Em uma escolha arriscada, Penny Dreadful se preocupou demais com os bastidores.
Penny Dreadful nos mostrou um ótimo piloto, e nos presenteou com um espetacular segundo episódio. Séance raised the roof tão alto que não seria correto ter muita expectativa com Ressurrection. E essa atitude se mostrou certa, porque o episódio, apesar de ter qualidade inegável, não atingiu o nível dos dois primeiros.
Tivemos um prólogo sobre o início da fascinação de Victor Frankenstein pela morte, muito bem desenvolvido e produzido com cuidado e sem apelação. Não que tenha sido algo inédito, porque a morte de um ente querido ser estopim para obsessões é usado há muito, muito tempo. Quando usado com parcimônia, como aqui, funciona muito bem.
O maior deslize foi o desenvolvimento da trama de Frankenstein: eficiente e expositivo, mas um tanto falho. Victor abandonou seu primeiro monstro, assustado ao ver que criou um ser descontrolado e agonizante. Obviamente o cientista entrou em pânico, ao ver que, somado ao seu êxito em trazer um morto de volta à vida, não conseguiu controlar a dor lancinante de sua criatura. Entretanto, me pareceu um pouco inverossímil a situação. Victor simplesmente foi embora, deixando sua vida e uma outra e nova “vida” recém-criada para trás, junto com seu trabalho e tudo? Não foi convincente o bastante.
Enfim, a criatura aprendeu sozinha a ler e escrever com os livros deixados pelo criador, e também teve que aprender a conviver com a dor e o repúdio da sociedade, que o fez sofrer horrores com base no medo e nojo do diferente. E, após tanto rechaço, encontrou pela primeira vez o carinho em um ator espalhafatoso, que o acolheu, batizou-o como Caliban (um escravo deformado da obra The Tempest, de Shakespeare), e permitiu que vivesse e trabalhasse nos bastidores de um teatro. Aliás, um grande acerto de Penny Dreadful foi colocar na história um teatro, porque os seus bastidores sempre são ganchos para boas histórias – especialmente para um ser como Caliban, que vive nas sombras, tão abundantes debaixo do palco e por trás das cortinas.
É uma quebra da ideia comum de que o monstro de Frankenstein seria um grandalhão tosco, mais próximo de um zumbi do que de um ser humano. Essa ideia nada tem a ver com o livro de Mary Shelley, mas foi aclamada pelas produções artísticas de terror e comédia. Por isso, tive dificuldade de assimilar um monstro erudito. Entretanto, toda a erudição e reflexões justificadamente pessimistas de Caliban foram muito bem desenvolvidas no personagem, e, somadas à excelente atuação de Rory Kinnear, acabaram por ofuscar o ladrão de cenas Harry Treadaway.
Na verdade, a volta de Caliban não foi motivada por vingança, e sim por amor. Ele exige que Victor crie uma parceira, que também tenha o fardo da vida eterna. Com uma razão para ter entrado em cena e com uma justificativa não muito convincente sobre ter sido benevolente ao matar Proteus novamente (ninguém, muito menos uma pessoa erudita, sai rachando gente em dois com a mão), passamos a saber dos próximos passos de Victor e seu monstro. E aí Penny Dreadful tem que tomar cuidado para fazer com que a caça à parceira não caia na pieguice ou demore para se desenvolver. E, seguindo na linha sexual da série (que, tirando a ótima cena de sexo entre Ethan e Brona, mal foi abordada), eu não duvido nem um pouco que haja uma disputa entre Victor e Caliban em torno da mesma mulher.
Como o episódio foi demasiadamente focado em Victor e Caliban, as outras histórias foram deixadas de lado. Dorian Gray nem foi citado, Vanessa e sir Malcolm pouco fizeram. Contudo, foi muito simbólica a ida ao zoológico para buscar indícios do paradeiro de Mina Murray. O lugar onde feras ficam presas, enquanto outras feras observam. E essas feras que observam, no caso, não eram apenas humanos, e sim um grupo de lobos que lá rondava. Quando o primeiro lobo apareceu, imagino que não tenha sido o único a pensar que teríamos um lobisomem na história. Quando o resto da alcateia chegou (não é matilha, Djavan), Ethan conseguiu acertar a situação em uma misteriosa interação com o lobo, dando a mão para que a fera se aproximasse. Aí a situação muda de figura: qual era a experiência de vida de Ethan que o fez agir dessa forma? Ou, quem sabe, o americano tem algum tipo de relação com lobos? Ainda tem seres fantásticos que não entraram na história, né?
Então, tivemos um momento estranhamente humano e deslocado no episódio: quando o moleque vampiro (ou mais ou menos vampiro, não se sabe) é agredido pelo furioso sir Malcolm, Ethan intervém defendendo o rapaz, “uma pobre criança”, que está apanhando enquanto obviamente fora de si. E aí eu pergunto: pra que isso? Não entendi muito bem aonde o roteiro quis chegar, porque pareceu apenas uma cena clichê de compaixão e choque cultural. Para um americano, essa preocupação com o adolescente possuído não casou direito e ficou sobrando na história. O melhor momento da cena foi a menção a Amunet, Amun-Ra e o “mestre”. Mesmo que rápidas, dão o alento de que essa trama, que me parece mais significativa e preocupante do que a de Frankenstein, seja abordada com o devido espaço no episódio seguinte.
Obviamente o episódio deixou expectativas, mesmo sem ter uma grande ponta solta ou um sangrento cliffhanger como Séance. Contudo, Penny Dreadful não pode se dar ao luxo de ser expositiva demais. É compreensível que um episódio baseado em flashbacks não ande para a frente, mas muita explicação não necessariamente vai acrescentar algo para a série. E, quem sabe, possa até prejudicar, pois explicação demais não é adequada para tramas obscuras, e quando se perde a mão com mistérios, perde-se uma série inteira.
Outra coisa que ficou evidente nesse terceiro episódio foi o erro de deixar Eva Green em segundo plano. A entrega da atriz para o papel fez com que Vanessa Ives se tornasse o ponto nevrálgico da série. Os roteiristas precisam trabalhar com o fato de que Vanessa pouco aproveitada passa a sensação de que tem algo errado, algo faltando. O personagem é forte e brilhante demais para ser algo menos do que protagonista.
Como um todo, Ressurrection foi um bom episódio. Entretanto, não pode ser modelo para episódios seguintes. O reconfortante é que, agora que já não se tem muito que contar do passado, tudo volte a fluir como antes.






















