O sucesso da reprise de Por Amor mostra que Eduarda foi uma das personagens femininas mais fortes da controversa obra de Manoel Carlos.
As Helenas passeiam pelo Leblon e geralmente são acompanhadas de uma filha insuportável… As “mitologias” do trabalho de Manoel Carlos na TV são muitas, mas essas duas provavelmente são as mais fortes. E por uma razão bastante direta: o autor atravessou os anos 90 e início dos anos 2000 sendo festejado como um escritor capaz de captar a alma feminina e de criar mulheres fortes que sempre se destacavam mais em suas obras que os homens. Isso incluía a Helena santificada e sofredora que geralmente nutria um amor incondicional por uma garota mimada e egoísta. Isso se repetiu por três anos seguidos (História de Amor, Por Amor, Laços de Família), com os títulos de maior apelo e sucesso da obra; e acabaram criando essa mitologia ainda que em Mulheres Apaixonadas, Páginas da Vida e Viver a Vida, isso não tenha se repedido.
Olhando em retrospectiva, esse papo de “Maneco escreve sobre mulheres como ninguém” perde bastante força. Em suas novelas só existiam dois tipos de mulheres: as que eram as sofredoras e as que causavam o sofrimento. Estranhamente, quase todos os pontos de tensão e vilania de suas novelas eram protagonizados por mulheres; e não coincidentemente, também era recorrente o conflito em que a disputa por um homem era o que as tornavam completamente psicóticas. Havia sempre a jovem sexualizada, levando surras de cinto dadas por homens ou por mães desesperadas. Havia a ninfeta seduzindo o mais velho ou – como no caso de Mulheres Apaixonadas – um adolescente indo para a cama com uma mulher adulta. Manoel Carlos leu Presença de Anita ainda jovem; e aparentemente essa referência nunca o abandonou.
Enquanto em suas obras as mulheres se gabam de nunca trair ou de traírem apenas “por amor”, os homens colecionam indiscrições e são justificados em 100% das vezes. Traidores como o Carlos de História de Amor, o Atílio de Por Amor e o Fred de Laços de Família são perdoados porque tem uma mulher negligente ou megera. Outros como o Nestor (também de Por Amor) e o Danilo (de Laços de Família) são perdoados porque tem humor. E pasmem: há uma quantidade considerável de vezes em que o pivô da traição – uma mulher – é punida com a morte, apenas para que seus rebentos fiquem livres para serem criados pelas esposas traídas. Aconteceu com a Rita de Laços de Família, com a Fernanda de Mulheres Apaixonadas e – como vimos na reprise – com a Laura. As mulheres que traem em novelas de Manoel Carlos morrem, os homens são perdoados e criam felizes os filhos que tiveram fora do casamento.
Eduarda
O Brasil dos anos 90 e início dos 2000 era cego e surdo; e nem sabia. Esperto na maneira de conduzir suas histórias, o autor criava um cenário em que as filhas das Helenas ou começavam ou terminavam sendo odiadas. Por Amor havia vindo pouco tempo depois da Joyce de História de Amor, em que Carla Marins conseguiu fazer o país inteiro desejar imensamente dar uns tabefes na cara dela. E olha que ela levou vários. As mulheres de Maneco sempre apanham muito. Eduarda surgiu logo depois, mimada, arrogante, egoísta, sem identidade alguma e ainda por cima virgem. Sim, porque para Maneco uma mulher sexual como Laura, que bebia, fumava e falava palavrão não era digna do amor e nem do casamento. Eduarda, monocórdia e insípida, era bem mais “casável”. Havia um plano, é claro. O plano era mostrar seu amadurecimento, em que sua latente insegurança seria substituída por força.
