Sucesso da HBO descumpre todas as promessas que fez ao espectador quando começou sua terceira estadia, na Tailândia.

A palavra karma vem do sânscrito e significa “ação”; e envolve um princípio básico que é amplamente conhecido no mundo: ações negativas geram karma negativo e voltam para você negativamente; ações positivas idem. É o que – a grosso modo – explicaria conexões e resultados existenciais que não podem ser compreendidos de maneira prática. O karma está muito presente no budismo e é claro que viajar para a Tailândia na terceira temporada, significava dar à The White Lotus uma dose mínima que fosse, desses princípios.

Parece, contudo, que Mike White, criador da série, fez mais que isso, e preencheu o enredo da temporada seguindo o que conhecemos como As 12 Leis do Karma. Para cada grande personagem desse ano ele entregou um desses itens; e em volta, preparou o espectador para uma convergência de tensões, que explodiriam em ações e significados, alguns vindos de existências (temporadas) anteriores; e outras produzindo – quem sabe – reverberações para existências posteriores.

Bem, isso era o que deveria ter sido. Essa é uma descrição em primeira instância, porque, de fato, o que presenciamos nessa temporada foi um criador consumido por uma perigosa percepção de si mesmo. The White Lotus mostrou sua segunda temporada em 2022. Mike White teve muito tempo para absorver tudo que as pessoas diziam e esperavam da série; muito tempo para ser afetado por isso. O que aconteceu não foi uma surpresa… De volta, Mike tomou a decisão de “fazer diferente”; e os problemas começaram aí.

Em algumas de suas declarações, o criador reforçou que algumas das coisas que ele ouvia sobre a série o incomodavam porque não eram parte do que ele havia idealizado. Uma delas era de que “a série era uma história sobre funcionários de um hotel lidando com ricos alienados”. A primeira coisa que ele fez, então, foi diminuir completamente o núcleo de funcionários da temporada. O único com melhor posicionamento era Gaitok; os outros eram somente escadas para os protagonistas. Isso também provoca uma imediata queda na valorização da diversidade desse cast.

Sua “saga” para parecer “inovador” e matar tudo que funcionava seguiu passando pela abertura; o que faz sentido até, se considerarmos que a mudança para a Tailândia representa, também, uma mudança visual. As duas primeiras temporadas se passavam em lugares solares, com muitas tomadas de ondas quebrando na praia. Mike White participou de uma temporada do Survivor e de duas do The Amazing Race. Na segunda vez no Amazing Race ele foi eliminado enquanto passava pela Tailândia; e declarou ter jurado que nunca mais voltaria lá. A Tailândia foi uma exigência da HBO; e foi como se todas as insatisfações de Mike juntas convergissem na maneira como ele tratou esse novo ano.

Isso nos leva para o que foi mencionado sobre  As 12 Leis do Karma, onde os personagens parecem ter sido encaixados. A Lei da Criação fala sobre o ser humano ser capaz de criar a realidade que deseja; uma lei que se aplica a qualquer personagem, mas que se direciona melhor para Belinda, quando consideramos a parte da lei que fala sobre “ser julgado no futuro pelas escolhas feitas para conseguir realizar esse desejo”. E aqui começamos, também, a perceber que embora as tramas estivessem estabelecidas, Mike White escolheu construir tensões sem nenhum interesse em resolve-las. Belinda voltou para fazer com o colega do hotel o mesmo que Tanya fez com ela; e se aproveita do dinheiro de um provável assassino. Nenhuma resposta, nenhum conflito, nenhuma resolução.

Na Lei da Humildade, fala-se sobre “olhar para a realidade mesmo sem gostar dela” e sobre apegos materiais. Há uma crítica óbvia em ter gente rica indo para um resort de luxo na Tailândia atrás de equilíbrio espiritual; mas o roteiro deu uma reforçada nisso com a presença da Família Ratliff. Há desdobramentos quando consideramos alguns personagens individualmente, mas o núcleo desses personagens estava apoiado numa base única: eles eram ricos, egocêntricos e narcisistas. A mudança para eles era impossível, porque eles não eram capazes de olhar para dentro.

