Sétimo filme da franquia não investe na energia jovem de antes e causa a rejeição de uma audiência que não quer falar de etarismo.
Quando Pânico estreou pela primeira vez, em 1996, ele tinha um grupo interessante de adultos. A repórter Gale Weathers era uma vilã desalmada disposta a tudo para ter uma boa matéria; o oficial Dwight Riley era um homem inocente e desengonçado; e o séquito de personagens maduros passava por um diretor assassinado, uma mãe traidora, um pai omisso, um câmera-man degolado… Ser adulto em Pânico não era um bom negócio; porque a verdadeira inteligência e sagacidade pertencia aos jovens.
Essa energia jovem dominou as sequências. Embora Sidney estivesse na faculdade no segundo filme e já fosse uma adulta no quarto filme, os personagens na faixa dos 18 a 20 anos eram sempre o foco da maioria dos grandes movimentos. O terceiro filme é o único que podemos dizer ter sido dominado mais por adultos; embora o resultado tenha sido o mesmo do filme 1: os adultos eram decadentes, burros ou perversos.
Em seguida, quando a nova trilogia começou, mais uma vez a energia jovem era o centro das atenções. No caso de Pânico 5 e 6, a sensação de que os personagens clássicos estavam deslocados era maior ainda. Dewey foi morto; Gale ficou sozinha no filme seguinte… e o estúdio estava mandando um recado muito claro: descobrimos que não precisamos mais de Sidney. O sucesso estrondoso dos filmes protagonizados por Melissa Barrera e Jenna Ortega tinha estabelecido o argumento que Hollywood adora usar na hora de “dispensar” seus veteranos: a energia jovem VENDE.
E então veio o problema das declarações de Melissa sobre o conflito Israel X Palestina. Sua injusta demissão causou um efeito imediato na nova geração de fãs, que conheceu o universo da franquia através dela “e da atriz que faz a Wandinha”. Foi uma convergência da indignação pela demissão por conta de um assunto tão importante, com a indignação de saber que dali para frente, Samantha e Tara não estariam mais juntas nos filmes. Quando Pânico 7 foi anunciado, a gente já sabia que ele enfrentaria muitos problemas.
A última vez que Sidney protagonizou um filme inteiro foi em 2011, em Pânico 4. De lá até 2026 se passaram 15 anos. Sidney encontrou o “final feliz” que tantos queriam para ela. Ela está morando numa cidade do interior; casou-se, tem 3 filhas e um marido atencioso e paciente. Ela tem uma vida comum. Totalmente comum. É evidente que decidir trazê-la de volta para uma nova história representaria lidar com essa realidade. Dessa vez a protagonista não é mais uma menina ou uma jovem; é uma mulher madura, mãe, esposa, proprietária de um negócio.
Mudar o tom do filme não seria nem uma decisão consciente, mas uma inevitabilidade. Quando o Ghostface retorna para a vida de Sidney, ele traz consigo um interesse e uma motivação diferentes de tudo que a gente tinha visto até aqui, porque ele sabe, assim como nós, que o sétimo filme precisa ir em outra direção. Essa direção não faz ele feliz, assim como não faz feliz muita gente que está assistindo ao filme. Pânico 7 é sobre trauma e maturidade; é sobre como está a vida dessa mulher madura que a gente conheceu jovem. Então, ela não pode agir da mesma maneira que antes ou ter sua história contada do mesmo jeito.
Isso se reflete no texto e na direção, inevitavelmente. Kevin Williamson assumiu os dois postos (mais como diretor que como roteirista) e já providenciou uma abordagem muito mais sombria ao assassino da vez. Ghostface aparece o tempo todo em sombras e transparências; e se aproveita de elementos que estão em volta para cometer seus crimes (uma pessoa caindo em direção à faca; uma pessoa pendurada enquanto ele só posiciona sua faca embaixo, coisas assim). Diferente dos outros, esse é mais sério, concentrado, se atrapalha menos e fala pouco. Resultado direto de quem está por trás da máscara.
A mudança mais questionável, contudo, está na sagacidade do texto que já conhecemos bem. O comentário sobre cultura pop e gêneros cinematográficos que sempre fez parte da espinha da franquia, aqui foi diminuído consideravelmente. Ainda há sacadas ótimas (como a fala sobre IA e sobre os problemas da nostalgia), mas com menos frequência que nos roteiros anteriores. Isso, é claro, também ajuda a causar certo distanciamento. A decisão me parece consciente, considerando que dessa vez os personagens jovens não são as bases onde se apoia a trama. Mas, especialmente no terceiro ato, o descuido com o texto pode ter prejudicado a emissão dos poderosos motivos do assassino; que espertamente estabeleciam qual o ponto de vista de Kevin e Neve.