Na época não funcionou. Após ser traída por Marcelo (aquele que talvez seja o personagem masculino mais imbecil da história), o roteiro do autor começou a construir corretamente a redenção de Eduarda, que foi muito compreendida por sua intérprete. Gabriela Duarte começa a história construindo uma mocinha parasita, que orbitava a figura do noivo perfeito. Mas, uma vez traída pelo marido com a mulher que mais a ameaçava (duas vezes, sendo uma delas na própria cama); só exigiu a coisa mais justa e óbvia: a separação. Cercada de pessoas que passavam 100% do tempo lançando frases do tipo “ele é homem, ele estava bêbado, ela oferecia, uma pulada de cerca nem é traição, é só sexo”, Eduarda buscou dignidade na sua postura de não perdoar facilmente o imenso deslize, adquirindo uma independência inicialmente calculada como vingança, mas que encontrava aos poucos a compreensão de que aquela era a melhor posição que uma mulher na mesma situação poderia ter. Mesmo certa, ela era publicamente odiada. Se algumas vezes personagens tem fã-clubes, no caso de Eduarda provavelmente ela teria hate-clubes. Não importava o quanto Gabriela se dedicasse, a redenção planejada dava a volta, atingia Marcelo e passava batida. Chata, pentelha, insossa… os adjetivos não paravam. Segundo o público, Marcelo era que não devia querer aquele perdão; mulher chata da porra, não é a toa que foi chifrada.
Firme, Eduarda recusava as desculpas esfarrapadas, não perdoava os machismos (que ela mesma um dia defendeu), revidava os gritos, as provocações, as manipulações, até as agressões. Em nenhum momento deixou de brigar, de se impor, de exigir, de não aceitar os termos que haviam sido estabelecidos. Eduarda parou de se submeter. Diante de uma correnteza tão forte que pedia até mesmo a morte da personagem, Eduarda resistiu aos absurdos culturais que tentavam obriga-la a perdoar sem querer (e sim por dever). Para que reconsiderasse, Marcelo precisou crescer e rever o próprio comportamento, reconquista-la, provar que merecia. É claro que em parte o plano era menos focado na velada posição política de Eduarda e mais em Maneco reforçando que de algum jeito as mulheres sempre voltam atrás. Para ele os homens perduram sendo perdoados porque entre uma traição e outra, há sempre a poesia. Mas, Eduarda foi odiada por todos os motivos que deveriam tê-la feito um exemplo. Na cena abaixo, ela dá o recado: “Acho que você me confundiu com uma de suas ex-namoradas, mas você se enganou de pessoa. Eu não sou nem PARECIDA com nenhuma delas”.
Sendo assim, esse texto é para pedir desculpas. Rever a novela serviu para reconhecer que em meio a tantos códigos femininos rasteiros da obra do autor, houve Eduarda, que teve a ousadia de exigir a fidelidade, lealdade e afeto que lhe eram de direito. Gabriela Duarte talvez tenha vivido a única personagem de Manoel Carlos que lutou bravamente pelos próprios direitos, pela própria dignidade, pela própria liberdade de seguir ou não com um relacionamento… E até de perdoar, se assim for. É curioso que as transformações sociais vividas na última década tenham dado outra camada para o trabalho do autor. O mundo não quer mais permitir códigos culturais ultrapassados e opressivos. Nós, principalmente, precisamos parar de celebrar Helenas e começar a prestar atenção na força das Eduardas.
Tadinha’s Notes:
- Ainda não superei o fato da revelação da troca dos bebês só ter acontecido no último capítulo. Havia desdobramentos demais.
- Cecilia Dassi: um absurdo de competente.
- Free Laura.
- O quão odioso é que Flávia tenha sido queimada na fogueira por ficar com o marido da amiga e o sujeito em questão tenha saído ileso e lépido?
- Ingrid Guimarães é uma vencedora.
- Recentemente conheci Suzana Vieira e tremi diante da mulher que fez uma das personagens mais incríveis da nossa teledramaturgia. Branca Letícia era um poço de machismos e preconceitos, mas Suzana estava perfeita. PERFEITA!
- A trilha internacional da novela segue sendo uma das piores.
- A trilha nacional segue se resumindo a Per Amore.
- Cigano Ígor e Magnólia: os precursores da traição com forró de fundo (sem forró).
- Barracos antológicos: Branca e Isabel Ultimate Fight.
- Barracos antológicos 2: MMA da Família Barros Motta. Todo mundo brigando na piscina, entre caldos e socos.
- Barracos antológicos 3: Eduarda chegando de viagem na primeira semana de novela e botando pra quebrar no hospital e na casa de Laura.
- Barracos antológicos 4: “E pensar que um dia ela estava se afogando na piscina e eu pulei pra salvar. Bem feito pra mim agora”. LETÍCIA, Branca.
- Atílio: muito barulho por nada.
- Monica Martelli: Uma secretária de futuro.
- Babi Xavier: Uma secretária sem futuro.
Que venha História de Amor (um dia)…














