonhos são feitos. Provavelmente todo mundo que cresceu consumindo grandes doses de cultura pop tem Nova York como um centro de catarse, em que todas as ruas e esquinas vão lembrar esse ou aquele filme, aquela ou outra cena. É uma cidade realmente lúdica e provocativa. Mas, ela também tem seus fantasmas, seus esqueletos no armário; e a Hart Island é um deles. De fato, toda a área que compreende o pequeno complexo de ilhas ao norte do Bronx padece de um passado macabro. A Brother Island é a maior, tendo sido o “depósito” de doentes contagiosos desde os anos de 1800, quando ocorreu o primeiro surto de febre tifoide. A ilha Hart, vizinha, voltou a aparecer nos noticiários recentemente, quando moradores próximos começaram a reclamar dos esqueletos humanos que surgiram visíveis por conta dos anos de erosão. 

Como mostrou a sufocante abertura do episódio inicial da segunda temporada de Pose, a ilha Hart era um cemitério de indigentes vítimas do HIV. Foi o choque inicial, o primeiro tabefe que a dramaturgia da série encomendou em meio a suas escolhas complexas de morte, esperança e vogue. Por mais horrível que pareça nenhuma daquelas tomadas, absolutamente nenhuma delas, era parte de uma “licença poética” do roteiro. Encaixotados e enfileirados aos montes, os mortos do HIV chegavam em pilhas todos os dias (como se pode ver no vídeo abaixo). Em 100% dos casos, rejeitados pelas famílias e muitas vezes incapazes de terem um enterro adequado por falta de dinheiro ou de apoio (já que as mortes dizimavam grupos inteiros de amigos e conhecidos).  Apesar da ilha não ser mais um lugar para enterro de indigentes, está totalmente abandonada, como uma referência irônica ao objetivo pela qual ela foi ocupada.

Pose não pode ignorar a obscuridade daqueles anos. Otimista, esperançoso, Ryan Murphy sabe que as vidas de Blanca e Pray Tell são a parte vulnerável dessa história toda, que eles caminham por ali, entre as pedras, tentando esquecer o tempo todo que ali podem estar eles daqui a um mês, 5 meses ou um ano. Blanca recebe as notícias a respeito de como o vírus se espalha em seu corpo e já sabemos que tempo, tanto para ela quanto para o amigo, é tudo que eles não têm. Ter AIDS era estar morto; e o AZT era uma esperança distante (que muitas vezes podia acelerar a degradação). Foi uma abertura triste, dura, pesada, mas coerente com a história. Às vezes soa quase fantasioso, inverossímil, que tenhamos vivido uma época em que o mundo acreditava que o HIV era a “resposta de Deus” à praga homossexual que assolava o mundo, matando milhares, enquanto parecia que ninguém estava disposto a realmente ouvir os pedidos de ajuda. “Você só precisa se manter viva o suficiente para esperar pelos remédios melhores” 

Vogue is the new hope 

Pose esclareceu seus objetivos logo de cara: agora estamos em 1990 e essa é a temporada da luta contra o HIV e da busca por um lugar na engrenagem social. Vogue, da Madonna, surge em cena como outra inevitabilidade. Lançada nesse mesmo ano, a música era outra prova do pioneirismo e do senso mercadológico da cantora. Madonna foi trazer à luz a cultura dos bailes, se tornando quase proprietária do estilo, estampando no próprio trabalho uma defesa à comunidade gay como nenhum outro artista tinha feito antes. Dois dos dançarinos do clipe (que também foram para a turnê) eram membros da lendária casa Extravaganza e temos até mesmo no Netflix um documentário chamado Strike a Pose, que conta a história de todo o corpo de dança que acompanhou Madonna na turnê daquele ano (muitos deles assombrados também pelo HIV). 

