Um universo de muitos, em que nem tudo é para todos.
O universo cinematográfico da Marvel é pela falta de uma palavra melhor, um verdadeiro universo em grandeza, tanto financeiro quanto de exposição. Heróis que nunca tiveram grande apelo com o público trazem hoje (para os cofres da Marvel), uma montanha de dinheiro em produtos licenciados e bilheteria. Cerca de vinte anos atrás poucas crianças saberiam te citar três membros da formação original dos Vingadores, hoje elas já conhecem mais o Homem de Ferro do que do próprio Superman.
Contudo, a diversidade dentro da Big M não é tão grande assim. Foi com Homem de Ferro 2 e com Capitão América – Soldado Invernal, que tivemos a apresentação de heróis negros, como Sam Wilson (Falcão) e General Rhodes (Maquina de Guerra). E apenas em 2018, dez anos depois do lançamento do primeiro filme da casa, Homem de Ferro, que teremos um herói negro como DONO do filme e não apenas coadjuvante. E a aceitação do personagem em Guerra-Civil irá (podem apostar) ditar o direcionamento e a própria existência do herói neste universo compartilhado. Mas e os gays, por onde estão?
Torna-se incomodo notar que o mundo está cada vez mais diverso, mais miscigenado, culturamente diverso e a Marvel ainda insiste em não acompanhar. Em suas séries a Casa das Ideias não mostrou um personagem homossexual sequer. Victoria Hand, abertamente bissexual nos quadrinhos, teve passagem curta pela série, sem nunca mencionar sua sexualidade, nem mesmo uma fofoca de canto de agencia rolou. Os planos de fazer com que Isabelle Hartley (Lucy ‘Xena’ Lawless) confessasse um caso com a falecida agente – valeu Ward – da S.H.I.E.L.D. na segunda temporada foi por água abaixo. Racialmente MAoS é sim um primor, incluindo diversos atores das mais diversas etnias para interpretar seus personagens, já no quesito sexualidade, falta muita cor em uma série que deveria fazer de sua escala global algo mais… Globalizado. Onde estão os gays do MCU?
Agent Carter que priorizou o discurso feminista conseguiu até passar algo mais direcionado ao público gay feminino, mas apenas com a imagem de uma vilã altamente volátil, que mais queria ser Peggy, do que realmente ter Peggy Carter. Mas rolou selinho, o que não chega a ser perto do necessário, mas já é alguma coisa. #SaudadesDottie. Da representação feminina dentro das séries nós não podemos reclamar já que, de Skye a Raina, existe muito trabalho lá.

Em entrevista ao Hitfix, Steven S. DeKnight, o mesmo de Spartacus, série que exalava testosterona e ar homoerótico e local em que gays foram representados desde a primeira temporada, comentou a respeito da falta de existência e representatividade de gays em Demolidor, que se passa em Hells Kitchen, bairro que mantém uma quantidade absurda de bares gays:
É, às vezes a mudança vem lentamente, sabe? Passos de bebê. Você sabe que a Marvel é maravilhosamente inclusiva, mas você precisa chegar lá. Você sabe que eu tive muita liberdade, obviamente com ‘Spartacus’ eu não gostaria de nada além de incluir mais personagens gays, lésbicas e transgêneros. É encaixá-los neste modelo que eu acho que será um processo levemente lento.”
Sabe o que resume bem o depoimento do ex-showrunner da série de maior sucesso da Marvel? Eles ainda não querem, ou não estão preparados para lidar com os gays. Será que existem roteiristas LGBTI dentro da redoma dedicada a criar conteúdo para a TV e cinema? Ou será que o problema é Kevin Feige, o mesmo que declarou que “falta tempo” para desenvolver um filme com uma heroína? Será que esse é o problema com os personagens gays? Mas nem mesmo uma menção? Algo que vá além de um extra em um DVD? Se com as mulheres ainda é raridade, quando teremos um personagem assumidamente homossexual e que carregue a produção?
