Minha primeira reação depois de visto o episódio dessa semana de Parks and Recreation foi de imediato dar uma conferida em alguns episódios com a presença de Dave, na segunda temporada da série.

Spoilers Abaixo:

Minha conclusão é de que antes os roteiristas não tinham um plano concreto para o personagem porque apesar de tudo ele não era carismático e muito menos carismático para o público era o seu intérprete (na época, claro), e agora, com o talento de Louis CK devidamente reconhecido com a magnífica Louie, eles se viram em uma encruzilhada já que deveriam dar sustentação a um personagem que nunca teve, de fato, uma base. Louis CK pode ter sido um elemento fundamental para a eficiência de “Dave Returns”, mas se estivéssemos falando de qualquer outro ator o impacto da sua storyline seria o mesmo?

Dave é um oficial da prefeitura de Pawnee que sempre teve uma “queda” por Leslie, e depois de um tempo longe ele volta para tentar reconquistá-la da maneira mais esquizofrênica possível. Talvez por a série sempre investir no que Leslie sentia por Dave, nunca tivemos a oportunidade de conhecer melhor o personagem de Louis CK, mas a identidade conferida a ele nesse episódio é de espantar. Claramente buscando as características mórbidas e auto-deteriorantes do stand-up, os roteiristas do episódio conferiram a Dave características de um verdadeiro maníaco, disposto a qualquer maluquice por um gesto de amor, ou até mesmo uma conversa (e a cena em que ele, Leslie e Ben decidem como vão conversar é hilária exatamente pela morbidez presente). O único problema é que se torna difícil acreditar que Dave sempre possuiu esse amor platônico pela personagem principal, e tanto os dois não ficaram juntos por mais tempo quanto Dave não parecia saber de nada do que ocorria na vida de Leslie. De qualquer forma, o segmento principal da trama, a cena no restaurante, mostrou toda a qualidade de Louis CK como ator de roteiro, encarnando um personagem similar em certos aspectos ao seu porta retrato narrativo em Louie (e é impossível não associar sua atuação com o maluco apaixonado Louie no episódio “Subway/Pamela”, da segunda temporada), e também um espaço para Adam Scott brilhar com a sua fobia de policiais.

Outro ponto a discutir em “Dave Returns” foi a insistência no casal Tom e Ann, que começou no episódio anterior. Ok, ambos os personagens estavam estacionados em seus devidos lugares-comuns, mas se a palavra de hora na interação dos dois é “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, os roteiristas vão precisar de muitas, MUITAS tentativas para esse casal dar certo, já que é nítido que os dois não tem nada em comum e nem ao menos possuem pólos que podem ser explorados de uma maneira interessante, como ocorreu com Andy e April na segunda e terceira temporada. Nunca tive antipatia por nenhum dos dois, mas caso essa “tentativa” não dê certo, é melhor que os responsáveis pela série consigam trazer algo muito bom para Ann e Tom logo, porque a desnecessidade dos personagens na série vai ficar insuportável.

Uma última trama do episódio foi Ron e seu passado como saxofonista cliente da gravadora onde Andy produz a música-tema da campanha de Leslie. Foi muito bom ver April sendo a única, a saber, deste segredo e destruindo qualquer possibilidade do mesmo ser descoberto por mais alguém, assim como Andy sendo o gênio perfeccionista por saber que estraga 90% das tarefas que lhe são dadas, mas a pergunta que fica pelo menos para mim é: quando Ron deixou de ser o adulto que, na menor das hipóteses, se dedica à música e é aficionado por desafios de lógica para se tornar o chefão de meia idade que passa a maior parte do tempo entediado pela existência alheia? Claro que a resposta óbvia é a crítica ao funcionalismo público, que se resume aos funcionários que não fazem nada o dia inteiro e precisam ser complacentes ao sistema, mas a série se preocupa mais em mostrar aspectos que humanizam o personagem do que inserir breaking points que poderiam explicar melhor esse “Ron Swanson way of life” que nós fãs tanto gostamos.

Outras observações:

– A volta de Louis CK agora astro de um episódio, me fez lembrar do Mark, cujo intérprete Paul Schneider decidiu sair da série para tentar carreira no cinema. Na época ele ganhou elogios da crítica por seu trabalho em “Brilho de Uma Paixão” (Bright Star), mas até agora não se destacou em mais nada. Já que Ann está à beira de uma trama recorrente horrível, a volta do personagem mais sério que a série já teve não seria má idéia.

– É de consenso geral que a série parece ter encontrado um padrão de qualidade, principalmente na segunda parte da temporada. Todos os episódios garantem uma boa dose de humor, e apesar de não ter sido tão fã de “Dave Returns”, este está longe de ser considerado um ponto baixo na temporada. Esse padrão também passa pelo elenco, que está sempre em harmonia e cada intérprete consegue cumprir seu papel quando é dado o devido destaque (nesse episódio, por exemplo, Adam Scott esteve muito bem). Mas Amy Poehler continua sendo o grande destaque da série, impressionante como ela alcança todo o teor cômico possível em cada cena, em cada detalhe, deixando a sensação de que nada a mais poderia ser aproveitado por qualquer outro tipo de interpretação. E onde está seu Emmy de Melhor Atriz?

– Tom: “Am I in a relationship?… It’s complicated.”

– Andy: “I have finished writing Leslie’s campaign anthem. It’s called “Catch Your Dream”, and it’s amazing. It’s kind of like We Are The World, except I actually think it could have a real impact on society.” OUCH!

– Donna: “When you two spoon,who spoons who?” Donna sempre genial nas suas pequenas participações por episódio.

– Já está ficando chato esse processo eleitoral em Pawnee e NADA do prefeito da cidade aparecer. Alô, Charlie Sheen? Norm MacDonald? Woody Harrelson? Alguém?

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