A felicidade efêmera de Daniel Pierce.

No final da temporada passada, vimos Daniel ser privado de uma das únicas coisas que o realiza completamente: o ato de lecionar. No entanto, dentro do revés sofrido, o neurocientista encontrou uma motivação, deixando CLMU para trás e resolvendo respirar novos ares em Paris.

Claro que nenhum de nós achava que esse afastamento da Universidade e de Chicago seria algo com muita duração. E, após Paris, podemos dizer que duas pessoas sentiriam muito a falta de Daniel: Paul e Lewicki. A ginástica feita por ambos – especialmente por Paul – para que o neurocientista retornasse foi, por um lado, comovente e, por outro, o alívio cômico para um episódio que mostrou bastante tensão no arco na França.

Aliás, podemos dizer que, ao contrário do que eu achava na primeira temporada, na hora H Paul valoriza mais a amizade de longa data com Daniel do que sua posição como reitor na CLMU.  Afinal, ele correu grandes riscos em sua estratégia para convencer o Chanceler a trazer Daniel – com todos os benefícios possíveis – de volta. E, claro, se fosse descoberto, certamente ele sofreria as consequências. Ainda bem que deu tudo certo.

Enquanto isso, em Paris, vimos um Daniel muito confortável com suas férias, especialmente porque ele estava feliz na companhia de Miranda. No entanto, a aparição de Natalie bem no início do episódio indicou que talvez ele não estivesse tão feliz assim – o que nos deu a ideia de que haveria alguma crise em breve. Como eu disse no Top Maníacos de Perception, vejo Natalie como o termômetro do estado mental de Daniel. E ela certamente deu voz aos nossos pensamentos: talvez ele não estivesse tão bem quanto achava que estava.

Em contrapartida, a série fez questão de nos mostrar que o relacionamento de Kate e Donnie está de vento em popa. Não só a agente e o advogado estão achando os caminhos para ficarem juntos após a quebra do primeiro casamento, como vimos em Donnie a confirmação de uma grata mudança. Lembro-me de ter torcido o nariz quando o rapaz apareceu, pois ele apresentava um egocentrismo muito forte, justificando em nossa mente o porquê de não ter dado certo com Kate. No entanto, no decorrer da segunda temporada, Donnie foi demonstrando características muito interessantes e melhorando aquilo que era chato em sua personalidade. Aos poucos vi o promotor ganhando espaço e simpatia – inclusive no relacionamento formado com Daniel e nas tentativas feitas para que Kate voltasse para ele. É com bons olhos que enxergo o personagem nesse momento.

Apenas tenho ressalvas com relação ao pedido de casamento feito perto do final de Paris. Por mais que ele e Kate se conheçam muito bem e saibam o que querem, parece muito precipitado que eles já pulem para a assinatura dos papéis com tamanha pressa. Não podemos esquecer que o primeiro casamento não deu certo, e acho necessário que eles avaliem tudo o que os cerca antes de dar um passo maior que as pernas. Vamos ver como os roteiristas vão lidar com isso nesta temporada.

Ao mesmo tempo, aplaudo que os roteiristas tenham se concentrado em mostrar mais da amizade que Kate tem por Daniel. Sei que alguns shippers devem estar bem tristes agora. No entanto, creio que a série ganha ao sair do óbvio de colocar um envolvimento amoroso entre eles, quando pode explorar com mais êxito o querer do professor e sua ex-aluna. Inclusive porque as cenas em que Donnie faz questão de acompanhar Kate por carinho e preocupação pelo amigo – porque a fala dele deixou claro que ele queria saber como Daniel estava – tornou tudo tão agradável. Perdemos algo que provavelmente nasceu para ser um triângulo amoroso – particularmente agradeço por isso, porque cansei de todos eles. Mas ganhamos três pessoas que podem ser grandes amigas e que prometem memoráveis parcerias em investigações daqui para frente.

Inclusive vejo grande valor nessas amizades para Daniel. Tanto Kate e Donnie quanto Paul e Lewicki. Pois em Paris vimos que Miranda acabou partindo por não conseguir lidar com as questões da esquizofrenia do neurocientista. De certa forma não a condeno, embora esperasse um pouco mais de compreensão da parte dela – afinal Daniel deixou bem clara sua situação antes de retomar o relacionamento de onde tinham parado. No entanto, vimos bem o estado atingido por Daniel, e é claro que ele sempre pode voltar para essas crises, com mais frequência do que gostaríamos de admitir. E pelo menos ela foi sincera em relação ao que ela poderia suportar sobre isso.

Falando em concentrar em outras storylines que outras, é bom mencionar como essa season premiere focou muito mais em mostrar as questões relativas à esquizofrenia de Daniel que propriamente no procedural, que ficou em segundo ou até terceiro plano nesse episódio.

Na verdade, posso dizer que os roteiristas se esforçaram ao máximo em reproduzir para o espectador toda a confusão que o personagem sofre. Por muito tempo não houve jeito de saber se tudo o que Daniel estava vivendo era real ou fruto de sua imaginação. Dessa forma, fomos todos sugados para a espiral maluca em que o personagem estava, entendendo na pele o que ele estava passando e provavelmente colocando as mesmas questões que ele ao que estávamos vendo.

Perception sempre se supera ao focar nessas questões, tornando um episódio bem trabalhado e focado em seus personagens. O quanto pudemos aprender sobre cada um deles? O quanto pudemos empatizar ainda mais com o protagonista? Em certo momento até deixei de me preocupar com as explicações, tamanho meu envolvimento com o drama apresentado.

E, mesmo quando falamos da parte procedural, é possível afirmar que o episódio propositalmente não deixou claro o que era real ou parte da imaginação de Daniel. Mesmo a pequena aparição do falso Drexler na sequência da prisão de Serge não traçou linhas firmes sobre essas questões. E a máxima: “o que é real?” da série foi levada às últimas consequências em Paris.

Assim começamos a terceira temporada de Perception, questionando ainda mais os limites tênues entre o real e o que não é, e vendo em que lugar nossos personagens ficam nesse momento. Paris foi um bom começo, mostrando algumas mudanças e permanências na história. Agora vamos ver como isso se dá daqui para frente, com o retorno de Daniel à Chicago.

Anotações de aula: 

– Os ciúmes de Daniel inspiraram suas referências. Ele chamou Serge de Gérard Depardieu e Pepé Le Pew;
– Eric McCormack exibindo seus talentos de cantor no final do episódio;
– Eric foi questionado no twitter se falava francês, afinal ele falou um pouco do idioma no episódio. Ele disse que sabe um pouco por ser do Canadá. Olhe a resposta aqui;
– Alucinação da semana: Perception brincou com a esquizofrenia até na alucinação. Dois mímicos foram mostrados a nós, justamente para nos confundir. Um era alucinação e o outro era real. O real fez Daniel perceber que Serge tinha feito uma encenação para conseguir seus objetivos. O imaginário fez ele deduzir que Serge contrabandeava algo no cello de Miranda;

 

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