E o problema não é a falta de personagens importantes. Como já citei acima, Victoria Hand nunca foi apresentada como bissexual. Wiccan e Hulkling não deverão aparecer tão cedo, até porque, nos quadrinhos Billy Kaplan é filho da Feiticeira Escarlate, que só foi apresentada no recente Era de Ultron. Contudo, o próprio “lado de lá” com X-Men do Estrela Polar e o recente fora do armário Bobby ‘Homem de Gelo’ Drake, ainda não conseguiu incluir um personagem gay. Nenhum filme de herói o fez, nenhum e é assustador o que esse silêncio expõe. A quantidade de heróis e vilões gays dentro dos quadrinhos da Marvel e da DC são, por si só, pequenos. Com uma biblioteca contendo mais de cinco mil personagens [Marvel], você consegue contar nos dedos os que são abertamente gays e tem participação marcante nos arcos desenvolvidos. É um problema que assola ambos os lados, mas pelo menos na nona arte eles existem.
Mas não se preocupem, para cada Marvel não disposta e um DeKnight de mãos atadas, existe um Greg Berlanti, que em recente entrevista ao portal Advocate disse que pretende fazer com que os super-heróis da TV se pareçam com a ‘América’, que é composta por pessoas diferentes.

Não apenas personagens, mas você já parou para pensar em quantos atores abertamente gays foram contratados para interpretar heterossexuais em Arrow e Flash? Wentworth Miller, Victor Garber, John Barrowman e para coroar, Grant Gustin ator heterossexual que já interpretou um personagem gay em Glee e que com certeza fez muito marmanjo torcer o nariz, hoje não é apenas um personagem, mas o protagonista da série The Flash, que carrega nas costas um dos heróis mais icônicos da DC Comics, fundador da Liga da Justiça ao lado de caras como Superman e Batman. Isso sem comentar Andy Mientus, que interpretou o vilão Flautista, que é gay nos quadrinhos, enquanto o ator é assumidamente bissexual. A diversidade está transbordando pelos poros da DCTV e mais timidamente nos cinemas, com a escolha de Ezra Miller para viver o Flash na telona. Assim teremos a primeira dobradinha de heróis heterossexuais sendo interpretados por atores gays. Está bom? Não, ainda falta muito e com os direitos dos homossexuais cada vez mais sendo discutidos, aprovados e levantando discussão, as mídias têm por obrigação demonstrar todos os lados da realidade humana. Nós consumimos e merecemos existir.
Neste ponto a DC saiu na frente, nela nós já assistimos ao romance conturbado entre Renee Montoya e Barbara Kean, de Gotham. Nyssa e Sara, em Arrow e o capitão David Singh, de Flash. Lá em Smallville encontramos também uma personagem lésbica, Tina Greer, mas o beijo só aconteceu quando ela assumiu a fisionomia do namorado da Lana, Whitney. Enquanto a gestação da diversidade da Marvel está no último trimestre, os passos de bebê que DeKnight mencionou já teve seu início na DC, há um tempão.
E não é uma questão de má representação, ou a justificativa de que não faz sucesso, porque eu torci mais por Sara e Nyssa do que por Oliver e Felicity. Assim como sempre desejei que Jemma Simmons, ou Leo Fitz de Agents of S.H.I.E.L.D. se revelassem, em determinado momento, gays e existiram cenas e momentos que corroboram sim a expectativa. Eu não sei o que é pior, não incluir, ou incluir de uma forma estereotipada e nem um pouco condizente com a realidade e talvez esse seja o medo da Marvel, afastar ambos os públicos. O problema é que a invisibilidade, ou não existência, fere tanto quanto a má representação. E no mundo da Big M nós simplesmente não existimos.