A canção, então, era um grito de esperança. Blanca se agarra nele com toda força. Ela precisa colocar cada um de seus filhos no caminho certo e precisa fazer isso rápido. Vogue a inspira e Angel vira a primeira providência a ser tomada, sendo perfeita para tentar uma carreira de modelo. Nós, aqui desse lado, sabemos que isso não será fácil, sabemos que por mais que Madonna tenha sido uma voz preciosa para a comunidade (e do qual seremos gratos para sempre), ela sozinha não poderia mudar a força da correnteza. Uma correnteza que não abraça, mas que explora. Os gays, as travestis, as trans, de repente podem ficar interessantes, podem despertar curiosidade, mas isso não garante uma porta aberta. Quando Angel é sexualmente explorada pelo fotógrafo, é o roteiro sinalizando para Blanca que ela não pode correr contra o tempo da mesma maneira que o tempo corre contra ela. Ela precisa de resultados rápidos. Olhe para o mundo como está hoje… Avançamos pouquíssimo perto do que precisaríamos avançar. 

A urgência de Pray Tell não envolve filhos, mas com o elogiado desempenho de Billy Porter era natural que o personagem ganhasse ainda mais destaque. Desde a temporada passada ele vem assistindo a morte consumir tudo a sua volta, natural então que a luta do grupo ACT UP virasse também sua luta. Madonna, ACT UP, todas formas diretas e indiretas de tentar se fazer ouvir, de chamar a atenção para o extermínio silencioso de uma parte muito grande da população. Na época, o governo não falava sobre a doença e quando uma revista popular resolveu falar, disse que mulheres não pegavam por contato sexual. As mulheres ativistas, então, acabaram também se organizando junto com ACT UP para prover melhores informações e apoio substancial aos infectados. O grupo promoveu uma série de ações importantes que foram cruciais para essa notoriedade e no vídeo abaixo vocês podem, inclusive, ver a versão real do protesto dentro da catedral da cidade.

Não podemos dizer com certeza, mas parece que os personagens de James Van Der Beek, Evan Peters e Kate Mara não devem fazer parte desse ano. De certa forma, esse núcleo teve seu closure e o reflexo é o direcionamento para outros focos. Os episódios ainda estão muito bem escritos e dirigidos, mas de toda essa primeira hora o que mais causou ruído para mim foi a transformação de atitude de Elektra. Claro que a explicação virá (e a cena da virada de mesa foi INCRÍVEL), mas me incomodou um pouco pensar que independente de qual seja essa explicação, a coisa toda soa um pouco repentina. É como se com a renovação eles tivessem tido que reverter a personagem ao modo competição para garantir o clima nos bailes e na relação entre ela e Blanca. Não me entendam mal, o roteiro ainda sabe manipular isso tudo com qualidade e o exemplo disso é o momento delicioso em que Elektra entra vestida de Maria Antonieta (uma nova referência a Vogue, que foi performada por Madonna vestida de Maria Antonieta no VMA daquele ano) e toma um esporro de Pray Tell na frente de todo o clube. Aqueles não eram tempos para alienação e ela soava mesmo ridícula, usando a fantasia adequada para sua postura. Não importava a população passando fome, Antonieta simplesmente dizia “não tem pão? Que comam brioche. E a guilhotina? Meu Deus, a guilhotina… 

> GOOD OMENS – Final dos Tempos com nerdices e Queen! ft Mikannn!

Enfim, o episódio compensou sua abertura tensa com um final otimista, como é típico de Ryan. A passarela tomada de vogue, uma sensação intensa e real de que poderia haver uma saída para evitar toda aquela dor e aquela morte. Pose, nesse sentido, fica ainda mais forte. Somente hoje, em plenos anos 2000, é possível ver na TV atores gays, trans, dizendo o que precisa ser dito, sem censura, sem pudor, mas ainda com medo. Sim, porque o monstro do reacionarismo sempre espreita – com pele alaranjada ou nome de messias – ameaçando qualquer conquista, mesmo que ela seja mínima. Que nunca calemos, porque o silêncio, como diz o slogan do ACT UP, mata.

REVISÃO GERAL
Nota:
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pose-2x01-acting-up-season-premiereO episódio compensou sua abertura tensa com um final otimista, como é típico de Ryan. A passarela tomada de vogue, uma sensação intensa e real de que poderia haver uma saída para evitar toda aquela dor e aquela morte.