Talvez esse núcleo familiar tenha sido o mais promissor e também o mais problemático dessa temporada. A figura do patriarca Timothy era a chave. Quando ele descobre a que a família perdeu tudo, ele não aplica a Lei da Responsabilidade e começa a fantasiar a ideia de que matar todo mundo é a única solução. A gente sabe que seria exagero que todos os membros da família morressem, mas foi extremamente frustrante acompanhar por várias semanas uma construção de tensões gradativas culminando no acidente que levaria à morte de Loch, para simplesmente ver tudo esvaziar-se numa ressurreição cafona.

As mortes das outras temporadas foram acidentais para os protagonistas; o que faria com que a partida de Loch estivesse dentro da unidade da série. Mas, lembrem-se que Mike White queria “mudar”; e no último instante fomos privados de ver a família viver consequências derradeiras. O que quer que tenha acontecido com eles, nós não vimos. E considerando que Loch era um menino regido pela Lei da Hospitalidade (para agradar a irmã ele passava a noite com ela sem conforto e sem reclamar; para agradar o irmão ele… bem, vocês sabem), a morte dele – o único capaz de viver sem luxo – seria a devolução kármica perfeita para todos os outros Ratliffs. Dessa maneira, até mesmo a cena do incesto seria menos gratuita; e faria com que Saxon realmente precisasse lidar com seus excessos pela ótica da perda.

De todos os núcleos, o das amigas Laurie, Catlyn e Kate foi ainda menos explorado que os outros. Esse núcleo lidava com a Lei do Crescimento, que só é possível quando você para de desejar o que não tem e para de invejar os outros. Fomos levados a crer – até pela escolha da deusa Carrie Coon – que Laurie seria a chave desse núcleo, por ser – segundo ela mesma – a que tinha menos “características louváveis” segundo o olhar das outras duas. Mas, não só esse núcleo não foi para lugar nenhum, como terminou depois de um monólogo piegas saído do nada, que fez as personagens voltarem para onde estavam sem que nenhum verdadeiro crescimento (ou derrocada) preenchesse o caminho delas.

Enfim, nenhuma lei nessa temporada foi mais importante que a Lei do Aqui e Agora. Uma lei sobre não viver ancorado no passado, o que poderia inviabilizar o aproveitamento do futuro. Apenas quando se treina a atenção para o momento presente, pode-se valorizar o melhor de cada instante. Essa era, sem dúvidas, a dinâmica entre Rick e Chelsea. Ele preso ao passado por conta da sede de vingança; e ela desesperada para fazê-lo entender que estava desperdiçando o amor e acolhimento que estavam ali na cara dele.

Mike White deu algumas entrevistas falando sobre como a história de Rick era inspirada nas tragédias gregas; conhecidas por valorizarem a ação do destino em detrimento da vontade dos protagonistas. A coisa toda parece um pouco fora do lugar. Quando Rick escolhe não matar o homem que odiou a vida inteira, ele está exercendo seu poder enquanto dono da própria história. A partir dali, sendo inteligente, ele deveria ter buscado Chelsea e saído do país imediatamente. Mas, ele toma a decisão burra de voltar para o hotel.

Ainda que na mente de Mike White o retorno do homem que ele odiava soasse uma ação do “destino”, Rick ainda tinha a escolha de ir embora, de ouvir os apelos de Chelsea e ir embora. Quando ele morre, ele morre não regido pelas tragédias gregas, mas como resultado das próprias escolhas. A morte de Chelsea, no fim das contas, foi apenas para chocar, já que com os dois mortos, nenhum deles aprende coisa nenhuma. E nem vamos nos aprofundar na coisa toda do “ele é seu pai”, porque foi a cereja podre no bolo mal batido dessa finale.

Existe uma lei do karma que se chama Lei da Paciência e da Recompensa; que diz que todas as recompensas exigem esforço; desde que você faça por si enquanto espera. É curioso, porque a terceira temporada de The White Lotus exigiu de todos nós o esforço para administrar mudanças e também a paciência para administrar expectativas. Ao final, fomos surpreendidos com desfechos que se dividiram entre a pobreza dos significados e a preguiça do entretenimento. Não houve recompensa.

Ao menos agora temos algo em comum com Mike White, o criador de tudo isso. Também perdemos algo quando chegamos à Tailândia; e também não queremos nunca mais voltar lá.

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