Já os números, eles são bons sim. The Flash com seus personagens gays, atores gays e diversidade racial emplacou os melhores números da CW em anos, em alguns pontos superando a própria Agents of S.H.I.E.L.D. e Agent Carter, que possuem o apoio de blockbusters como Vingadores e Capitão América por trás. Então, dizer que o público pode não reagir bem é conversa para Bessie dormir, não cola. Falta coragem, falta alguém disposto a colocar a cara no sol e assumir, de uma vez por todas, que gays também podem salvar o dia, ou o universo. Yes we can, hunties!
Mas nem tudo está perdido, ou quase isso. Tudo indica que a personagem de Carrie Anne Moss em Marvel’s Jessica Jones será lésbica, com direito a casal e tudo mais. E vocês conseguem ver o que está acontecendo? O casal só será introduzido na série em que a mulher é o carro chefe, o que para mim soa como um pouco de receio de que o público masculino não aceite tão bem a presença da diversidade e é bem compreensível, os nerds, consumidores assíduos da cultura geek estão, lentamente, se tornando mais e mais excludentes de mulheres e gays. Mas não justifica viver do mais do mesmo, por medo de tentar algo novo e falhar. Fórmula batida não pode se tornar o mote da Marvel e um super-herói gay conseguiria sim mudar algo que já está se tornando comum: Ação, comédia e fim.
E você pode pensar que tudo não passa de uma besteira, ou que a sexualidade do personagem não impõe uma real importância, afinal, não queremos romance, queremos ação. Bom, eu quero um pouco de tudo e quanto mais diversidade, melhor. O grande X da questão, sim, X de X-Men, é o impacto que a diversidade racial e sexual impõe para quem cresce acompanhando o produto. Em recente estudo publicado por Nicole Martins e Kristen Harrison da Universidade da Indiana e Illinois respectivamente, foi prevista uma queda na autoestima das crianças que consomem o entretenimento televisivo, exceto para garotos brancos.
Nós descobrimos que a exposição à televisão predisse uma queda na autoestima de todas as crianças, exceto garotos brancos”
É um reflexo do que está sendo exibido hoje. Por sorte essas crianças têm Arrow e Flash para assistir, mas elas seriam tão beneficiadas se tivessem mais. Eu, como gay, adoraria ter crescido com um herói homossexual para me espelhar. O mundo é diverso, enquanto o dinheiro não assumir sexualidade, o produto estará sendo consumido por todos. Será que é justo representar apenas um? Não, não é. A Marvel ainda tem um caminho longo para percorrer. Não estou dizendo que quero ver o Visão e o Capitão América se pegando no próximo filme (seria interessante, confesso), só queremos mais espaço, já que a casa das ideias está sem ideias de como lidar conosco.
Veja como Wiccano e Hulkling trouxeram novos leitores para a Marvel, ótimas críticas e mesmo assim ambos estão, atualmente, em um limbo de participações. Não tem como negar que a representação dentro da mídia é sim importante. Enquanto milhares de jovens ainda se sentirem excluídos pela sociedade, sem alguém para se relacionar mesmo que em um mundo fantasioso, estaremos perdendo. Os tempos mudaram, o mundo mudou, mas o preconceito continua vivo e pulsante.
Todo mundo merece um herói para se espelhar e admirar. Meninos brancos, negros, asiáticos, meninas de todas as etnias e gays. É bom poder olhar para um super-herói nos cinemas, ou TV e pensar: Esse cara, eu poderia ser esse cara. Quando a Marvel, a mesma que criou uma Ms. Marvel muçulmana, uma mulher para ser Thor e um negro vestindo o manto do Capitão América, assumir que sua diversidade precisa sair das páginas, talvez lá nos seja possível ter personagens que realmente representem a todos. Mas tenho fé de que um dia nós ainda iremos comprar um combo de pipoca e guaraná, só para colecionar aquele copo da Feiticeira Escarlate e outro do Wiccano… Um dia.
Marvel, uma série para os gays, para os gays! *Ou pelo menos que existam gays.