ATENÇÃO, SPOILERS (se não quiser saber fuja para o panic room)
Neste filme sobre maturidade, em que a energia adolescente não é mais prioridade, os motivos por trás dos crimes só poderiam ter a ver com o etarismo que cerca essas longevas franquias de cinema. Depois de um tempo – e como aconteceu com Neve – começam a aparecer aqueles que julgam ser necessário “renovar” as fontes, substituindo – na frente e por trás das câmeras – os responsáveis pelo nascimento da obra, para que essa mesma obra tivesse – segundo os poderosos que a detém – uma chance de perdurar em diálogo com novas audiências.
Dessa vez, parte dessa audiência está em plena sintonia com os motivos do Ghostface: Vocês foram para uma outra direção e eu não gosto desse novo caminho. Quando a máscara é retirada e o motivo vem à tona, ele está novamente falando de como a indústria trata seus veteranos; de como a indústria tratou Neve; e de como parte do público nem percebe que está endossando essas posturas. A assassina explica que se tornou fã de Sidney por causa de seu livro; o que é interessante, já que pela primeira vez o motivo não tem a ver com filmes; o que também adiciona uma camada extra de crueldade contra Sidney: ela agora está sendo perseguida até por conta de sua biografia. Só que essa fã de Sidney está presa ao que Sidney REPRESENTOU; e não está nada feliz de vê-la como uma mulher madura e tranquila. Então, ela planeja matar Sidney e “produzir uma nova Sidney”, jovem, que seria ainda mais interessante por ser filha da anterior.
Essa assassina – principalmente por causa dos outros filmes 5 e 6 – acha que a Sydney não é mais importante; que ela está velha; que ela está ultrapassada; e esse é um baita de um motivo bom; porque quando o estúdio se recusou a pagar o que a Neve Campbell pediu e fez um filme sem ela, eles estavam dizendo a mesma coisa: você não importa mais.
Tem coisa mais vigente no mercado?
É evidente que mesmo cientes desse ponto de vista, as pessoas podem continuar desgostando do filme. O ponto aqui é que EXISTE um ponto; que o sétimo longa veio para dizer algo; para manter o diálogo entre os filmes e o mainstream da cultura pop absolutamente vivo. Precisamos, inclusive, manter em perspectiva que a revelação dos assassinos ter sido “sem alguém que está mais presente no filme” também não está longe do cânone. Em Pânico 2 os assassinos tiveram no máximo 3 cenas até serem revelados. De fato, vários dos assassinos de alguns dos filmes, tiveram poucas cenas durante a trama.
Num filme sobre maturidade e etarismo, faz sentido para mim que os assassinos também fossem maduros. E é especialmente interessante que pela primeira vez o entorno da jovem perseguida não tenha nenhum psicopata escondido esperando para traí-la. Aliás, vale dizer que esse foi um filme cheio de “primeiras vezes”… a primeira vez que os assassinos não estão no entorno da jovem perseguida; primeira vez que um dos Ghostfaces morre no meio da história; primeira vez que o Ghostface aparece ajeitando a máscara no meio de um ataque… e sim, muitos sobreviventes. Se o roteiro está disposto a não eliminar gente querida agora, estou disposto a esperar até que eles achem extremamente necessário fazê-lo.
Com um ponto de vista forte e uma direção muito segura; Pânico 7 está longe de ser “o pior da franquia”. É apenas um filme diferente; maduro; que veio para ser o que precisa ser, ainda que isso signifique a possibilidade de não poder continuar.
Se bem que… isso seria deixar esses “ghostfaces” vencerem. É isso mesmo que a gente quer?
Facadas:
- Nenhuma menção a Sam e Tara. Gostei de Chad e Mindy não terem voltado só para morrer, mas fiquei esperando um update. Contudo, ao mesmo tempo, me parece mais elegante não tentar explicar uma situação que por si só já é ruim.
- Também não sabemos se o Mark de agora é o mesmo Mark do filme 3 (só que com um ator diferente); ou se a Sidney ficou com dois homens diferentes que têm o mesmo nome e a mesma profissão.
- As sequências entre Gale e Sidney foram muito especiais. O destaque ficou pra quando Sidney diz “você sempre me ajudou e eu te deixei sozinha em NY”. Chorei.
- A sequência da perseguição na casa de Sidney que resultou na morte de um dos Ghostfaces foi ANTOLÓGICA.
- Atenção gente: o exagero da sequência com os antigos assassinos nas televisões foi ruim, mas vocês se lembram do que aconteceu nos finais dos filmes 2, 3 e 6? Aquela coisa ridícula da Sra Lumis sendo derrubada por pedras de isopor no 2; o saco de cadáver ensanguentado falante no 3; e aquele cinema sem sentido cheio de memorabília da franquia no 6… Eles de vez em quando perdem a mão no terceiro ato.
- Quando o 3 e especialmente o 4 foram lançados, a crítica destruiu os filmes. O tempo mudou várias percepções. A virada para o 7 também virá.
- E gente… Pânico é sobre fan service. Nunca se esqueçam disso.




















